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O que fazer com o que já está na casa

Porta da frente alinhada com a dos fundos: o que fazer quando a casa é um corredor

Se você abre a porta de casa e enxerga daí a porta dos fundos, a da área de serviço ou a da varanda envidraçada, você tem o arranjo que a tradição chinesa mais comenta em planta de casa comprida. A leitura é fácil de entender e nada dramática: o que entra pela frente sai pelo fundo sem circular por lugar nenhum, e o cômodo do meio vira passagem em vez de virar sala. Este é um dos poucos casos em que a instrução da escola coincide, quase palavra por palavra, com o que qualquer arquiteto diria olhando a mesma planta, e a correção cabe num sábado, sem obra e sem tirar porta.
O ar que atravessa a casa em linha reta não mora nela. Ele só passa, e leva junto o motivo de alguém sentar ali.

O princípio, antes da receita

A imagem que a tradição usa para o chi é sempre a mesma, e é uma imagem de fluido: ele se comporta como água num terreno e como ar num vão. Água que desce reto num canal corre e some; água que serpenteia deposita, alimenta a margem e demora. O feng shui de paisagem escolhia terreno de rio sinuoso pelo mesmo motivo por que uma horta perto de curva rende mais que uma horta na beira de vala reta. Quando esse raciocínio desce para dentro da casa, ele vira uma frase curta: o caminho entre duas aberturas deveria dobrar pelo menos uma vez.

Existe aí uma metade que você confere com um pedaço de papel higiênico na mão. Duas aberturas alinhadas criam ventilação cruzada em linha reta, que é um dos jeitos mais eficientes de mover ar que a construção conhece, e é por isso que, nessa casa, porta bate sozinha, cortina levanta, poeira viaja e a corrente fria de julho atravessa a sala inteira sem encostar em canto nenhum. A parte que se sente sem medir é a outra: quando quem entra vê a saída no mesmo relance, a sala nunca se apresenta como destino. Ela se apresenta como trecho, e mobília empurrada para as duas laterais reforça a leitura de que ali é caminho.

Duas plantas brasileiras caem nisso o tempo todo. A primeira é a casa de corredor, aquela geminada e comprida das cidades antigas do Sudeste, em que a porta da rua, o corredor, a sala, a cozinha e a porta do quintal formam uma reta só. A segunda é o apartamento moderno de sala estreita, com a porta de entrada de um lado e a porta de correr da varanda envidraçada exatamente na frente dela, a seis ou sete metros. A segunda é mais comum hoje e quase ninguém a reconhece, porque o vidro da varanda dá a impressão de que existe uma parede ali.

O que fazer hoje

Faça o olho parar antes de tentar fazer o ar parar. A providência mais eficiente é pôr algum objeto de altura média no meio do percurso, deslocado do centro, para que a vista encontre alguma coisa antes de encontrar a saída. Serve um aparador estreito com um abajur, uma planta alta de folha larga num vaso pesado, uma estante baixa atravessada ou um biombo dobrável, que em loja de departamento custa menos do que a maioria imagina. O importante é que o objeto fique fora da linha exata da passagem, encostado a um dos lados, porque o objetivo é desviar e não bloquear.

Mexa no chão, que é a intervenção mais barata e a que mais funciona. Um tapete comprido apoiado ao longo do trajeto reforça a reta, então o que se usa aqui é o contrário: um tapete redondo ou um tapete posicionado atravessado, obrigando o pé a mudar de rumo, e de quebra abafando o som do passo no piso duro. Se você já tem tapete em casa, isso é rigorosamente de graça e leva dois minutos. Vale o mesmo raciocínio para o teto: pendurar alguma coisa entre as duas portas, um pendente baixo, um móbile, um sino de vento ou um cristal facetado, é a intervenção clássica da escola do chapéu negro para dispersar o que vem em linha, e este portal tem página própria explicando cada uma dessas curas.

Depois, trate as duas portas como um par e não como duas coisas separadas. Uma cortina leve na porta de correr da varanda muda o percurso inteiro sem tirar a luz, e vale mais que qualquer objeto no meio do caminho. Se a porta dos fundos vive escancarada por hábito, teste deixá-la fechada em parte do dia e ventilar por outra abertura. E existe uma checagem tola que resolve muita casa de corredor: veja se a porta da frente abre inteira, sem esbarrar em sapateira, em pilha de caixa ou em capacho enrolado, porque em quase toda casa comprida a entrada perdeu metade do vão para objetos que ninguém decidiu pôr ali.

O que não fazer

Não feche o caminho. A leitura errada mais comum dessa regra é entupir o percurso com móvel grande, e o resultado é trocar uma leitura simbólica por uma obstrução literal, que a escola condena com muito mais firmeza. Corredor de casa antiga costuma ter um metro e vinte de largura, e um armário de sessenta centímetros ali deixa a passagem em sessenta, que é menos do que qualquer manual de circulação aceita e menos do que uma pessoa com sacola de mercado consegue usar. Desviar é a palavra, e desviar é o oposto de tampar.

Não pendure espelho na parede de frente para a porta de entrada. É a sugestão que mais aparece em blog brasileiro e é justamente a colocação que o chapéu negro evita, porque um espelho de frente para a entrada devolve para fora o que acabou de chegar. Se a sua vontade é usar espelho nesse trecho, ele vai numa parede lateral do percurso, alargando o corredor de lado, e nunca de frente para nenhuma das duas portas. Também não pregue espelho baguá do lado de dentro: essa peça é equipamento de fachada e o portal explica isso em página separada.

E não invente problema onde o alinhamento é parcial. Se a porta dos fundos está deslocada, mesmo que só um metro, e você precisa dar dois passos e virar o corpo para enxergá-la, o caminho já dobra e o caso não é o desta página. A regra vale para o alinhamento reto, com as duas aberturas se vendo, e nada além disso. Por último, não lacre a porta dos fundos em definitivo achando que resolve: casa que perde a ventilação cruzada troca um assunto de feng shui por um assunto de mofo, e mofo em parede de banheiro e em roupa de armário é um problema bem mais caro.

O que ele faz e o que ele não faz

Nada nessa planta é maldição, e vale dizer isso com todas as letras porque é o que a internet brasileira faz questão de sugerir. Duas portas alinhadas não drenam dinheiro, não esvaziam a casa e não afastam ninguém. O que elas fazem é criar um trajeto reto entre duas aberturas, e trajeto reto tem consequências pequenas, contáveis e todas resolvíveis com objeto que você já tem em casa.

A parte verificável é bem delimitada. Ar acelera em duto reto e desacelera quando encontra desvio, o que qualquer pessoa comprova segurando uma folha de papel na altura do peito no meio do percurso, primeiro com o caminho livre e depois com um vaso alto encostado num dos lados. Som se comporta de modo parecido em piso duro sem nada para quebrar a reflexão. E a leitura de destino é psicologia de espaço bem banal: ambiente que mostra a saída no primeiro relance é lido como transição, que é o motivo pelo qual saguão de prédio tem essa cara e sala de estar não deveria ter.

A parte tradicional é honesta e antiga, e não pede fé. Ela vem do mesmo raciocínio de paisagem que escolhia sítio em curva de rio e não em beira de vala, e desceu para dentro de casa sem nenhum truque de tradução. Se você arrumar esse percurso e mais nada, terá feito o item que quase toda consultoria trata primeiro, porque o caminho entre a porta de entrada e o resto da casa é a primeira coisa que a escola olha. E fica a distinção de sempre: o feng shui organiza o espaço, enquanto o mapa chinês, montado a partir de data, hora e cidade de nascimento, fala de quem vive dentro dele.

Você sabia?

A casa chinesa antiga resolveu esse problema com uma parede solta, e ela tem nome: yingbi, ou zhaobi, a parede-biombo. Era um muro baixo, independente, plantado logo atrás do portão principal do pátio, sem função estrutural nenhuma, cuja única razão de existir era impedir que quem abrisse o portão visse o pátio inteiro de uma vez, e obrigar quem entrasse a contornar. Muitas eram lindas, com dragões de cerâmica vidrada, e as mais famosas viraram ponto turístico em Pequim e em Datong. A explicação popular que circulava junto era saborosa: contava-se que espíritos malfazejos só sabiam andar em linha reta, então a paredinha bastava para desviá-los. A explicação de engenharia é menos poética e mais convincente: aquele muro corta o vento frio do norte que entraria direto pelo portão, dá privacidade a quem está no pátio e transforma a entrada num pequeno vestíbulo. Quando você põe um biombo, um aparador ou um vaso alto entre a sua porta e a saída dos fundos, está reproduzindo um dispositivo de arquitetura com mais de dois mil anos de uso continuado, só que em versão de apartamento alugado.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Abra a porta de casa e olhe. Se você enxerga a porta dos fundos ou a da varanda daí, sem dar nenhum passo, é este o caso.
  2. 2Ponha um objeto de altura média fora da linha da passagem: aparador estreito, planta alta em vaso pesado, estante baixa ou biombo dobrável.
  3. 3Mude o tapete que você já tem. Redondo ou atravessado no percurso faz o pé desviar e abafa o passo no piso duro.
  4. 4Pendure alguma coisa entre as duas portas, na altura acima da cabeça: pendente, móbile, sino de vento ou cristal facetado.
  5. 5Ponha uma cortina leve na porta de correr da varanda. Ela quebra o percurso inteiro sem tirar luz nenhuma da sala.
  6. 6Cheque se a porta de entrada abre inteira. Sapateira, caixa de entrega e capacho enrolado costumam ter comido metade do vão sem ninguém notar.

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Perguntas frequentes

Porta de entrada alinhada com a dos fundos é ruim?
A escola desaconselha e a razão é de percurso, não de agouro: o caminho entre duas aberturas deveria dobrar pelo menos uma vez, para que o cômodo do meio se apresente como lugar de ficar e não como trecho de passagem. A parte que você confere sozinho é bem concreta, porque duas aberturas alinhadas criam ventilação em linha reta, com porta batendo, cortina levantando e corrente atravessando a sala. A correção é desviar o caminho com um objeto lateral, um tapete e uma cortina, e nada disso exige obra.
Preciso fechar a porta dos fundos?
Não, e fechar em definitivo costuma ser pior do que o arranjo original. Casa brasileira sem ventilação cruzada acumula umidade em armário, em parede de banheiro e em roupa guardada, e isso é um problema mais caro do que qualquer alinhamento. O que funciona é modular: ventile de manhã com tudo aberto, feche parte do dia e resolva o percurso com objeto e cortina em vez de resolver com lacre.
Espelho de frente para a porta de entrada resolve?
Não, e essa é uma das colocações que a escola do chapéu negro evita, porque espelho de frente para a entrada devolve para fora o que acabou de chegar. Se você quer espelho nesse trecho, ele vai numa parede lateral do percurso, alargando o corredor de lado, e nunca encarando qualquer uma das duas portas. Espelho baguá então é outro assunto, porque é peça de fachada e não de miolo de casa.
E se as portas não estão exatamente alinhadas?
Aí o caso já não é este. Se a porta dos fundos está deslocada e você precisa dar alguns passos e virar o corpo para vê-la, o caminho já dobra sozinho e a escola considera resolvido. A regra existe para o alinhamento reto, com as duas aberturas se enxergando de ponta a ponta, e ela não se estende a qualquer par de portas na mesma casa.

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