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O que fazer com o que já está na casa

Quarto em cima da garagem: o que fazer com o vazio que fica embaixo de quem dorme

Sobrado brasileiro de rua estreita quase sempre resolve a planta do mesmo jeito: garagem e área de serviço embaixo, quartos em cima. Aí alguém lê que dormir sobre um vazio é desaconselhado pelo feng shui e passa a olhar para o próprio teto de outro jeito. A leitura da escola existe mesmo, tem uma lógica clara e não é nenhum veredito: o que está debaixo de quem dorme é lido como fundação, e garagem é o único cômodo da casa projetado para ficar vazio. A boa notícia é que a correção inteira cabe em objetos que você provavelmente já tem, e a mais importante delas é decidir em que pedaço do quarto a cabeceira vai ficar.
Onde não dá para pôr chão, ponha peso. Foi assim que a tradição resolveu isso muito antes de existir garagem.

O princípio, antes da receita

Toda a leitura clássica de terreno gira em torno do que sustenta. Na formação dos quatro animais, a tartaruga é a montanha atrás, o apoio, e a doutrina de paisagem escolhia sítio pela firmeza do que estava embaixo e atrás, antes de olhar para qualquer outra coisa. Quando esse raciocínio entra numa casa de dois pavimentos, ele vira uma pergunta única: o que existe debaixo do lugar onde você passa oito horas parado? Se a resposta é outro cômodo habitado, a escola não tem nada a dizer. Se a resposta é vazio, ela pede compensação.

Pense na cama de cima do beliche quando a de baixo está desmontada. A estrutura é a mesma, o colchão é o mesmo, e ainda assim a sensação muda, porque o corpo lê a ausência de massa embaixo. É exatamente essa a leitura tradicional, e ela não precisa de nenhuma camada mística para se sustentar: a escola trata o vazio embaixo como falta de apoio, do mesmo jeito que trata a janela atrás da cabeceira como falta de parede.

A garagem acrescenta detalhes que não são simbólicos e que valem mais atenção do que a doutrina. Laje sobre espaço aberto é o piso mais frio da casa no inverno, porque tem ar circulando embaixo em vez de terra ou de outro cômodo aquecido. O portão automático vibra a estrutura inteira e costuma tocar justamente no horário em que alguém está deitado. Farol de carro entrando de ré varre a parede do quarto de cima em algumas plantas. E existe um ponto de construção que não é feng shui e vale conferir de qualquer forma: garagem fechada embaixo de dormitório é assunto de ventilação e de norma de edificação, então se a sua não tem abertura permanente, isso merece uma pergunta a um profissional, e não uma cura simbólica.

O que fazer hoje

Antes de qualquer objeto, decida onde a cabeceira fica. Quase nenhum quarto está inteiramente sobre o vazio: em geral parte dele avança sobre a área de serviço, sobre o hall, sobre a escada ou sobre alvenaria maciça, e só um pedaço está sobre o vão livre da garagem. Vale descer e olhar. Encontre no teto da garagem onde ficam as vigas e onde termina o vão, suba, transfira a medida com uma trena e ponha a cabeceira sobre a parte apoiada. Isso é gratuito, leva vinte minutos e é a única providência desta página que resolve o caso em vez de compensá-lo.

Depois vem a compensação, e ela tem nome de elemento: Terra. A escola trabalha com cinco elementos, e Terra é o do peso, da estabilidade e da matéria que não se move, representada por cerâmica, tijolo, pedra, barro, louça e pelos tons de amarelo queimado, areia e marrom. Traduzindo para providência de sábado: tapete grosso e pesado cobrindo boa parte do piso, cama de base fechada em vez de cama de pés com vão aberto, um móvel baixo e maciço no quarto em vez de dois altos e leves, um vaso de cerâmica de barro no canto e a paleta do têxtil puxando para terroso. Nada disso é caro e a maior parte é rearranjo.

Trate também os incômodos físicos, porque eles são reais e têm conserto barato. Tapete resolve boa parte da sensação de piso frio, e um carpete de retalho ou uma manta grossa embaixo da cama já muda o toque do pé descalço. Se o motor do portão vibra, o conserto é mecânico e costuma ser lubrificação e regulagem, não obra. Se o facho de farol varre a parede, cortina densa fechada resolve. E se a garagem é sua e vira depósito, vale a única regra da tradição que dá em faxina: o que está guardado embaixo de um quarto deveria ser coisa parada e organizada, não a pilha de tudo que a casa não resolveu, porque a escola lê a fundação também pelo que se acumulou nela.

O que não fazer

Não tente encher a garagem de móvel para simular um cômodo. É a reação intuitiva e ela cria um problema maior, porque garagem entupida vira depósito de coisa molhada, de tinta velha e de caixa que ninguém abre há cinco anos, e a escola trata acúmulo parado com mais severidade do que trata vazio. Se o objetivo é dar massa embaixo, o caminho é organizar e delimitar, com prateleira fechada encostada na parede, e não espalhar volume pelo vão.

Não faça rebaixo de gesso no teto da garagem achando que isso conserta o simbólico. Custa dinheiro de verdade, esconde a estrutura que você eventualmente vai precisar inspecionar e não muda nada na leitura, porque o vazio continua ali, agora com uma tampa. Se um dia houver reforma real, o item que faz diferença é isolamento térmico na laje, que é assunto de conforto e de conta de luz, e aí sim vale conversar com quem entende. Também não pendure espelho no teto da garagem, sugestão que aparece em fórum e que não resolve absolutamente nada.

E não mude a criança de quarto por causa disso. Aparece muito a ideia de que dormitório sobre garagem é impróprio para criança, e não existe base nenhuma para essa afirmação nem na tradição nem fora dela. Se há motivo real para trocar de quarto, ele será outro, como ruído do portão em horário de sono ou frio no piso, e os dois têm conserto. Por último, não compre cristal, pirâmide ou placa para pôr embaixo da cama: o que a escola pede aqui é massa e apoio, e um objeto pequeno debaixo do estrado é o contrário disso, além de virar poeira parada num lugar que o portal já recomenda manter livre.

O que ele faz e o que ele não faz

Dormir sobre uma garagem não faz nada com a sua vida, e é bom começar por aí porque é o que costuma trazer as pessoas até esta página. Não atrapalha trabalho, não interfere em relacionamento e não tem efeito sobre criança nenhuma. A escola não afirma isso, e quem afirma está esticando uma leitura de apoio até virar ameaça, o que é o vício mais comum do feng shui de blog.

O que existe de verificável é curto e vale a pena arrumar por si mesmo. Laje sobre vão aberto é mais fria que laje sobre cômodo. Motor de portão vibra estrutura. Farol entra pela janela. Garagem fechada precisa de ventilação e isso é norma de construção, não simbolismo. Cada um desses itens tem conserto conhecido e barato, e nenhum deles depende de você aceitar nada sobre energia.

A parte tradicional é coerente e antiga: a escola pede apoio embaixo e atrás porque foi assim que ela escolheu terreno por séculos, e ela é honesta o bastante para aceitar compensação quando o apoio não existe. Compensar aqui significa dar peso onde falta massa, e peso, em linguagem de casa, é tapete grosso, base de cama fechada, móvel baixo e maciço e material de barro. Vale ainda o recorte que este portal repete: o feng shui trata do lugar, e o mapa chinês, os quatro pilares tirados de data, hora e cidade de nascimento, trata de quem vive nele. Uma garagem embaixo do quarto é assunto do primeiro, e apenas dele.

Você sabia?

O maior produtor de quartos suspensos sobre o vazio na história do Brasil foi o modernismo, e ele fez isso de propósito. Os pilotis, aquele térreo livre em que o prédio se apoia em colunas e o chão fica aberto, foram um dos cinco pontos da arquitetura de Le Corbusier e viraram assinatura da escola brasileira: Oscar Niemeyer, Lucio Costa e a geração inteira levantaram o edifício do chão para devolver o térreo à cidade, ao vento e à sombra. Brasília foi construída assim quase por decreto, com superquadras de blocos erguidos sobre pilotis e jardim passando por baixo, e o Rio ganhou o Ministério da Educação e Saúde, de 1943, com um térreo de pé-direito enorme sustentado em colunas. É uma ideia generosa e continua sendo bonita. Só que, lida pela régua chinesa clássica, é a decisão urbanística mais contraintuitiva possível, porque tira exatamente aquilo que a tradição passou dois mil anos pedindo: massa embaixo de quem mora. Duas culturas olharam para o mesmo espaço vazio sob o pavimento e chegaram a conclusões opostas, uma vendo liberdade e a outra vendo falta de montanha. E é por isso que, num apartamento de segundo andar sobre pilotis, a instrução da escola é a mesma do sobrado com garagem: onde a matéria não existe embaixo, ela é trazida para dentro do cômodo.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Desça até a garagem e ache no teto onde termina o vão livre e onde começam as vigas e a alvenaria. Suba e transfira a medida com uma trena.
  2. 2Ponha a cabeceira sobre a parte apoiada do quarto. Quase nenhum dormitório está inteiro sobre o vazio, e isso é resolver em vez de compensar.
  3. 3Cubra boa parte do piso com tapete grosso. É o item que mais muda o toque do pé descalço num quarto sobre laje ventilada.
  4. 4Troque a cama de pés com vão aberto por base fechada, ou feche o vão com uma saia de tecido presa ao estrado.
  5. 5Traga Terra para o quarto: um vaso de barro no canto, cerâmica na cômoda, têxtil em tom de areia e marrom, um móvel baixo e maciço.
  6. 6Se o motor do portão vibra e o farol varre a parede, resolva os dois: regulagem no motor e cortina densa fechada. Nenhum dos dois é obra.

O elemento Terra por trás disso

Elemento

土 Terra

Cores

amarelo-terroso, marrom, bege e ocre

Materiais

cerâmica, argila, pedra, tijolo, tapete grosso

Sinal de excesso

tudo fica pesado e lento, dá preguiça de sair e as decisões arrastam

As áreas do baguá que este assunto toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Quarto em cima da garagem é ruim no feng shui?
A escola desaconselha e a razão é de apoio: ela lê o que está embaixo de quem dorme como fundação, e garagem é o único cômodo da casa projetado para ficar vazio. Isso não significa que o arranjo faça alguma coisa com você, e nenhum texto sério afirma isso. A instrução prática é dupla: pôr a cabeceira sobre a parte do quarto que está apoiada em alvenaria e trazer peso para dentro do cômodo, com tapete grosso, cama de base fechada e material de barro e cerâmica.
Posso pôr criança para dormir nesse quarto?
Pode, e não existe nenhuma base para o contrário, nem na tradição nem fora dela. Se houver algum motivo real para preferir outro quarto, ele será concreto e terá conserto: ruído do portão em horário de sono, farol entrando pela janela, piso frio no inverno. Tapete grosso, cortina densa e uma regulagem no motor do portão resolvem os três, e ficam mais baratos do que uma troca de cômodo.
Adianta encher a garagem de móveis?
Não, e costuma piorar. Garagem cheia vira depósito de coisa parada, e a escola trata acúmulo esquecido com mais rigor do que trata espaço vazio. Se o objetivo é dar massa embaixo, o caminho é organizar e delimitar, com prateleira fechada encostada na parede e o carro no lugar dele. O trabalho de verdade acontece no quarto de cima, com peso, tapete e a cabeceira na parte apoiada.
E se meu apartamento fica sobre os pilotis do prédio?
É exatamente o mesmo caso e recebe exatamente o mesmo tratamento, com uma vantagem: em apartamento você não tem portão vibrando nem farol de ré. A instrução continua sendo pôr a cabeceira sobre a parte apoiada da planta, quando dá para identificar, e trazer o elemento Terra para dentro do quarto com tapete grosso, base de cama fechada, cerâmica e tons terrosos no têxtil. Segundo andar sobre garagem coletiva também entra aqui.

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