As nove áreas do baguá, pela porta de entrada
Amor e parcerias no baguá da sua casa
A casa não arruma namorado para ninguém. Ela só decide o que você vê quando levanta e quando deita.
O que essa área rege de verdade
Repare numa coisa que só quem mora a dois percebe: a casa vai desequilibrando bem antes da relação. Um lado do armário foi tomando o outro, a cadeira do quarto virou cabide de uma pessoa só, e as duas escovas dividem um copo em que cabe uma direito. Romance é a porta de entrada do assunto, e essa é a casa mais mal compreendida do baguá inteiro. O trigrama daqui é Kun, e trigrama significa apenas um desenho de três linhas que os chineses usam como símbolo de uma força. Kun tem as três linhas partidas, o único assim entre os oito: nada nele empurra, tudo nele recebe. A tradição chama Kun de terra receptiva e, na leitura familiar dos trigramas, ele é a mãe, aquela que sustenta o peso de quem chega sem pedir crédito por isso.
Olhe para o chão da sua casa. É a única coisa que todo mundo usa o dia inteiro e ninguém elogia, e você só percebe que ele existe no dia em que range ou afunda. Kun é isso, e é por isso que a escola não lê esse canto como um oráculo de vida amorosa, e sim como o lugar onde a vida de dois aparece em forma de objeto: o que está em par, o que está sozinho, o que sobrou de quem já foi embora.
O detalhe que quase ninguém conta: essa casa não é só do romance. Ela cobre toda relação de dois, o que inclui a sociedade da empresa, a dupla que divide a barraca da feira, a parceria de dez anos com a colega de trabalho, a amizade que virou família. Quem abriu negócio com um amigo tem tanto assunto nesse canto quanto quem está casado há vinte anos, e o tipo de desgaste é surpreendentemente parecido: combinado que ninguém revisou, esforço que um acha que faz sozinho, conversa adiada.
Onde ela fica na sua casa
Volte para a soleira, de costas para a rua, e olhe para dentro da casa. Estenda o braço direito e siga com os olhos até o ponto mais fundo daquele lado: aquele canto é Kun. Se ajudar, desenhe mentalmente um jogo da velha sobre a planta, com a fileira de baixo na parede da porta: o quadrado do fundo à direita é o seu.
Aqui as escolas divergem, e a diferença muda a instrução prática. Na escola tradicional, orientada por bússola, essa área é sempre o Sudoeste da casa, independentemente de onde fique a porta. Na escola do Chapéu Negro, adotada por este portal e pela maior parte do que se ensina no Brasil, o mapa gira com a entrada. Se você já mediu a sua casa com bússola e chegou noutro canto, não está errado: está em outra escola, e o único erro possível é trabalhar as duas ao mesmo tempo.
Duas situações comuns valem o aviso. A primeira é a planta em L, em que esse canto simplesmente não existe porque o apartamento é recortado: a escola trata isso como canto faltante e sugere marcar o ponto onde ele estaria, com uma planta, um espelho ou uma luz, sem obra nenhuma. A segunda é o quarto alugado, e aí a regra vale igual dentro do cômodo: pare na porta do quarto e o canto do fundo à direita é a sua área do Amor, mesmo que a casa inteira seja de outra pessoa.
A cor e o elemento que sustentam
Barro, cerâmica, pedra, tijolo e tapete grosso pertencem à Terra, que é o material desta casa. As formas que combinam são as largas e baixas: o quadrado, o retângulo deitado, o banco robusto, a travessa de louça. Nada disso é enfeite por acaso. Terra, na lógica chinesa, é o que aguenta peso, e relação de dois é um dos poucos assuntos da vida em que a pessoa realmente precisa de chão embaixo do pé.
As três cores têm origens diferentes e vale saber qual é qual. O vermelho tem base no ciclo dos elementos, porque o Fogo é o que alimenta a Terra, e um detalhe vermelho aqui funciona como quem coloca lenha embaixo do que já existe. O branco é o oposto: branco é Metal, e a Terra é justamente quem gera o Metal, então o canto todo branco puxa energia dessa casa em vez de reforçar. O rosa, o mais famoso dos três, é a leitura ocidental que a escola do Chapéu Negro consagrou, e não sai do sistema clássico dos cinco elementos.
Um cuidado que quase ninguém menciona: a samambaia gigante no canto do amor. Madeira controla Terra no ciclo chinês, o que significa que um jardim inteiro concentrado ali disputa com o elemento da área. Isso não é motivo para jogar planta fora, é motivo para equilibrar: se o canto for verde demais, acrescente cerâmica, um vaso de barro pesado, um tapete de trama grossa. E se a dúvida for entre duas peças, prefira a que tem par.
O que dá para fazer hoje, sem comprar nada
Conte quantas peças estão sozinhas nesse canto. A regra clássica da escola é a dos pares, e ela é literal: dois porta-retratos, duas velas, duas almofadas, dois vasos, duas cadeiras. O motivo não é encanto, é atenção. Você passa por esse canto todo santo dia, e o que a escola faz ali é transformar uma intenção que costuma ficar só na cabeça em coisa visível. O par não chama ninguém, ele lembra você do que você mesma decidiu querer.
Depois vem a simetria de quem já vive a dois, e essa é a cura mais concreta da página. Cama encostada na parede de um lado só é o padrão de nove entre dez quartos apertados, e o resultado é que uma pessoa sai da cama por cima da outra todas as manhãs, por anos. Se der, afaste a cama e deixe passagem dos dois lados, com um apoio de cada lado, nem que um deles seja um banquinho ou uma pilha de livros firme. A escola pede dois criados-mudos pela mesma razão pela qual pediria dois travesseiros: o espaço mostra, todo dia, que ali cabem duas pessoas.
Por último, tire de lá o que pertence a uma história encerrada. A caixa de presentes do relacionamento anterior, a camisa que ficou, a papelada da separação. Não é superstição nem exorcismo, é o mesmo princípio das duas curas anteriores: esse canto é um lembrete diário, e você escolhe do que quer ser lembrado. Guardar em outro lugar já basta, ninguém precisa queimar nada.
Por onde começar, e por que nesta ordem
A fila começa pelo que ocupa chão. Tire dali o que é pendência doméstica e o que está encostado esperando destino, porque enquanto o canto estiver cheio você nem consegue enxergar o que sobrou nele. Custa zero, leva menos de meia hora em apartamento pequeno e é a etapa que mais muda a cena com menos esforço.
Em segundo lugar vem o que está quebrado ou pela metade, pelo mesmo raciocínio: pendência à vista pesa mais do que ausência de enfeite. Em terceiro vem a luz, porque canto arrumado no escuro continua sendo canto que ninguém olha. Só depois de tudo isso entra a parte que todo mundo quer fazer primeiro, que é escolher o que fica bonito ali.
O critério dessa ordem é o impacto no que você vê todo dia, e não o tamanho do trabalho, que por sorte costuma andar junto: o que muda mais é justamente o mais fácil. E compra fica sempre no fim da fila por uma razão concreta: se você começar pelo par de vasos, o canto ganha mais um objeto e continua com o cesto de roupa suja do lado. Nessa ordem, quando chegar a hora de escolher, você vai estar escolhendo num espaço vazio, que é o único jeito de a escolha aparecer.
Os erros que quase todo mundo comete
A foto da família inteira no canto do casal é o engano mais frequente, e o mais bem-intencionado de todos. Pai, mãe, irmãos, sobrinhos, o churrasco de Natal: é tudo bonito e é tudo assunto de outra casa do baguá, a da Família, que fica no meio da parede da esquerda. Ninguém está dizendo que a sua mãe atrapalha o seu casamento. Está dizendo que, se o que você quer trabalhar é a relação de dois, esse é o canto que fala disso, e ele só tem lugar para uma mensagem por vez.
O segundo erro é decorativo e passa despercebido: a imagem de solidão pendurada exatamente ali. O quadro da moça olhando o mar sozinha, a cadeira única na areia, a árvore isolada no campo, a foto sua no alto da montanha em que só cabe uma pessoa. São imagens lindas e podem ficar em qualquer outra parede da casa. Aqui, pela mesma lógica do par, elas dizem uma coisa diferente do que você quer dizer.
O terceiro é o consumo. Par de patos mandarim, quartzo rosa, laço vermelho amarrado no pé da cama: o mercado transformou essa área numa prateleira de loja esotérica, e é justo dizer com calma que nada disso é obrigatório nem faz parte do que a escola de fato ensina. Se você tem carinho pelo objeto, use, funciona como qualquer outro par. O que não existe é a versão em que a compra substitui o trabalho, e muito menos a versão fatalista de que canto bagunçado desmancha casamento. Casamento se desmancha por conversa que não aconteceu, não por almofada solitária.
Onde as escolas divergem, e qual a gente segue
O método é o primeiro ponto em que as leituras se separam, e ele é anterior a qualquer regra prática. A escola tradicional mede a casa com bússola e fixa Kun no Sudoeste, aconteça o que acontecer com a porta. A escola do Chapéu Negro, que é a adotada aqui, conta o mapa a partir da entrada. A diferença não é de gosto: uma parte do princípio de que o que organiza um espaço é a orientação da Terra, a outra parte de que é o ponto por onde a vida entra nele.
Existe ainda um terceiro sistema, e é nele que muita gente se perde sem perceber. Para assunto de romance, a astrologia chinesa usa a chamada posição da flor de pessegueiro (tao hua), que não sai da planta da casa e sim do animal do zodíaco chinês da pessoa: cada animal aponta um setor diferente. Ou seja, num casal, um teria um setor e o outro teria outro, e nenhum dos dois precisa coincidir com o canto do baguá. Não é invenção de bazar, é uma linha antiga e coerente por dentro, só que de outro sistema.
Este portal trabalha com o canto do baguá contado pela porta principal, e é a essa regra que tudo nesta página obedece. A flor de pessegueiro fica como o que ela é, uma leitura útil dentro da lógica dela, que a gente cita sem embaralhar. Somar as três coisas na mesma casa é a maneira mais rápida de terminar a tarde com três cantos e nenhuma decisão. O erro não é escolher a escola errada. O erro é misturar duas e passar a vida mudando móvel de lugar sem nunca ir até o fim em nenhuma.
Você sabia?
Kun não é só um símbolo abstrato de terra: no Livro das Mutações, os oito trigramas são lidos como uma família de oito pessoas, e cada um tem um papel de parentesco. Qian, o céu, é o pai. Kun, a terra, é a mãe. Os outros seis são os três filhos e as três filhas, distribuídos conforme a posição da linha diferente dentro do desenho. Isso explica uma sutileza que se perde na tradução: a casa do baguá que o Brasil chama de Amor não nasceu falando de paixão, nasceu falando da capacidade de acolher e sustentar outra pessoa, que é o que a cultura chinesa atribuía à figura materna. Quando a escola pede pares nesse canto, ela está pedindo menos romance e mais reciprocidade.
A área no mapa da casa
A ficha da área
Trigrama
☷ Kun
Elemento
Terra
Cores
rosa, vermelho e branco
Onde fica
o canto mais distante à sua direita
Os sinais de que esse canto está pedindo atenção
Nenhum item desta lista é sobre a sua vida, todos são sobre o espaço. Dá para conferir de pé, agora, olhando para o canto.
Tudo o que está nesse canto pertence a uma pessoa só, e dá para dizer de quem é sem pensar.
Este é o sinal mais direto da área e ele não exige fita métrica: olhe objeto por objeto e responda de quem é. Se a resposta for sempre a mesma pessoa, o espaço já registrou quem ocupou e quem cedeu, e isso vale tanto para casal quanto para os dois sócios que dividem a mesma sala. A correção sai de graça: troque um daqueles objetos por alguma coisa que as duas pessoas usam.
O canto virou o depósito de pendência da casa: o cesto de roupa suja, a pilha do que falta passar, a sacola do mercado que ninguém guardou.
Nada disso é pecado e tudo isso precisa morar em algum lugar. O detalhe é que serviço doméstico mal dividido é um dos assuntos que mais desgastam a vida a dois no Brasil, e ele está empilhado justamente no pedaço da casa que a escola reservou para o tema. Levar o cesto para a área de serviço, para dentro do banheiro ou para trás da porta custa nada e tira a discussão do campo de visão.
Tem coisa quebrada esperando conserto ali: a luminária com o fio solto, a gaveta que não corre, o vaso rachado que você guardou para colar um dia.
A escola olha para manutenção antes de olhar para decoração, e o motivo é bem pé no chão: objeto quebrado guardado é decisão adiada ocupando espaço. Conserte hoje o que dá para resolver em dez minutos e descarte o que você sabe que nunca vai colar. Não tem nada de mágico nisso, tem a ver com não deixar pendência acumulada no canto que trata de combinado entre duas pessoas.
Depois que escurece, esse é o pedaço mais escuro do cômodo: a luz do teto não alcança e não existe nenhum ponto de luz ali.
Canto sem luz é canto que ninguém olha, e área do baguá que ninguém olha não faz o serviço de lembrete que a escola atribui a ela. Um abajur que já está sobrando em outro cômodo resolve na hora, e nem precisa ficar aceso a noite inteira. Se não houver tomada por perto, uma luminária a pilha ou uma vela em pote de vidro numa noite específica da semana já mudam o que aquele canto significa para você.
Só um lado da cama tem tomada boa, então um celular carrega na mesinha e o outro carrega no chão do corredor.
Simetria, nesta área, é bem mais infraestrutura do que enfeite, e quase ninguém repara nisso antes de morar a dois num quarto apertado. Uma extensão que já existe na casa resolve a maior parte dos casos, e a diferença aparece na primeira noite. Vale o mesmo raciocínio para a luminária de leitura e para o lugar de apoiar o copo de água: se um lado tem e o outro não, o espaço está dizendo isso todo dia, sem falar nada.
O checklist desta área
- 1Pare no canto do fundo à direita e conte quantos objetos estão sozinhos ali.
- 2Transforme uma peça solitária em par usando algo que você já tem em casa, sem comprar nada.
- 3Tire desse canto qualquer imagem de pessoa sozinha e leve para outra parede da casa.
- 4Se a foto da família inteira está ali, mude para o meio da parede da esquerda, que é a área da Família.
- 5Confira se dá para sair da cama pelos dois lados e libere a passagem que estiver bloqueada.
- 6Guarde em outro cômodo o que sobrou de uma relação encerrada, sem precisar jogar fora.
- 7Acrescente uma peça de cerâmica, barro ou pedra ao canto, de preferência baixa e larga.
E quando essa área cai justamente no cômodo errado
A planta raramente colabora, e a pergunta que todo mundo faz é o que fazer quando a área cai em cima de um cômodo que trabalha no sentido contrário. Cada página abaixo trata de um desses encontros, com a leitura pelos cinco elementos e as providências de custo zero.
Grátis, sem cadastro
Veja onde cai cada uma das nove áreas na planta da sua casa
A grade das nove áreas se encaixa na sua planta a partir da porta de entrada, e cada cruzamento vem com a leitura pelos cinco elementos e o que dá para fazer hoje.
Você informa: por onde a porta abre e o que ocupa cada canto. O resultado aparece na hora.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
A área do Amor é sempre o Sudoeste da casa?
Eu moro sozinha. Ainda faz sentido mexer nesse canto?
Preciso mesmo de objetos em par? E se eu não tiver nada em dupla?
Isso ajuda a arrumar namorado?
O canto do amor da casa e o do meu quarto caem em lugares diferentes. Qual dos dois eu trabalho?
Acabei de me separar. Mexo nesse canto agora ou espero passar?
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