O que fazer com o que já está na casa
Cabeceira encostada na parede do banheiro: o caso mais comum da suíte brasileira
Firmeza atrás da cabeça é metade do que a escola pede. A outra metade é silêncio, e é a que costuma faltar.
O princípio, antes da receita
O que fica atrás de quem dorme tem nome na tradição: é a montanha, o apoio, representada no esquema clássico dos quatro animais pela tartaruga, o bicho que carrega a própria proteção nas costas. A instrução que sai daí é a mais repetida do cômodo do sono e a mais barata da escola inteira: parede cheia atrás da cabeceira, sem janela, sem porta e sem vão. Uma parede de banheiro cumpre a parte da alvenaria com folga. O que ela não cumpre é a parte que a doutrina não precisava explicitar, porque na casa em que a doutrina foi escrita não havia cano dentro de parede nenhuma.
É como encostar a cabeceira na parede da cozinha de um restaurante: a alvenaria é sólida, ninguém discute, e mesmo assim ela nunca fica quieta. Dentro de uma parede hidráulica passam a descida do vaso, a alimentação do chuveiro e a saída da pia, e cada uma delas produz som em horário que você não escolhe. Existe até um barulho com nome próprio, aquele tunc seco que a parede dá quando alguém fecha rápido a torneira ou a válvula: chama-se golpe de aríete, e é a onda de pressão da água que estava em movimento e parou de repente. Quem dorme com a cabeça a cinco centímetros desse tubo escuta tudo.
A leitura simbólica acrescenta uma camada e é justo apresentá-la como o que é, interpretação moderna. O banheiro é lido pela escola como o ponto de eliminação da casa, e dormir com a cabeça encostada nele desagrada pela mesma razão que desagrada dormir com a cabeça sob uma janela: não é o material, é o que acontece do outro lado. Vale registrar que toda a doutrina sobre banheiro foi escrita no século 20, para plantas de apartamento, porque a casa chinesa clássica não tinha banheiro dentro do corpo residencial. Isso não invalida a leitura, apenas coloca ela no lugar certo, o de interpretação sensata e não o de sentença antiga.
O que fazer hoje
Faça primeiro o teste que decide o tamanho do seu problema, e ele leva dois minutos. Deite na cama, peça para alguém dar descarga, abrir o chuveiro e fechar a torneira da pia com força, e escute. Se você não ouve quase nada, a parede é grossa ou tem revestimento dos dois lados e o seu caso é praticamente só simbólico, resolvido com a mediação de sempre. Se você ouve a água descendo com nitidez, aí existe trabalho a fazer e ele tem resultado imediato.
A melhor solução continua sendo mudar a cabeceira de parede, e ela é descartada rápido demais na maioria dos quartos. Antes de desistir, meça as outras três paredes com uma trena e teste no papel, porque quem trava o giro quase nunca é a cama: é o guarda-roupa encostado por inércia, ou a cômoda que poderia sair do quarto, ou a posição da tomada do abajur, que se resolve com uma extensão rente ao rodapé por vinte reais. Meia hora com trena e papel é barata comparada a anos de arranjo herdado do dia da mudança.
Se a cabeceira fica, ponha distância e massa no meio. Afastar a cama quinze ou vinte centímetros da parede e instalar uma cabeceira estofada, uma placa de compensado forrada com espuma e tecido, ou uma estante rasa entre a cama e a parede muda duas coisas ao mesmo tempo: aumenta o intervalo e acrescenta material absorvente, que é exatamente o que reduz som. A versão de custo zero é pendurar uma colcha grossa, uma manta pesada ou uma tapeçaria na parede atrás da cabeceira, e ela funciona melhor do que parece. Junto disso, resolva a origem do barulho: caixa acoplada que enche sozinha de madrugada é boia desregulada, peça barata que qualquer pessoa troca, e vale a mesma checagem que o portal recomenda para torneira pingando. Por último, passe a mão na parede procurando mancha e bolha na tinta, porque parede de área molhada é onde a umidade aparece primeiro, e cabeceira encostada em parede úmida é assunto de manutenção, não de tradição.
O que não fazer
Não instale prateleira, nicho ou cabeceira com armário embutido acima da sua cabeça para aproveitar a parede. A escola pede o contrário, que sobre a cabeça de quem dorme haja apenas teto, e o argumento de objeto pesado sobre a cabeceira é anterior a qualquer simbolismo. Se você precisa de superfície ao lado da cama, ela fica na altura da cintura, lateral, nunca em cima. Espelho nessa parede também não, pelo motivo que o portal já explica em página inteira sobre superfície refletindo a cama.
Não fuja para a janela. É a troca mais comum de quem descobre esta regra: a cabeceira sai da parede do banheiro e vai parar embaixo da janela, que é justamente o arranjo que a escola desaconselha com mais firmeza, e que este portal também trata em página separada. Se as duas paredes forem impossíveis, prefira a do banheiro tratada com afastamento e cabeceira estofada, que é o caso mais fácil de corrigir dos dois. Também não encoste a cama contra uma parede lateral deixando um dos lados sem passagem, porque casal que precisa subir por cima do outro para levantar de madrugada troca um incômodo pequeno por um diário.
E não compre objeto no lugar de resolver o arranjo. Cristal na cabeceira, sal em copo atrás da cama e placa embaixo do colchão aparecem muito nesse caso, e nada disso é a resposta da escola para uma questão de posição e de acústica. Se a parede tiver mancha de umidade, então, objeto nenhum vai adiantar e a conversa é com quem entende de vedação de box e de rejunte. Por fim, não tente lacrar o banheiro da suíte para diminuir o som: banheiro sem troca de ar acumula mofo em rejunte e em teto, e você troca um assunto por outro mais caro.
O que ele faz e o que ele não faz
Dormir com a cabeça encostada na parede do banheiro não faz nada com quem dorme ali, e é bom afirmar isso sem meio termo porque a internet sugere o contrário com frequência. Não há efeito sobre trabalho, sobre relacionamento nem sobre nada mais, e a leitura de proximidade com o cômodo de eliminação é interpretação do século 20 aplicada a uma planta que os textos antigos jamais viram.
A parte que se confere é simples e é a que vale o esforço. Dentro daquela parede correm tubos, e tubo com água em movimento faz barulho: a descida da descarga, o chuveiro do vizinho de cima quando a prumada é comum, e o golpe de pressão quando alguém fecha uma válvula com força. Você mede isso deitando na cama e pedindo para alguém acionar cada um. Se ouvir, a correção de afastar quinze ou vinte centímetros, pôr cabeceira estofada e pendurar têxtil pesado na parede reduz o que chega, porque material macio absorve e distância dispersa. Não é energia, é acústica de casa, e é a mesma razão pela qual estúdio de gravação é forrado de tecido.
A parte tradicional continua boa dentro do tamanho dela: a escola quer apoio firme e quieto atrás da cabeça, e você entrega as duas coisas com afastamento, com massa macia e com a boia da caixa acoplada regulada. Se depois disso tudo o seu sono continuar picado por meses, o assunto deixou de ser da casa e nenhuma cabeceira resolve, e o roteiro de dormir melhor deste portal diz isso com a mesma franqueza. Fica também o recorte de sempre: o feng shui trata da parede, e o mapa chinês, calculado a partir de data, hora e cidade de nascimento, trata de quem dorme encostado nela.
Você sabia?
Aquele tunc que a parede dá quando alguém fecha a torneira depressa tem nome técnico e uma história muito melhor do que o incômodo sugere. Chama-se golpe de aríete: a água que estava correndo tem inércia, e quando a passagem fecha de repente, toda essa massa em movimento bate contra o obstáculo e devolve uma onda de pressão que percorre o cano e sacode a tubulação. É energia de sobra, e alguém percebeu isso. Em 1796, na França, Joseph Michel Montgolfier, um dos dois irmãos que sete anos antes tinham colocado o primeiro balão de ar quente no céu, patenteou uma máquina que aproveitava exatamente esse choque para bombear água morro acima, sem motor, sem eletricidade e sem combustível: uma válvula fecha sozinha com o fluxo, o golpe empurra uma parte da água para um reservatório pressurizado, a válvula reabre e o ciclo recomeça, batendo dezenas de vezes por minuto. O aparelho ficou conhecido no Brasil como carneiro hidráulico e ainda funciona em sítio e em chácara pelo país inteiro, elevando água de nascente para caixa d'água a dezenas de metros de altura, movido só pela própria queda. Ou seja, o barulho que atrapalha o seu sono é o mesmo fenômeno que os irmãos do balão transformaram numa bomba que trabalha de graça há mais de duzentos anos.
As providências, na ordem de impacto
- 1Deite na cama e peça para alguém dar descarga, abrir o chuveiro e fechar a torneira com força. O que você ouvir define o tamanho do seu caso.
- 2Antes de aceitar a parede, meça as outras três com uma trena. Quem trava o giro quase nunca é a cama, é o guarda-roupa ou a tomada do abajur.
- 3Se a cabeceira fica, afaste a cama quinze ou vinte centímetros da parede. Distância sozinha já muda o que chega até o travesseiro.
- 4Instale uma cabeceira estofada ou uma placa de compensado forrada com espuma e tecido. Material macio absorve o que a alvenaria transmite.
- 5A versão de graça: pendure uma colcha grossa, uma manta pesada ou uma tapeçaria na parede atrás da cabeceira. Funciona melhor do que parece.
- 6Regule a boia da caixa acoplada se ela enche sozinha de madrugada. É peça barata e resolve o barulho na origem em vez de abafar depois.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Pode encostar a cabeceira na parede do banheiro?
Como sei se o meu caso é grave?
Uma cabeceira estofada resolve?
É melhor pôr a cabeceira embaixo da janela então?
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