O que fazer com o que já está na casa
Sapatos na entrada: o que fazer com a pilha, e por que falta um banquinho
Ninguém desiste de tirar o sapato por preguiça. Desiste porque tem que se equilibrar num pé só, com a sacola na mão.
O princípio, antes da receita
O primeiro metro da casa decide como você entra nela. A escola trata a entrada como o ponto mais importante do diagnóstico, e a exigência dela ali é sempre a mesma: espaço livre, luz suficiente e nada pela metade, assunto que a página sobre a porta que range deste portal desenvolve pelo lado do que está quebrado. Sapato solto no chão é a obstrução número um desse metro, e ela tem duas consequências que não dependem de nenhuma teoria: a porta encontra alguma coisa ao abrir, e quem chega de noite carregando sacola pisa em cima do que está lá.
A origem do costume merece ser contada porque explica por que ele funciona tão bem lá e trava tanto aqui. Na casa japonesa, tirar o calçado não é gentileza, é arquitetura: existe um piso rebaixado logo depois da porta, o genkan, e um degrau que separa esse pedaço do resto da casa. Você entra, fica naquele piso baixo, tira o sapato e sobe. O degrau resolve tudo, porque marca fisicamente onde a rua termina, dá altura para sentar e cria um lugar onde o calçado fica sem invadir a casa. Nenhum apartamento brasileiro tem esse degrau, e é por isso que aqui o hábito depende de móvel em vez de depender de planta.
Daí sai o diagnóstico central desta página, e ele é o oposto do que a internet costuma dizer. O hábito não falha por falta de disciplina, falha por ergonomia: tirar tênis de cadarço em pé, apoiado na parede, com chave numa mão e sacola na outra, é desconfortável, e o que é desconfortável não vira rotina. Quem consegue manter o costume sempre tem, sem exceção, duas coisas na entrada: onde sentar e onde guardar. Resolva essas duas e o resto acontece sozinho.
O que fazer hoje
Ponha hoje um lugar para sentar na entrada, mesmo que seja improvisado. Uma cadeira da cozinha, um pufe, um banquinho de madeira, um caixote virado, a banqueta alta da bancada. Se o corredor tem um metro e vinte, escolha um assento estreito ou um que fique encostado, e teste durante uma semana antes de comprar qualquer coisa definitiva. Essa é a intervenção de maior efeito da página inteira e ela custa zero na primeira versão.
Depois aplique a regra do par por pessoa. Na entrada fica, no máximo, um par por morador, o que você vai usar amanhã, e todo o resto tem endereço em outro lugar. Conte quantos pares estão hoje na sua porta: quase sempre são o dobro do número de gente na casa, porque ninguém tirou de lá o tênis da caminhada de duas semanas atrás nem a sandália do verão passado. Recolher o excedente leva três minutos e devolve o metro quadrado inteiro. Junto disso, adote o tapete duplo, que é a solução que os prédios já usam sem ninguém reparar: um capacho de cerdas duras do lado de fora, para raspar, e um tapete absorvente do lado de dentro, para o resto. Os dois juntos resolvem a maior parte da sujeira mesmo em casa onde ninguém tira sapato.
Para guardar, o problema é profundidade e não capacidade. Sapateiro comum tem quarenta centímetros de fundo e engole um corredor de um metro e vinte. As soluções que cabem são três: o modelo de portas basculantes, que tem cerca de vinte centímetros de profundidade porque guarda o calçado inclinado; o organizador vertical de porta, aquele de bolsos que pendura na face interna da porta do armário; e a caixa fechada baixa que faz as vezes de banco, resolvendo assento e guarda no mesmo objeto. Sobre a tradição, dois detalhes que valem: a escola prefere calçado guardado fechado e não exposto na altura dos olhos, e pede que o sapato de uso diário não durma no quarto, o que combina com o que a página sobre o vão da cama deste portal recomenda por motivo de bolor e de tropeço.
O que não fazer
Não obrigue a visita. Esse é o item que estraga a experiência de quem chega e é o mais comum de errar quando alguém adota o costume com entusiasmo. No Japão a regra é clara, é sinalizada e todo mundo cresceu com ela; no Brasil ela é um pedido, e pedido bem feito é diferente de exigência. O jeito que funciona é ter, no cesto ao lado da porta, um par de meias limpas ou pantufas laváveis e dizer, com naturalidade, que a pessoa fica à vontade. Quem tiver problema de pé, cicatriz, prótese ou simplesmente vergonha vai agradecer a saída, e você não vai nem saber por quê.
Não empilhe calçado atrás da porta de entrada. Além de impedir que ela abra por inteiro, que é a coisa que a escola mais pede na entrada, aquilo cria um monte que ninguém enxerga vindo de fora e que se espalha toda vez que a porta é aberta com força. Também não guarde sapato molhado ou úmido em armário fechado: em cidade litorânea isso é receita de bolor no couro e de cheiro no armário inteiro. Deixe secar num lugar arejado, de preferência com a sola virada para cima, antes de guardar.
E não trate o assunto como questão de higiene moral dentro de casa. Sola de sapato traz o que estava na calçada, isso é fato e qualquer um que já limpou o rodapé de um apartamento perto de avenida sabe. Só que a decisão sobre tirar ou não tirar é da família, envolve chão frio, criança pequena, animal, tipo de piso e rotina, e este portal não vai transformar preferência doméstica em regra de virtude. O que a escola pede é uma coisa só: que o primeiro metro da casa esteja livre. Se a sua família anda de tênis dentro de casa e o hall está impecável, você cumpriu a recomendação inteira.
O que ele faz e o que ele não faz
Nada de energia aqui, e o assunto fica melhor sem ela. O que existe é geometria e é rotina: uma porta que abre inteira, um caminho livre nos primeiros dois metros, um lugar decidido para o objeto que entra e sai da casa todo dia. Essas três coisas são o feng shui de entrada quase por completo, e nenhuma delas exige comprar nada.
A parte cultural merece precisão porque ela costuma ser contada torta. Tirar o calçado ao entrar é costume de boa parte da Ásia e também de países nórdicos, da Rússia, da Turquia e de várias regiões de clima frio ou de casa com tatame, e o motivo original é sempre alguma combinação de piso que se usa sentado, neve, barro e lavagem de casa. Não é uma prática mística nem pertence ao feng shui, que é outra coisa inteiramente. Ela chegou ao Brasil por convívio com essas culturas e cresceu muito nos últimos anos, e cresceu justamente entre quem mora em apartamento pequeno com piso claro.
O ganho honesto é duplo e visível na mesma semana. A entrada deixa de ser um obstáculo, o que muda o humor de chegar em casa mais do que parece, e o chão passa a exigir menos limpeza se a família decidir adotar o costume. Some a isso o efeito colateral que ninguém previu quando põe uma cadeira na entrada: aquele assento vira o lugar onde a pessoa senta para calçar, para atender o telefone antes de sair e para largar a bolsa, e o hall ganha função em vez de ser apenas passagem.
Você sabia?
A casa japonesa resolve o problema do sapato com arquitetura, não com força de vontade: logo depois da porta existe um piso rebaixado, o genkan, e um degrau de madeira que marca onde a rua termina e a casa começa. Você não decide tirar o calçado, você simplesmente não sobe o degrau com ele. A etiqueta em volta disso é toda cheia de detalhe: depois de tirar, é de bom tom virar os sapatos com a ponta para a porta, deixando-os prontos para a saída, e o anfitrião educado faz isso pelo convidado enquanto conversa. E existe a armadilha clássica em que todo estrangeiro cai pelo menos uma vez, o par de chinelos exclusivo do banheiro: você troca os chinelos da casa pelos do banheiro ao entrar, e a regra é trocar de volta ao sair. Quem esquece atravessa a sala de jantar calçando os chinelos do banheiro na frente de todo mundo, e essa é, com folga, a gafe mais lembrada de quem já morou por lá.
As providências, na ordem de impacto
- 1Ponha hoje um lugar para sentar na entrada, mesmo improvisado: cadeira da cozinha, pufe, banquinho, caixote virado. É o que faz o hábito pegar.
- 2Conte os pares que estão na sua porta agora e aplique a regra do par por pessoa. Todo o resto volta para o armário em três minutos.
- 3Tire o que está atrás da porta de entrada. A escola pede que ela abra por completo, e sapato empilhado ali é o obstáculo número um do primeiro metro.
- 4Instale o tapete duplo: capacho de cerdas duras do lado de fora para raspar, tapete absorvente do lado de dentro. Vale mesmo em casa onde ninguém tira sapato.
- 5Se o corredor tem um metro e vinte, procure sapateira de portas basculantes, que tem cerca de vinte centímetros de fundo, ou use organizador de bolsos na face interna da porta.
- 6Deixe no cesto da entrada um par de meias limpas ou pantufas laváveis para a visita, e ofereça em vez de exigir. Muita gente tem motivo para não querer descalçar.
O elemento Terra por trás disso
Elemento
土 Terra
Cores
amarelo-terroso, marrom, bege e ocre
Materiais
cerâmica, argila, pedra, tijolo, tapete grosso
Sinal de excesso
tudo fica pesado e lento, dá preguiça de sair e as decisões arrastam
As áreas do baguá que este assunto toca
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Tirar o sapato ao entrar faz parte do feng shui?
Por que o hábito nunca pega na minha casa?
Qual sapateira cabe num corredor de um metro e vinte?
Posso pedir para a visita tirar o sapato?
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