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O que fazer com o que já está na casa

Fogão de costas para a porta: a posição de comando aplicada a quem cozinha

Em cozinha brasileira, o fogão fica onde o ponto de gás mandou, e o ponto de gás foi decidido por um projetista que nunca cozinhou ali. O resultado é quase sempre o mesmo: quem cozinha fica de costas para a porta, para o corredor ou para a sala, e passa horas por semana virando a cabeça para conferir quem chegou. A tradição chinesa tem nome para isso e trata o fogão com um cuidado que não dedica a nenhum outro móvel da casa. Como o fogão não anda, a correção mora em outro lugar, e ela é conhecida, barata e provavelmente já está pendurada na sua cozinha em forma de coifa. Este é o caso do cozinheiro de costas; a cozinha visível da porta de entrada é outro assunto e tem página própria neste portal.
Você não precisa mover o fogão. Precisa mover o campo de visão de quem cozinha, e isso cabe num espelho de cinco reais.

O princípio, antes da receita

A escola chama de posição de comando a preferência por dormir, sentar ou trabalhar enxergando quem chega, sem estar plantado na linha reta da porta. Ela aparece na cama, aparece na mesa de trabalho, aparece no sofá, e aparece com força redobrada no fogão, porque o fogão é o ponto que a tradição chinesa mais regulou dentro de uma casa. Manuais antigos dedicam a ele um detalhamento que nenhum outro móvel recebeu, e por trás disso está a ideia de que o fogão é o lugar do sustento da família, aquilo que garante que haverá comida amanhã.

Cozinhar de costas para a porta é dirigir sem retrovisor. Dá para fazer a vida inteira, e milhões de pessoas fazem, mas você vira a cabeça mais vezes do que precisaria e cada uma dessas viradas é uma pequena interrupção. Num apartamento com criança, com dois ou três adultos e com a porta da cozinha a dois metros da bancada, isso acontece dezenas de vezes por refeição. E é o cômodo da casa que tem fogo aceso, óleo quente e faca em cima da bancada, o que torna a preferência por ver quem entra menos mística do que prática.

Existe ainda a metade do princípio que trata do estado do fogo e não da posição dele. A escola pede fogão limpo, com todas as bocas funcionando e bem iluminado, e isso não é preciosismo doméstico: na leitura dela, boca que não acende é um fogo que deixou de existir na casa. Vale declarar uma divergência aqui, porque ela é real e muda a instrução. A escola da bússola orienta a chamada boca do fogão, o ponto por onde entra o combustível, para direções calculadas a partir do número kua do morador, o que em cozinha de apartamento é impossível de atender. O chapéu negro, também escrito chapéu preto, que é a linha adotada neste portal, não usa bússola: lê tudo a partir da porta e resolve este caso com visão, não com direção.

O que fazer hoje

Use a única cura em que praticamente todas as escolas concordam: uma superfície refletiva que devolva a porta para quem está no fogão. Este é o caso em que o espelho é bem-vindo e não tem contraindicação nenhuma, ao contrário do que acontece no quarto. A forma mais barata é um espelho convexo pequeno, daqueles de ponto cego de retrovisor, que custa poucos reais em loja de autopeças e se cola com fita dupla face na quina do armário aéreo ou na lateral da coifa. Um espelho convexo de cinco centímetros mostra a cozinha inteira e resolve o problema por completo.

Se você preferir uma solução embutida na cozinha, olhe para o que já está lá. Coifa de inox tem uma face polida que, dependendo do ângulo, já devolve o vão da porta, e às vezes basta limpar bem e reparar. Uma faixa de inox escovado ou um painel de aço na parede acima da bancada faz o mesmo serviço, é material de cozinha de verdade e aguenta calor e gordura, o que vidro atrás da chama não aguenta. Aqui vai a ressalva prática que quase nenhum blog dá: não instale espelho de vidro exatamente atrás das bocas, onde ele recebe calor direto e gordura respingada, porque em dois meses ele estará opaco e você vai odiar. Espelho vai na parte alta da parede, na lateral do armário ou no batente da coifa.

Depois trate o resto do campo de visão e do fogo. Se a cozinha tem bancada, considere fazer o preparo, que é a parte demorada, num ponto de frente para a porta, deixando para o fogão só o tempo de panela. Tire a lixeira detrás das suas pernas, porque quem cozinha de costas para a porta e ainda precisa desviar de um cesto ao virar tem duas coisas atrapalhando em vez de uma. Conserte a boca queimada e o acendedor que não pega, chame o técnico do gás uma vez e resolva tudo junto. E troque a lâmpada sobre o fogão por uma mais potente ou instale uma fita de led embaixo do armário aéreo, coisa de trinta reais, porque cozinha brasileira com luz central atrás de quem cozinha trabalha na própria sombra.

O que não fazer

Não ponha espelho de vidro logo atrás das chamas. Vale repetir porque a sugestão aparece em todo canto, sempre com o argumento de que o espelho duplica as bocas e por isso multiplica a abundância, o que de fato é uma leitura tradicional. O problema é físico: vidro comum atrás de boca acesa recebe calor direto e respingo de gordura, mancha, pode trincar com choque térmico e vira uma superfície que você limpa toda semana e nunca fica boa. A leitura da duplicação se atende com o mesmo espelho posicionado mais alto ou de lado, e ninguém perde nada.

Não encoste a Água na chama sem nada no meio. Pia coladinha no fogão, geladeira grudada na lateral, filtro de água em cima da bancada ao lado da boca: a tradição desaconselha o encontro direto entre Água e Fogo, e a solução dela é a mesma de sempre, uma mediação de Madeira entre os dois. Na prática isso é uma tábua de corte de madeira apoiada em pé no vão, um pequeno vaso de folhagem verde entre os dois pontos ou um trecho de bancada em tampo de madeira. É de graça se você já tem a tábua.

E não desista da cozinha nem faça obra por causa disso. Aparece a ideia de reformar para virar o fogão de posição, o que envolve mexer em ponto de gás, em elétrica e em bancada, e não existe nenhum motivo para gastar isso. Também não pendure sino de vento sobre o fogão, que é cura de corredor e de trecho reto, e não tem função nenhuma ali além de acumular gordura. Por último, não trate a posição do fogão como assunto de dinheiro. A associação entre fogão e sustento é simbólica, vem de uma tradição específica, e transformá-la em previsão financeira é exatamente o tipo de esticada que este portal não faz.

O que ele faz e o que ele não faz

Cozinhar de costas para a porta não afeta a renda de ninguém, e é bom dizer isso porque a associação entre fogão e prosperidade é a mais explorada comercialmente do feng shui brasileiro. A tradição liga o fogão ao sustento porque, numa casa camponesa chinesa, o fogão era literalmente onde o grão do ano virava comida, e essa é uma associação bonita e histórica. Ela não é uma alavanca sobre o seu salário.

O que se confere é bem simples e você percebe na primeira semana. Quem cozinha de costas para a porta é surpreendido toda vez que alguém entra, vira a cabeça a cada movimento no corredor e trabalha com uma atenção dividida que some no instante em que existe um espelhinho mostrando a entrada. Esse é o mesmo motivo por que caixa de padaria tem espelho convexo no canto, por que motorista de ônibus tem retrovisor interno e por que ninguém escolhe, de livre vontade, a mesa de costas para a porta de um restaurante vazio. Não é energia, é campo de visão.

A parte tradicional é honesta e vale ser cumprida no que ela tem de concreto: fogão limpo, todas as bocas acendendo, boa luz sobre a chama e nada de água encostada no fogo sem mediação. Repare que três desses quatro itens são manutenção pura, e o quarto é uma tábua de madeira em pé. Se você fizer só isso e o espelhinho convexo, terá atendido a cozinha inteira segundo a escola. E fica a distinção de sempre: o feng shui trata do lugar onde se cozinha, enquanto o mapa chinês, calculado a partir de data, hora e cidade de nascimento, trata de quem cozinha.

Você sabia?

Na etiqueta chinesa de banquete, quem senta de costas para a porta é o anfitrião, e isso é de propósito. A mesa redonda de restaurante chinês tem uma geometria de honra bem definida: o convidado principal ocupa o lugar de frente para a entrada, com a vista limpa de quem chega e, tradicionalmente, com a parede sólida atrás; o anfitrião senta do lado oposto, de costas para a porta, mais perto do lugar por onde entram os garçons, porque cabe a ele receber os pratos, servir e cuidar da operação. Ceder o assento que vê a porta é, literalmente, o gesto de hospitalidade, e assumir o assento cego é o preço de ser dono da casa. O Japão codificou a mesma coisa com outros nomes: o kamiza é o lugar de honra, o mais distante da entrada, e o shimoza é o mais próximo da porta, reservado a quem tem o papel de servir e de resolver. Repare no que isso diz sobre a sua cozinha. Quem cozinha na sua casa está, sem ter escolhido, na cadeira do anfitrião: de costas para a entrada, cuidando da operação, para que as outras pessoas tenham a vista boa. A tradição chinesa achava esse arranjo tão desconfortável que o transformou em gesto de generosidade. Você pode devolver um pedaço dele com um espelho convexo de cinco reais.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Fique de pé no fogão e veja se você enxerga quem entra sem virar o corpo. Se não enxerga, o diagnóstico está feito.
  2. 2Cole um espelho convexo pequeno, desses de ponto cego de retrovisor, na quina do armário aéreo ou na lateral da coifa. Poucos reais e resolve por inteiro.
  3. 3Nunca ponha espelho de vidro logo atrás das chamas: calor e gordura acabam com ele em dois meses. Alto, de lado ou em inox escovado é o lugar certo.
  4. 4Tire a lixeira detrás das suas pernas. Quem cozinha de costas para a porta não deveria ainda ter que desviar de um cesto ao virar.
  5. 5Conserte a boca queimada e o acendedor que não pega. Na leitura da escola, fogo que não acende é fogo que deixou de existir na casa.
  6. 6Ponha uma tábua de madeira em pé ou um vaso de folhagem verde entre a pia e o fogão. É a mediação de Madeira entre Água e Fogo, e sai de graça.

O elemento Fogo por trás disso

Elemento

火 Fogo

Cores

vermelho, laranja e magenta

Materiais

vela, lâmpada quente, couro, lã, imagem de bicho ou de gente

Sinal de excesso

o cômodo cansa em vinte minutos, discussão pega fogo rápido e ninguém dorme direito ali

As áreas do baguá que este assunto toca

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Perguntas frequentes

É ruim cozinhar de costas para a porta?
A escola desaconselha e chama a alternativa de posição de comando, que é a preferência por enxergar quem chega sem estar na linha reta da porta. O argumento é de campo de visão, não de energia: quem cozinha de costas é surpreendido a cada entrada e trabalha com atenção dividida, no cômodo que tem fogo aceso e faca na bancada. Como o fogão está preso ao ponto de gás, a correção padrão é um espelho pequeno que devolva a porta para quem está na chama.
Onde exatamente eu ponho o espelho?
Em qualquer lugar que mostre a porta e que não esteja logo atrás das bocas. Os pontos que funcionam melhor são a quina do armário aéreo, a lateral da coifa e a parte alta da parede da bancada. O modelo mais eficiente é o espelho convexo de ponto cego de retrovisor, de poucos reais, porque cinco centímetros dele mostram a cozinha inteira. Atrás das chamas, jamais: calor direto e respingo de gordura destroem o vidro em pouco tempo.
É verdade que espelho atrás do fogão multiplica a prosperidade?
Essa é uma leitura tradicional de verdade: a escola conta as bocas do fogão e lê a duplicação delas no espelho como multiplicação da abundância. Vale saber que é simbolismo e não mecanismo, e este portal não afirma que exista efeito sobre a sua renda. Se a leitura te agrada, dá para atendê-la sem estragar nada, posicionando o espelho mais alto ou de lado, onde ele ainda pega as bocas no reflexo mas não recebe calor nem gordura.
O fogão precisa apontar para alguma direção?
Aqui as escolas divergem e a divergência é grande. A escola da bússola orienta a boca do fogão, que é o ponto de entrada do combustível, para direções favoráveis calculadas a partir do número kua do morador, o que numa cozinha de apartamento com ponto de gás fixo é simplesmente impossível de atender. O chapéu negro, linha adotada neste portal, não usa bússola e resolve o caso por visão: o que importa é quem cozinha enxergar a porta, com espelho se o fogão não puder mudar.

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