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O que fazer com o que já está na casa

Quina apontada para a cama: o que é sha chi, a tal flecha envenenada

Você leu que uma quina apontada para a cama é uma flecha envenenada e ficou olhando para o canto do seu quarto com desconfiança. Antes de qualquer coisa, o alívio: a tradição não diz que uma quina faz alguma coisa com você, e a regra tem um recorte muito mais estreito do que a internet sugere. Só existe assunto quando uma aresta viva aponta para um lugar onde alguém passa horas parado, e o resto das quinas da sua casa não interessa a ninguém. Esta página explica o que é sha chi em português comum, mostra onde a coisa realmente aparece no quarto brasileiro, e dá cinco correções que você faz hoje, sendo que a mais barata delas é vendida em loja de bebê.
Quina só é assunto quando aponta para onde alguém fica horas. O resto da casa pode ter quantas quiser, e tem.

O princípio, antes da receita

Chi, no vocabulário da escola, é o nome que se dá ao fluxo que atravessa um lugar: o ar, a luz, o som, o movimento das pessoas e a atenção. Quando esse fluxo circula largo e devagar, a tradição chama de sheng chi, o sopro que alimenta. Quando ele chega concentrado, rápido e apontado num único ponto, chama de sha chi, que se traduz melhor como sopro que fere do que como energia negativa. A expressão flecha envenenada, que virou padrão no Brasil, não é tradução do chinês: é uma imagem criada nos livros de feng shui em inglês nos anos oitenta e noventa, boa para memorizar e péssima para o sossego de quem lê pela primeira vez. O termo chinês para o caso específico da quina fala, literalmente, de canto pontiagudo.

A leitura nasceu fora de casa, no feng shui de paisagem. Os mestres liam o formato do terreno e desaconselhavam construir onde uma crista de morro, uma estrada reta, um rio canalizado ou o beiral de outra construção apontasse direto para a fachada, porque essas formas concentram vento, água e movimento num único ponto. Quando o mesmo raciocínio entra numa casa, ele se aplica às formas construídas: a quina de uma parede que avança, a aresta de um pilar, o canto do armário planejado que parou antes da parede, a ponta de uma prateleira, o canto da bancada de mármore, a quina do prédio vizinho vista da janela.

A metade conferível é a mais simples do mundo e você já a viveu. Pense no canto da mesa de centro: você sabe exatamente onde ele fica, porque já bateu a canela nele no escuro. Uma aresta de noventa graus na altura do corpo é o objeto com que as pessoas esbarram, e é por isso que a indústria de puericultura vende protetor de quina aos milhões. Existe ainda um efeito visual honesto e bem menos famoso: o olho é atraído por borda de alto contraste, e uma quina viva iluminada de lado é a linha mais nítida do quarto, aquela para a qual a vista volta sem ninguém pedir. Nada disso é misticismo, e nada disso é grave. É só a razão pela qual a tradição resolveu escrever sobre o assunto.

O que fazer hoje

Faça o diagnóstico deitado, porque é a única perspectiva que importa. Deite na cama, na sua posição de dormir, e olhe em volta. Se você enxerga uma aresta apontando na direção do travesseiro, achou. Uma dica que funciona melhor que o olho: tire uma foto com o celular na altura do travesseiro, porque a câmera mostra o que o olhar já aprendeu a ignorar. Se você não achar nenhuma quina apontada, o assunto acabou aqui e você pode fechar a página tranquilo, o que acontece na maior parte dos quartos.

A primeira correção é sempre mover a cama, e ela é gratuita. Trinta ou quarenta centímetros para o lado costumam bastar para que a aresta passe a apontar para o chão vazio em vez de apontar para a sua cabeça. Se a cama não anda, a segunda correção é a mais bonita e a mais tradicional: pôr uma planta de folha larga e arredondada na frente da quina, encostada no canto, de modo que a folhagem cubra a aresta. A escola lê o formato da folha antes de ler a espécie, e folha redonda e carnuda é justamente o que suaviza, enquanto folha pontuda faria o oposto. Um vaso alto de jiboia, de pacová ou de qualquer folhagem de folha larga resolve, e o portal tem uma página inteira sobre plantas como cura.

Depois vêm as saídas que servem quando não cabe planta. Um pano comprido pendurado do teto ao chão sobre o canto transforma a aresta num plano curvo, e uma cortina estreita presa num varão de pressão faz isso sem furo nenhum. Um móvel alto e estreito encostado no canto faz a quina desaparecer dentro de um plano. E existe a solução literal, que é a mais barata de todas: as cantoneiras de silicone transparente vendidas em loja de bebê para proteger criança, um pacote por poucos reais, que arredondam fisicamente o canto e ainda resolvem a canela batida no escuro. A escola do chapéu negro, também escrita chapéu preto, tem também a cura de pendurar um cristal facetado ou um pequeno sino de vento em frente à quina, que ela lê como dispersão do que vem apontado, e esse é o item de compra desta página, com alternativa gratuita nos itens anteriores.

O que não fazer

Não cole espelho na quina. É o conselho que mais aparece em texto brasileiro, com o argumento de que o espelho dissolve visualmente o pilar, e ele funciona mesmo em sala e em corredor. Num quarto, ele colide com uma regra mais forte da escola, que é a de não deixar superfície devolvendo a imagem de quem dorme, e o portal tem página inteira sobre isso. A divergência é real e vale declarar: em ambiente de convívio, espelho em pilar é solução aceita; em dormitório, este portal não adota, e a planta de folha larga faz o mesmo serviço sem criar o segundo problema.

Não ponha cacto, espada de são jorge nem qualquer planta pontiaguda naquele canto. É o erro mais irônico da página inteira: a pessoa quer suavizar uma aresta e coloca ali justamente a folhagem que a tradição lê como cortante, dobrando a aposta. A regra da folha é clara e é fácil de usar: folha arredondada acolhe, folha pontiaguda marca limite, e limite não é o que se quer apontado para o travesseiro. O portal tem página própria sobre o cacto dentro de casa, com os dois lados da história.

E não derrube nada. Aparece com frequência a ideia de quebrar a quina, chanfrar o canto ou demolir o pedaço de parede que avança, e vale um aviso simples: pilar pode ser estrutural, e em prédio quase sempre é, além de a intervenção depender de autorização do condomínio. Nada nesta página justifica obra. Por último, e é o item mais importante, não saia procurando quina pela casa inteira. A leitura só vale onde alguém fica parado por horas, ou seja, a cama, o sofá, a poltrona de leitura, a cadeira da mesa de trabalho e o lugar de sempre na mesa de jantar. Quina que aponta para um corredor, para uma porta ou para o meio da sala vazia não é nada, e tratar cada canto de casa como ameaça é o caminho mais rápido para transformar uma boa ideia de projeto numa fonte de preocupação.

O que ele faz e o que ele não faz

Nenhuma quina faz nada com quem dorme perto dela, e é preciso dizer isso com todas as letras porque o nome flecha envenenada foi escolhido para assustar e cumpre bem esse papel. Não existe efeito sobre saúde, sobre relacionamento nem sobre trabalho, e nenhum texto sério afirma que exista. O que existe é uma leitura de forma, herdada da observação de paisagem, aplicada com bom senso a um pedaço específico da casa.

A parte conferível é pequena e simpática. Aresta de noventa graus na altura do corpo é o ponto em que as pessoas esbarram, tanto que existe uma indústria inteira de protetores de canto para casa com criança. E borda de alto contraste atrai o olhar, o que faz de uma quina viva iluminada de lado a linha mais nítida de um quarto escuro, aquela para a qual a vista volta sem ninguém mandar. Cobrir essa aresta com folhagem, com pano ou com um móvel resolve as duas coisas de uma vez, e resolve de graça na maior parte das casas.

O recorte é o que salva o conceito de virar paranoia, e é por isso que ele fecha esta página: a leitura vale onde alguém permanece, e apenas ali. Cama, sofá, poltrona de leitura, cadeira de trabalho, lugar fixo na mesa. Sua casa pode ter quinze quinas e nenhuma delas ser assunto. Quando você entende isso, o sha chi deixa de ser um bicho-papão e vira o que ele sempre foi: uma régua de projeto simples, que qualquer arquiteto usaria com outro nome. Vale ainda a distinção que este portal repete: o feng shui cuida da forma do lugar, enquanto o mapa chinês, calculado a partir de data, hora e cidade de nascimento, cuida de quem vive dentro dessa forma.

Você sabia?

A quina apontada é levada tão a sério em Hong Kong que ela mudou o desenho de arranha-céus de verdade, e o caso mais famoso virou folclore corporativo. Em 1990 foi inaugurada a Torre do Banco da China, projetada por I. M. Pei, uma estrutura de vidro e aço com quase trezentos e setenta metros feita de prismas triangulares que se cruzam, brilhante, premiada e cheia de arestas afiadas. A cidade inteira comentou o mesmo: aquelas quinas apontavam para os vizinhos, entre eles a sede do HSBC e a antiga Casa do Governo. A resposta do HSBC entrou para a história: dois guindastes de manutenção instalados no topo do prédio, apontados de volta na direção da torre nova como se fossem canhões, e até hoje existe quem jure que a coincidência de ângulo não foi coincidência nenhuma. Na Casa do Governo, a solução foi mais delicada e mais chinesa: plantaram salgueiros, árvore de folha macia e pendente, justamente do lado voltado para as arestas, porque a tradição lê folhagem suave como o que amortece o que vem apontado. Guarde essa imagem, porque ela é a sua instrução em escala de cidade: se um governo colonial inteiro resolveu uma quina de trezentos metros com um jardim de árvores de folha mole, você resolve a do seu quarto com um vaso de folha larga encostado no canto.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Deite na cama e olhe em volta. Melhor ainda: tire uma foto com o celular na altura do travesseiro, porque a câmera mostra o que o olho já aprendeu a ignorar.
  2. 2Se achar uma aresta apontada, tente mover a cama trinta ou quarenta centímetros. A quina passa a apontar para o chão vazio e o caso acabou.
  3. 3Se a cama não anda, encoste um vaso de folha larga e arredondada no canto, cobrindo a aresta com a folhagem. É a cura mais tradicional e a mais bonita.
  4. 4Sem espaço para planta, pendure um pano do teto ao chão sobre o canto, num varão de pressão. A aresta vira um plano curvo e não precisa de furo.
  5. 5A saída literal e mais barata: cantoneira de silicone de loja de bebê, poucos reais o pacote, que arredonda o canto e ainda resolve a canela batida no escuro.
  6. 6Antes de sair caçando quina pela casa, lembre do recorte: só vale onde alguém fica horas parado. Corredor, porta e meio de sala não contam.

O elemento Madeira por trás disso

Elemento

木 Madeira

Cores

verde e azul-esverdeado

Materiais

planta viva, madeira crua, algodão, linho, papel

Sinal de excesso

a casa parece uma selva e ninguém consegue terminar nada, porque tudo está sempre começando

As áreas do baguá que este assunto toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

O que é sha chi, a flecha envenenada?
Sha chi é o nome que a escola dá ao fluxo quando ele chega concentrado, rápido e apontado num único ponto, em oposição ao fluxo largo e lento que ela considera bom. A tradução literal fica mais perto de sopro que fere do que de energia negativa. A expressão flecha envenenada não vem do chinês: é uma imagem criada nos livros de feng shui em inglês dos anos oitenta e noventa, ótima para memorizar e péssima para o sossego de quem lê pela primeira vez.
Toda quina de parede é um problema?
Não, e esse é o recorte que quase ninguém escreve. A leitura só vale quando a aresta aponta para um lugar em que alguém permanece por horas: a cama, o sofá, a poltrona de leitura, a cadeira da mesa de trabalho, o lugar fixo na mesa de jantar. Quina que aponta para um corredor, para uma porta ou para o meio da sala vazia não é assunto nenhum. Sua casa pode ter quinze quinas e nenhuma delas exigir qualquer providência.
Posso pôr espelho na quina para dissolver o pilar?
Em sala e em corredor, sim, e essa é uma solução aceita e bem conhecida. Em quarto, este portal não adota, porque o espelho passa a devolver a imagem de quem dorme, e essa regra pesa mais na escola do que o ganho de dissolver o pilar. A divergência entre fontes é real e vale saber que ela existe. Para dormitório, a planta de folha larga faz o mesmo serviço de suavizar a aresta sem criar o segundo problema.
Que planta serve para amenizar uma quina?
Qualquer folhagem de folha larga e arredondada, porque a escola lê o formato da folha antes de ler a espécie: folha redonda e carnuda suaviza, folha pontiaguda marca limite. Jiboia, pacová, costela-de-adão e figueira-lira funcionam bem se o canto tiver luz suficiente. O que não serve é justamente o que muita gente escolhe por engano: cacto e espada de são jorge, que são plantas de ponta e, apontadas para a cama, dobram a aposta em vez de desfazê-la.
Preciso quebrar ou chanfrar a quina?
Não, e não faça isso. Pilar pode ser estrutural, em prédio quase sempre é, e qualquer intervenção desse tipo depende de projeto e de autorização do condomínio. Nada nesta página justifica obra. Entre mover a cama trinta centímetros, encostar um vaso de folha larga no canto, pendurar um pano do teto ao chão e colar uma cantoneira de silicone, você tem quatro saídas que custam de zero a poucos reais e resolvem o mesmo que uma reforma resolveria.

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