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Cabeceira embaixo da janela: como fabricar uma parede por menos de cem reais

Em quarto brasileiro de dois metros e meio por três, com porta de um lado, guarda-roupa do outro e janela na terceira parede, a cabeceira acaba embaixo da janela porque não sobrou lugar. A escola pede parede cheia atrás da cabeça e essa é a regra mais repetida do cômodo do sono, tratada no roteiro de dormir melhor deste portal. Aqui o assunto é só este caso, e a resposta não é largar o apartamento: é fabricar uma parede onde não existe uma. Tem versão de cem reais, versão de trinta e versão de zero, e as três funcionam.
Você não precisa de uma parede. Precisa de alguma coisa firme, opaca e mais alta que a sua cabeça.

O princípio, antes da receita

A regra da escola é curta: nada atrás da cabeça que não seja parede. Vale perguntar por que a janela desagrada tanto, porque a resposta não é mística e cada pedaço dela é conferível. Vidro é a parte mais fria da casa no inverno e a mais quente no verão, e quem dorme com a cabeça a vinte centímetros dele sente isso primeiro. Janela deixa passar som da rua, luz de poste e farol de carro, e nenhuma dessas coisas tem horário. E, ao contrário de parede, ela se abre, o que significa que o ponto atrás da sua cabeça é o único da casa que pode mudar de estado enquanto você dorme, por causa de vento, de chuva ou de alguém que abriu para ventilar.

A tradição chegou ao mesmo lugar por outro caminho. Na leitura clássica dos quatro animais, o que fica atrás de quem descansa é a montanha, o apoio, e a instrução é que seja firme e contínuo. Abertura atrás das costas é justamente a ausência de montanha. Você pode conferir a lógica sem nenhuma teoria: repare onde as pessoas se sentam num restaurante vazio, num banco de praça, numa sala de espera. Quase ninguém escolhe o lugar aberto dos dois lados, e ninguém explica isso, apenas faz.

Existe um detalhe histórico que ajuda a entender por que a tradição chinesa foi tão dura com esse ponto: as janelas da casa chinesa antiga não eram de vidro, eram de treliça de madeira coberta com papel. Deixavam passar claridade difusa, sombra, som e frio, e podiam ser rasgadas com o dedo. Uma janela ali não era uma parede transparente, era uma membrana. Quando você lê que a escola trata a abertura como ponto permeável, entenda que ela está descrevendo, com precisão, o material que existia na casa de quem escreveu a regra.

O que fazer hoje

A primeira tentativa é sempre girar a cama, e ela falha em muitos quartos por um motivo específico que vale checar: quase sempre é a posição do guarda-roupa que trava tudo, e não a da cama. Meça a parede oposta antes de desistir. Se o armário puder deslizar meio metro, ou se a cômoda que está ali por inércia desde a mudança sair do quarto, aparece parede cheia para a cabeceira. Vale gastar meia hora com uma trena e um papel antes de aceitar a janela como destino.

Se a janela é mesmo a única opção, fabrique o encosto. A versão que resolve melhor é uma placa de compensado ou de MDF de dois centímetros, cortada na largura da cama por uns setenta centímetros de altura, comprada já no tamanho na loja de madeira, apoiada no chão atrás dos travesseiros e presa à parede ou à própria cama para não tombar. Custa em torno de cem reais, e forrar com tecido acolchoado e grampeador de estofador dobra o efeito visual e o conforto. A versão de trinta reais é a mesma placa em papelão duplo grosso, forrada, encostada e presa com fita de dupla face de espuma. E a versão de zero é a que muita gente já usa sem saber: uma pilha de almofadões firmes encostados entre a cabeça e o vidro, mais a cortina densa fechada.

A cortina é a segunda metade da solução e merece atenção. O que funciona ali é tecido pesado ou blackout, com trilho ou varão largo o suficiente para o pano cobrir todo o vão quando fechado, e de preferência descendo abaixo do peitoril. Isso resolve luz, resolve boa parte do som e cria uma superfície contínua atrás da cabeça, que é o que a escola pede. Duas providências completam: verificar se a janela está vedando, porque frestas de esquadria velha são a origem do vento frio direto na cabeça, e resolver com fita de vedação adesiva, que custa poucos reais no metro; e conferir se o vidro fica aberto à noite por hábito de ventilação, caso em que vale trocar a abertura para uma folha lateral em vez da que fica bem atrás dos travesseiros.

O que não fazer

Não pendure nada pesado na parede acima da cabeceira para compensar. É a reação mais comum de quem lê sobre o assunto: prateleira, nicho, quadro grande, luminária pendente. A escola pede exatamente o contrário, que acima da cabeça só haja teto, e o argumento de peso caindo é anterior a qualquer simbolismo. Se você precisa de superfície ao lado da cama, ela fica na altura da cintura, ao lado, e não em cima.

Não feche a janela em definitivo, e este é o único item da página em que a saúde da casa vem antes da tradição. Quarto sem troca de ar é quarto úmido, e apartamento brasileiro com pouca ventilação acumula mofo em roupa, em parede e em armário com uma facilidade que qualquer morador de litoral conhece. A solução é de horário e não de lacre: ventile de manhã com tudo aberto por alguns minutos e feche a cortina densa à noite. Também não use cortina de tecido leve translúcido achando que resolve, porque ela deixa passar a luz do poste inteira, que é justamente o que se quer bloquear.

E não trate a janela na cabeceira como problema insolúvel. Muita gente lê a regra, conclui que o quarto está errado por natureza e não faz nada, o que é o pior desfecho possível. A escola é hierárquica e aceita solução parcial: cabeceira firme mais cortina densa fechada resolve o essencial do caso, e as duas coisas cabem num sábado à tarde. Se você mora de aluguel e não pode furar parede, a placa apoiada no chão e presa à estrutura da cama funciona igual e sai com você na mudança.

O que ele faz e o que ele não faz

O que dá para verificar é a maior parte do assunto, e é bom que seja assim. Vidro troca temperatura com o ambiente muito mais do que alvenaria, então o ponto atrás da sua cabeça é o mais frio do quarto no inverno. Janela passa som e luz de rua. Esquadria velha tem fresta e a fresta gera corrente de ar. Cada uma dessas coisas tem solução barata e todas somam no mesmo lugar, que é a região da cabeça de quem dorme.

A parte tradicional é a leitura do apoio, e ela é antiga, coerente e não pede fé nenhuma. O que este portal não vai fazer é o passo seguinte que a internet costuma dar, o de afirmar que dormir sob a janela causa doença, atrapalha a vida financeira ou provoca separação. Não causa, não atrapalha e não provoca, e quem escreve isso está inventando consequência para vender solução.

O efeito honesto é bem descrito: uma superfície firme, opaca e mais alta que a sua cabeça muda a sensação de estar exposto e resolve, de quebra, três incômodos físicos reais. Se depois de arrumar isso o seu sono continuar picado por meses, o assunto virou clínico e nenhum encosto de madeira dá conta, o que o roteiro de dormir melhor deste portal também diz sem enfeitar.

Você sabia?

As janelas que aparecem na arquitetura chinesa clássica, aquelas de treliça geométrica que a gente vê em foto de pátio antigo, eram fechadas com papel e não com vidro, e isso durou até muito depois de o vidro plano existir na Europa. O papel era colado na grade de madeira pelo lado de dentro e trocado periodicamente, às vezes na virada do ano, e deixava passar uma claridade difusa que os textos de arquitetura descrevem como leitosa. Existem duas consequências saborosas disso. A primeira é que a sombra de quem passava do outro lado aparecia projetada no papel, coisa que o teatro de sombras chinês explorou por séculos. A segunda é que a treliça, com aqueles desenhos de gelo quebrado, de moeda e de losango, não era só ornamento: ela é a estrutura que segurava o papel, e quanto mais fina a divisão, menor o pedaço de papel que precisava aguentar o vento. Ou seja, o padrão bonito que hoje se copia em papel de parede nasceu de um problema de engenharia bem simples.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Antes de aceitar a janela, meça a parede oposta. Na maioria dos quartos quem trava o giro da cama é o guarda-roupa ou uma cômoda que está ali por inércia.
  2. 2Se a janela ficar mesmo, fabrique um encosto: placa de compensado cortada na medida, setenta centímetros de altura, apoiada no chão e presa para não tombar.
  3. 3Forre a placa com espuma fina e tecido usando grampeador de estofador. Dobra o conforto e transforma a solução improvisada em cabeceira de verdade.
  4. 4Instale ou troque a cortina por tecido pesado ou blackout, com varão largo o bastante para cobrir todo o vão e o pano descendo abaixo do peitoril.
  5. 5Passe a mão no contorno da janela numa noite de vento. Se sentir fresta, resolva com fita de vedação adesiva, que custa poucos reais o metro.
  6. 6Ventile de manhã com tudo aberto e feche à noite. Fechar a janela em definitivo troca um problema de sono por um problema de mofo.

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Perguntas frequentes

É ruim dormir com a cabeça embaixo da janela?
A escola desaconselha e pede parede cheia atrás da cabeça, e os motivos são bem concretos: vidro é o ponto de maior troca de temperatura do quarto, deixa passar luz de poste e som de rua, tem fresta quando a esquadria é velha e pode ser aberto por alguém enquanto você dorme. Nenhum texto sério vai além disso, e este portal não afirma que a posição cause qualquer coisa na sua vida. Se a janela é a única parede possível, a solução é fabricar um encosto firme e usar cortina densa fechada à noite.
Como faço uma cabeceira barata?
Três versões, na ordem de custo. Cem reais: placa de compensado ou MDF cortada na largura da cama por setenta centímetros de altura, comprada já no tamanho, apoiada no chão e presa para não tombar, com opção de forrar em espuma e tecido usando grampeador. Trinta reais: a mesma placa em papelão duplo grosso, forrada e fixada com fita dupla face de espuma. Zero: almofadões firmes encostados entre a cabeça e a parede, mais a cortina densa fechada. As três resolvem o que interessa, que é ter algo opaco e firme atrás.
Posso deixar a janela aberta à noite?
Pode, e em muita cidade brasileira isso é questão de suportar o calor. O ajuste que costuma resolver os dois lados é de qual folha fica aberta: se a janela é de correr com duas folhas, deixe aberta a que não está exatamente atrás dos travesseiros. Ventilação cruzada com a porta do quarto entreaberta ajuda mais do que abrir tudo bem atrás da cabeça. E vale lembrar que quarto sem troca de ar acumula mofo, então lacrar a janela nunca é a resposta.
E se eu não puder mudar nada porque moro de aluguel?
Tudo o que esta página recomenda funciona sem furar parede. A placa de encosto fica apoiada no chão e presa à estrutura da cama, e sai com você na mudança. Cortina de blackout existe em modelo de varão com suporte de pressão, que não exige furo. Fita de vedação adesiva sai sem marcar a esquadria. E a versão de custo zero, almofadões firmes mais cortina fechada, não deixa vestígio nenhum. Aluguel não é impedimento para nada nesta página, é só uma restrição de método.

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