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Os objetos da tradição, separados do folclore de loja

Elefante no feng shui: de onde vem o costume e onde ele fica

O elefante de cerâmica ao lado da porta é figura conhecida em toda casa brasileira que já flertou com feng shui, e a origem dele é mais interessante do que a lenda que se conta na loja. Ele não é personagem central da tradição chinesa clássica: entra no repertório pela Índia e pelo budismo, e ganha o mundo pela divulgação ocidental. Existe, sim, um elefante chinês, e ele vive num trocadilho antigo com a palavra auspicioso. Aqui você encontra a história inteira, o material que a peça acrescenta ao cômodo e onde ela cabe.
Poucas peças de decoração carregam tantos passaportes carimbados quanto essa.

O princípio, antes da receita

Vale começar pela origem, porque ela explica a confusão. Na Índia, o elefante é presença antiga e central: Ganesha, a divindade de cabeça de elefante, é invocado nos começos e nas passagens, e por isso a imagem dele aparece com tanta frequência em portas e em entradas. No budismo, a rainha Maya sonha com um elefante branco antes do nascimento de Sidarta Gautama, o que fixa o animal como anúncio de acontecimento importante. Esse repertório viajou com o budismo para o leste da Ásia e chegou ao feng shui popular já misturado, muito depois dos manuais clássicos.

A China tem o seu próprio elefante, e ele é um trocadilho. A palavra elefante, xiang, soa muito parecido com a palavra que significa auspicioso, e ainda por cima parecido com a palavra vaso, ping, que por sua vez soa como paz. Daí nasce um dos motivos mais bonitos da arte decorativa chinesa: um elefante carregando um vaso nas costas, imagem que se lê como um desejo de paz e estabilidade. Se você já viu uma peça de porcelana ou de jade com esse desenho e achou estranho um bicho carregando um pote, agora sabe que aquilo é uma frase escrita em imagem, e não uma cena.

Nos cinco elementos, o que conta é a forma antes da história: corpo largo, base ampla, peso concentrado embaixo, cerâmica ou resina como material. Isso é Terra, a família do que assenta, do que é quadrado e firme, a mesma do vaso de barro e do tapete grosso. A tradição descreve a falta de Terra num ambiente como aquela sensação de casa de passagem, em que ninguém se sente ancorado. É por esse caminho, e não pelo folclore, que a peça encontra a função dela num cômodo.

Onde ele fica e como se usa

O endereço clássico herdado da Índia é a entrada, e ele funciona bem no apartamento brasileiro por um motivo prático: o hall costuma ser o metro quadrado mais desprezado da casa, e uma peça de Terra ali dá peso a um lugar que só serve de passagem. Ponha sobre o aparador ou o sapateiro, na altura entre a cintura e o peito, de um lado só da porta ou em par, se o espaço permitir. A condição que vem antes de qualquer simbolismo é a mesma de sempre: a porta precisa continuar abrindo inteira, e nada de peça grande no chão bem no caminho de quem entra carregando compras.

Pelo baguá orientado pela porta de entrada, que é a escola do Chapéu Negro e é a que este portal segue, o canto da esquerda na mesma parede da porta é a casa do Conhecimento, e ela é de Terra. Material e área combinam sem nenhuma ginástica, e em muitas plantas esse canto é justamente o pedaço morto ao lado da entrada, aquele que ninguém sabe o que fazer. O canto da direita na mesma parede é a casa dos Amigos protetores, que dialoga com a leitura indiana do elefante como figura de porta, embora seja casa de Metal, então ali a peça entra pela imagem e não pelo elemento.

Em imóvel alugado a solução é confortável: essa é uma cura que não pede furo, não pede tomada e não pede obra. Um móvel baixo e firme resolve. Se a casa for pequena e o hall não existir, o que acontece em boa parte dos apartamentos de quarenta e cinco metros com porta abrindo direto na sala, use a peça no ponto em que a sala precisa de peso, que costuma ser o canto entre o sofá e a parede ou o topo da estante mais baixa. Terra ancora canto, e canto sem dono vira depósito de sacola em seis meses.

O que não fazer

Marfim está fora, e essa é a única proibição categórica desta página. O comércio internacional de marfim é banido desde 1989 pela convenção que regula o comércio de espécies ameaçadas, e no Brasil a compra e a venda esbarram na legislação ambiental. Peça herdada de família é outra conversa, com regras próprias, e quem tem uma deveria procurar orientação em vez de anunciar na internet. Para uso doméstico, cerâmica, madeira, pedra e resina cumprem o papel inteiro, e nenhuma leitura tradicional exige o material que custa a vida do animal que a peça representa.

Deixe de lado a regra da tromba, e vale saber por quê. A ideia de que o elefante só serve com a tromba levantada não vem da Índia nem da China: é superstição que se popularizou nos Estados Unidos no começo do século 20, provavelmente por contágio com a ferradura, que precisaria ficar virada para cima para a sorte não escorrer. Tanto é assim que artesãos asiáticos passaram a produzir peças de tromba erguida para atender ao comprador americano. Se você gosta da tromba para cima, ótimo, é bonito. Só não é tradição milenar, e não existe erro a corrigir se a sua peça tiver a tromba baixa.

E cuidado com a coleção. Elefante é presente fácil, então quem gosta acaba com sete deles espalhados em três cômodos, e aí acontece o de sempre: o olho para de ver o que se repete, e o conjunto vira poeira em vez de presença. Escolha dois ou três, dê um lugar de verdade a eles e guarde ou passe adiante o resto. A escola pede poucos objetos bem colocados, e essa regra não abre exceção para bicho simpático.

O que ele faz e o que ele não faz

A parte honesta desta página é que o elefante é decoração com boa história, e isso já é bastante. Ele não muda o que acontece com você fora de casa, não abre caminho para nada e não protege ninguém, e nenhuma escola séria diz o contrário. O que ele faz é o que qualquer peça pesada e larga faz: dá peso visual a um canto e marca um lugar como escolhido.

A segunda parte é sobre linhagem, e ela merece ser dita sem constrangimento. Feng shui é um sistema chinês, e este objeto entrou nele por empréstimo, através do budismo e da divulgação ocidental do século 20. Isso não desqualifica a peça: tradições vivas absorvem coisas o tempo todo, e o próprio repertório que o Brasil chama de feng shui é, em boa medida, uma adaptação recente ao apartamento urbano. O que desqualifica é o vendedor que apresenta como regra ancestral aquilo que tem cem anos e endereço conhecido. Saber a diferença é o que separa quem entende de quem repete.

A terceira é a de sempre, e vale para todos os objetos desta família: o efeito verificável é o de um lembrete. Você escolheu aquela peça, escolheu aquele canto, e passa por ela todo dia. Se junto disso o hall ganhou luz, o sapato saiu do caminho e a porta voltou a abrir inteira, alguma coisa mudou de verdade na sua casa, e não foi o elefante. Foi você, com o elefante servindo de marco.

Você sabia?

A China já teve elefantes de verdade, e não poucos. Escavações no norte do país encontraram ossos do animal em sítios da dinastia Shang, e a própria escrita guarda o rastro: a abreviação da província de Henan, no vale do Rio Amarelo, é um caractere que traz o elefante desenhado dentro dele. Ou seja, muito antes de virar peça de importação vinda da Índia, o bicho pisava aquele solo, e o clima mais quente daquele período comportava manadas onde hoje há inverno seco e cidade. O recuo dos elefantes para o extremo sul acompanhou séculos de desmatamento e de avanço da agricultura, uma história que rendeu livro de história ambiental. Existe um detalhe delicioso nisso: o caractere que hoje significa imagem, aparência e forma é o mesmo do elefante, e há a hipótese, discutida entre estudiosos, de que a ideia de imaginar algo que já não se vê tenha nascido justamente de um animal que sumiu da paisagem e passou a existir só na lembrança.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Se você já tem a peça, ponha sobre móvel baixo e firme na entrada, na altura entre a cintura e o peito, e nunca no chão bem no caminho.
  2. 2Abra a porta inteira depois de posicionar. Se ela esbarrar em qualquer coisa, o enfeite muda de lugar, sem discussão.
  3. 3Passe um pano na peça e acenda a luz do hall. Terra funciona ancorando um canto, e canto escuro não ancora nada.
  4. 4Se você tem mais de três elefantes espalhados, escolha os dois de que mais gosta e guarde ou passe adiante o resto.
  5. 5Pare de virar a peça por causa da tromba. A regra é superstição americana do século 20 e não existe nada para corrigir.
  6. 6Se a casa não tem hall, use a peça no canto entre o sofá e a parede, que é o ponto que mais pede peso na sala pequena.

O elemento Terra por trás disso

Elemento

土 Terra

Cores

amarelo-terroso, marrom, bege e ocre

Materiais

cerâmica, argila, pedra, tijolo, tapete grosso

Sinal de excesso

tudo fica pesado e lento, dá preguiça de sair e as decisões arrastam

As áreas do baguá que este assunto toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

A tromba tem que estar levantada?
Não tem, e essa é a regra mais repetida e menos fundamentada do assunto. A ideia se popularizou nos Estados Unidos no começo do século 20 e é atribuída ao contágio com a ferradura, que deveria ficar de boca para cima para a sorte não escorrer. Não existe correspondente disso na Índia nem na China, e artesãos asiáticos passaram a fabricar modelos de tromba erguida para atender à demanda americana. Escolha pelo desenho que você acha mais bonito, com a consciência tranquila.
Elefante é mesmo feng shui ou é coisa de decoração?
As duas coisas, e é justo dizer isso com todas as letras. A figura não é personagem dos manuais chineses clássicos: ela chega ao repertório pela tradição indiana e budista e pela divulgação ocidental do século 20. Existe um elefante chinês legítimo, mas ele vive num trocadilho, já que a palavra elefante soa como a palavra auspicioso, e daí nasce o motivo clássico do bicho carregando um vaso nas costas. Como objeto de ambiente, ele funciona pelo material, que é Terra, ou seja, pelo que ancora.
Onde é o melhor lugar para pôr o elefante?
Na entrada, sobre um móvel baixo e firme, desde que a porta continue abrindo inteira. Pelo baguá orientado pela porta, o canto da esquerda nessa mesma parede é a casa do Conhecimento e é casa de Terra, então material e área combinam. Se a sua porta abre direto na sala, o que é comum em apartamento pequeno, leve a peça para o canto que mais precisa de peso, geralmente aquele entre o sofá e a parede. Terra ancora canto, e canto ancorado deixa de acumular sacola.
Posso comprar uma peça de marfim antiga?
Não compre. O comércio internacional de marfim está banido desde 1989 pela convenção que regula espécies ameaçadas, e no Brasil a compra e a venda esbarram na legislação ambiental, inclusive para peças antigas em muitos casos. Item herdado de família tem regras próprias e vale procurar orientação específica antes de qualquer decisão. Para o uso doméstico que esta página trata, cerâmica, madeira, pedra e resina entregam exatamente o mesmo efeito de ambiente, porque o que conta é a forma larga e o peso, não o material caro.

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