O que fazer com o que já está na casa
Cama de frente para a porta: de onde vem o nome assustador e como sair da linha
Trinta centímetros de colchão arrastado. É a correção mais barata do quarto inteiro, e ela não precisa de nenhuma teoria para funcionar.
O princípio, antes da receita
Deite na sua cama agora e olhe para os pés. Se você vê o vão inteiro da porta bem à sua frente, com os pés apontados para a abertura, é este o caso. Repare que a escola não pede que você deixe de ver a porta: ela pede o contrário disso. A recomendação clássica se chama posição de comando, que é a preferência por dormir, sentar ou cozinhar enxergando quem chega, de preferência no ponto mais distante da entrada e na diagonal em relação a ela, com parede cheia atrás da cabeça. O problema não é ver a porta, é estar plantado na linha reta dela.
O apelido pesado tem uma origem concreta e vale conhecer, porque conhecer costuma ser o que desarma. Na tradição funerária chinesa, o corpo era velado deitado com os pés voltados para a saída, para que fosse carregado para fora nessa direção. A mesma cena existe no português: quando alguém diz que só sai de um lugar com os pés para a frente, está descrevendo exatamente esse enquadramento. Então o nome não é um diagnóstico sobre a sua vida, é uma imagem, um jeito antigo e teatral de dizer que ninguém quer dormir todas as noites na pose de quem está sendo levado embora.
A metade conferível é bem mais prosaica e é ela que sustenta a instrução. A porta é a boca do cômodo: por ali entram o ar, a luz do corredor, o som da casa e as pessoas. Quem deita na projeção reta desse vão fica no caminho dos quatro ao mesmo tempo, e se existir uma janela na parede oposta, a cama está no meio exato da ventilação cruzada, que em julho, no Sul e no Sudeste, é uma corrente fria bem real. Uma divergência a declarar antes de seguir: a escola da bússola orienta a cabeceira pelos pontos cardeais e pelo número kua de cada morador, então se você leu que a sua cabeça precisa apontar para o sudeste, isso vem de lá. Este portal segue o chapéu negro, também escrito chapéu preto, que lê a casa a partir da porta de entrada e não usa bússola nenhuma.
O que fazer hoje
Comece medindo em vez de decidir. Pegue dois pedaços de fita crepe e marque no chão a faixa que sai do vão da porta e atravessa o quarto, como se a abertura projetasse um corredor invisível. Tudo o que você precisa é que a cama saia dessa faixa, e não que ela mude de parede. Em quarto pequeno isso costuma ser questão de trinta a quarenta centímetros, e quem impede a manobra quase nunca é a cama: é a cômoda encostada por inércia desde a mudança, ou o guarda-roupa que poderia deslizar meio metro. Vale gastar quinze minutos com uma trena antes de concluir que não dá.
Se a cama não sai da faixa, feche o pé dela. A escola aceita solução parcial e essa é a mais usada: alguma coisa firme entre o pé da cama e a abertura, na altura do peito de quem está deitado, que dá mais ou menos meio metro acima do colchão. Serve baú, banco de madeira, cômoda baixa, um painel de compensado apoiado, um biombo dobrável ou uma planta alta de folha larga no canto certo. A versão de custo zero existe e muita gente já tem em casa: a mala grande de viagem coberta com uma manta dobrada. O cesto de roupa suja não conta, e não é implicância estética: cesto é tarefa pendente parada no campo de visão, que é justamente o oposto do que se quer no pé da cama.
Depois trate a porta em si, que é a parte que ninguém lembra. Olhe para que lado a folha abre: em muitos quartos brasileiros ela abre expondo a cama inteira, e inverter o sentido é serviço de trocar as dobradiças de lado, coisa de uma manhã e de valor baixo com qualquer marceneiro de bairro. Se a porta fica entreaberta à noite por hábito, ponha um calço de borracha ou um retentor magnético de poucos reais para ela parar de abrir sozinha com a corrente de ar. E se o que realmente incomoda é a luz do corredor quando alguém levanta de madrugada, a solução não está na cama: uma lâmpada de tomada com sensor, dessas de vinte reais, deixa a pessoa atravessar o corredor sem acender o teto.
O que não fazer
Não instale um espelho para conseguir ver a porta. É o conselho mais repetido nos blogs e ele colide com uma regra mais forte da própria escola, que é a de não deixar superfície refletindo a cama, assunto que este portal já trata numa página inteira. Existe uma versão que funciona, um espelho pequeno posicionado de modo a devolver só o vão da porta e nunca o colchão, mas em quarto de nove metros quadrados isso é bem mais difícil de conseguir do que de escrever. Antes de tentar esse malabarismo, tente arrastar o colchão.
Não compre nada para compensar. Cristal no pé da cama, sal nos cantos, espelho baguá pregado na porta do quarto: nenhuma dessas coisas é a resposta para um problema de posição, e o espelho baguá em particular é peça de fachada, feita para o lado de fora da casa, e não item de dormitório. A tradição inteira aqui pede movimento de móvel, e movimento de móvel é de graça. Se depois de arrumar a posição você quiser um objeto no quarto porque gosta dele, ótimo, mas ele entra como objeto e não como conserto.
E não troque um caso por outro. A fuga mais comum de quem descobre esta regra é empurrar a cabeceira para debaixo da janela, que é o arranjo que a escola desaconselha com mais firmeza ainda e que este portal trata em página própria. Também não encoste a cama numa parede lateral de forma que um dos lados fique sem passagem: casal que dorme com um lado da cama contra o muro passa a subir por cima do outro para levantar de madrugada, e isso é um incômodo diário maior do que qualquer alinhamento com a porta. Por último, não transforme a descoberta em discussão familiar. A escola é hierárquica, aceita meio caminho e não exige unanimidade dentro de casa.
O que ele faz e o que ele não faz
Comecemos pelo que o arranjo não faz, porque é isso que você veio conferir. Dormir alinhado com a porta não encurta a vida de ninguém, não adoece, não provoca separação e não trava dinheiro. O apelido é a descrição de uma cena de velório, não um prognóstico, e quem transforma a imagem em ameaça está fabricando um problema para vender uma solução. Se você dormiu assim por dez anos e está bem, você está bem.
O que sobra depois de tirar o exagero continua sendo útil, e é bom que seja pouco e sólido. A projeção reta da porta é o pedaço do quarto por onde passa a luz do corredor, o som da casa, a corrente de ar entre a porta e a janela e as pessoas que entram. Enxergar a entrada sem torcer o pescoço é uma preferência que aparece de forma independente na tradição chinesa, na etiqueta de mesa japonesa, no projeto de hotel e no gosto de qualquer pessoa que escolhe onde sentar num restaurante vazio. Quando costumes que não se falaram chegam ao mesmo lugar, costuma haver um motivo simples por trás.
O ganho de arrumar isso é por subtração, nunca por adição. Você não ganha nada de novo movendo o colchão; você para de acordar com o facho do corredor e para de dormir na rota do vento entre duas aberturas. Vale ainda a distinção que este portal repete sempre que cabe: o feng shui cuida do lugar onde a pessoa mora, e o mapa chinês, os quatro pilares tirados de data, hora e cidade de nascimento, cuida de quem mora ali. São duas perguntas diferentes e nenhuma das duas responde pela outra.
Você sabia?
Três culturas que não combinaram nada proibiram dormir na pose do morto, e cada uma pelo seu detalhe. Na China, o velório punha o corpo com os pés voltados para a saída, e daí saiu o apelido de posição do caixão que atravessou os manuais até chegar aos blogs brasileiros. No português a mesma cena virou expressão corrente, aquela de sair de um lugar só com os pés para a frente, que qualquer pessoa entende sem explicação. E no Japão existe um tabu com nome próprio, kita makura, o travesseiro ao norte: conta a tradição budista que o Buda morreu deitado com a cabeça voltada para o norte, e por isso é assim que se deita o corpo no velório japonês, o que fez com que muita gente evite dormir nessa direção a vida inteira. Hotel japonês antigo montava os quartos considerando isso. Repare no que as três têm em comum: nenhuma diz que a posição faz alguma coisa com você. Todas dizem que a pessoa viva não deveria passar oito horas por noite ensaiando uma cena que a cultura dela reservou para outra ocasião. É superstição de encenação, não de consequência, e entender isso costuma tirar metade do medo de quem chegou aqui assustado.
As providências, na ordem de impacto
- 1Deite na cama e olhe para os pés. Se você vê o vão inteiro da porta e os seus pés apontam para ele, o diagnóstico está feito e leva dez segundos.
- 2Marque no chão, com dois pedaços de fita crepe, a faixa que sai do vão da porta. Tudo o que a escola pede é que a cama saia dessa faixa.
- 3Arraste o colchão trinta ou quarenta centímetros. Antes de desistir, veja se quem trava a manobra é a cômoda que está ali por inércia desde a mudança.
- 4Se a cama não sai mesmo, ponha algo firme no pé dela: baú, banco, cômoda baixa. Meio metro acima do colchão já fecha a cena.
- 5Olhe para que lado a folha da porta abre. Inverter o sentido é trocar as dobradiças de lado, serviço de uma manhã com marceneiro de bairro.
- 6Feche a porta à noite e resolva a luz do corredor com uma lâmpada de tomada com sensor, para ninguém precisar acender o teto de madrugada.
As áreas do baguá que este assunto toca
Grátis, sem cadastro
Descubra em 15 perguntas o que a sua casa está pedindo primeiro
Quinze perguntas de sim ou não sobre a porta, a luz, o caminho e o que está quebrado. No fim vem a sua lista, em ordem de impacto, e quase tudo se resolve sem comprar nada.
Você informa: quinze respostas de sim ou não. O resultado aparece na hora.
Leva 5 segundos
Manda para quem vai se ver nisto
Você já pensou em alguém enquanto lia. Mande esta página para essa pessoa e pergunte o que ela achou: é assim que a conversa começa.
Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
É ruim dormir com os pés apontados para a porta?
Por que chamam de posição do caixão?
E se a cama só cabe naquele lugar?
Posso pôr um espelho para enxergar a porta?
A cabeceira precisa apontar para alguma direção específica?
Continue explorando
O resto do que já está na casa
- A televisão no quarto
- O lixo na cozinha
- A bicicleta na sala
- A porta que range
- A lâmpada queimada
- O varal dentro de casa
- Os fios e os carregadores
- O espelho de frente para a cama
- A viga aparente sobre a cama
- O sofá de costas para a porta
- A cama embaixo da janela
- As coisas embaixo da cama
- O relógio parado
- As flores secas
- O cacto dentro de casa
- Os sapatos na entrada
- A torneira pingando
- A porta da frente alinhada com a dos fundos
- O quarto em cima da garagem
- O banheiro em cima da cozinha
- A escada de frente para a porta
- O quarto no fim do corredor
- A cozinha ao lado do banheiro
- A cabeceira na parede do banheiro
- A porta do banheiro de frente para a cama
- O fogão de costas para a porta
- O pé-direito baixo e o teto inclinado
- A quina de parede apontada para a cama
- A moeda chinesa
- O sapo de três patas
- A tartaruga
- O elefante
- Feng shui, do começo
Cada uma abre a leitura completa, do mesmo tamanho desta.