Os objetos da tradição, separados do folclore de loja
Tartaruga no feng shui: a montanha que fica atrás de você
O animal que anda com a casa nas costas virou, na tradição, a casa que fica nas suas.
O princípio, antes da receita
A leitura começa numa paisagem, não num objeto. A escola da Forma, que é a linhagem mais antiga desta tradição, descreve o lugar ideal para construir a partir de quatro figuras dispostas em volta: o Dragão Azul a leste, o Tigre Branco a oeste, a Fênix Vermelha ao sul e a Tartaruga Negra ao norte. Traduzindo para o relevo, que é onde a regra nasceu: uma elevação firme atrás, terrenos de altura média nos dois lados, e à frente um espaço aberto e baixo, de preferência com água à vista. Quem olha esse desenho de cima reconhece na hora o que ele é. É uma poltrona: encosto atrás, braços dos lados, vista livre na frente.
A tartaruga é o encosto dessa poltrona, e é por isso que ela é o animal do apoio. A escolha do bicho não é aleatória: um casco é uma proteção que não se pode tirar, o animal vive muito, anda devagar e não se assusta com pressa alguma. Vale dizer também de onde vem a cor: no sistema chinês, o norte é preto e é a Água, o que faz dessa figura, nos cinco elementos, a família do que corre e do que contorna. Ela não é Terra por ser pesada, é Água por ser do norte, e essa é uma das poucas vezes em que a direção manda mais que o material.
Daí sai a instrução doméstica, e ela vale mesmo para quem nunca vai comprar uma peça de tartaruga. O corpo humano não relaxa de costas para uma passagem, e isso é conferível hoje à tarde, sem tabela nenhuma: sente de costas para a porta da sala e repare em quantas vezes você vira a cabeça em dez minutos. A escola resolveu isso há séculos com uma frase de paisagem, montanha atrás e vale na frente, que este portal traduz assim: parede cheia às costas, campo de visão livre à frente.
Onde ele fica e como se usa
Aplique a poltrona antes de pensar em enfeite, porque essa parte é gratuita e é a que muda alguma coisa. Na mesa de trabalho, procure a parede: encosto alto e superfície sólida atrás, tela e porta no campo de visão. Na cama, a cabeceira encostada em parede inteira. No sofá, o encosto contra a parede em vez de solto no meio da sala, que é um arranjo de revista e um desconforto de todo dia. Em apartamento pequeno, quando a tomada obriga a mesa a ficar num canto sem parede, uma estante baixa ou o próprio encosto alto da cadeira já cumprem o papel de apoio.
Se você tem ou quer a peça, a instrução dela é diferente da dos outros objetos desta família, e é o que a torna interessante: tartaruga não é peça de canto, é peça de costas. O lugar tradicional dela é atrás de quem ocupa o espaço, sobre a estante que fica às suas costas na mesa, no aparador atrás da poltrona de leitura, na prateleira acima do encosto do sofá. Ela não está ali para ser vista por você, está ali para ocupar a posição do apoio.
Pelo baguá orientado pela porta de entrada, que é a escola que este portal segue, a faixa central da parede da porta é a casa da Carreira e é casa de Água, o mesmo elemento do norte e da tartaruga, então material e área combinam sem forçar nada. A escola tradicional, que orienta pela bússola, poria a figura no setor norte da planta. As duas concordam no essencial, que é a posição relativa: seja qual for a parede escolhida, a tartaruga fica atrás de alguém, nunca na frente. Material serve qualquer um, cerâmica, pedra, metal ou madeira, e vale a preferência da casa.
O que não fazer
Não ponha a peça no lugar em que ela é olhada de frente o dia inteiro. Objeto de apoio na parede que você encara é uma contradição de posição, e o efeito prático é banal: ele vira mais um bibelô disputando atenção numa sala que provavelmente já tem muitos. Se o único lugar disponível for esse, prefira outro objeto e resolva a questão do apoio com a parede mesmo, que é o que interessa.
Não use bicho vivo como enfeite de ambiente, e essa é a parte séria desta página. No Brasil, jabuti e cágado são animais silvestres e a criação em casa exige autorização do órgão ambiental, com origem legal comprovada. A tartaruga aquática vendida em feira, aquela pequena de casquinha listrada, costuma ser espécie exótica que não pode ser solta em rio nem em lagoa e que cresce muito mais do que o comprador imagina. Um animal que vive décadas é um compromisso de décadas. A tradição fala de uma figura de paisagem, e uma peça de cerâmica cumpre esse papel inteiro sem que ninguém precise cuidar de um bicho por trinta anos.
E não confunda apoio com peso em cima. A montanha da tradição fica atrás, na horizontal, e não acima da cabeça. Prateleira carregada logo acima do travesseiro, armário suspenso sobre a cadeira de trabalho e viga aparente cortando o teto no ponto em que você passa horas são o contrário do que essa imagem propõe. Apoio é o que sustenta as costas; carga suspensa é o que a escola pede para tirar dali.
O que ele faz e o que ele não faz
A tartaruga é, entre todos os objetos desta família, o que menos depende de o objeto existir. Ninguém precisa comprar figura nenhuma para aplicar o que ela ensina, porque a lição inteira cabe em duas providências de custo zero, girar a mesa e escolher a parede da cabeceira. Isso é raro num assunto em que quase tudo termina numa vitrine, e é a melhor propaganda que a escola da Forma poderia ter.
Dito isso, também não é verdade que a peça seja inútil. Um objeto na posição do apoio marca aquele lugar como o lugar do apoio, e quem convive com a casa lê esse recado sem precisar formulá-lo. É o mesmo mecanismo de qualquer objeto escolhido de propósito: ele lembra o que você decidiu sobre aquele canto. O que ele não faz é substituir a parede. Tartaruga bonita numa estante, com a cadeira de trabalho de costas para o corredor, é enfeite fazendo o trabalho de arquitetura, e nunca dá certo.
Sobre promessas, a régua é a mesma do resto do portal: nenhum objeto muda o que acontece com você fora de casa, e quem afirma isso está vendendo outra coisa. O que muda, e é conferível, é a quantidade de vezes que você vira a cabeça para conferir quem entrou. Quem trabalha há anos de costas para a passagem costuma descobrir isso no primeiro dia em que gira a mesa, e é uma daquelas descobertas que dispensam explicação teórica.
Você sabia?
A escrita chinesa mais antiga que sobreviveu até hoje foi gravada em casco de tartaruga. Na dinastia Shang, os adivinhos aqueciam o plastrão, que é a parte plana de baixo do casco, até ele rachar, e liam as rachaduras como resposta a perguntas feitas em voz alta sobre colheita, guerra, doença e caça. Depois anotavam ali mesmo, com um estilete, a pergunta e o que tinha sido lido. São os chamados ossos oraculares, e milhares deles foram encontrados em Anyang, no norte da China, guardando as formas mais antigas conhecidas dos caracteres que ainda se escrevem hoje. Existe também uma segunda história famosa em que um casco de tartaruga traz um desenho de números, mas essa fica para a página da área da Saúde deste portal, que já a conta inteira. O que importa aqui é a coincidência bonita: o animal que a tradição escolheu para representar o apoio é o mesmo em cujo dorso a China aprendeu a escrever.
As providências, na ordem de impacto
- 1Sente onde você trabalha e repare no que existe atrás das suas costas. Se for porta, corredor ou espaço aberto, gire a mesa hoje.
- 2Se girar a mesa for impossível, encoste uma estante baixa atrás da cadeira ou troque por uma cadeira de encosto alto.
- 3Confira a cabeceira da cama: parede inteira atrás da cabeça, sem janela e sem vão. É a mesma regra, aplicada às oito horas em que você não consegue conferir nada.
- 4Empurre o sofá contra a parede em vez de deixá-lo solto no meio da sala, e repare na diferença ao sentar.
- 5Se você tem uma peça de tartaruga, mude ela para trás de onde você senta, e não para a parede que você encara.
- 6Tire o que estiver pendurado ou empilhado acima da sua cabeça no lugar em que você passa mais tempo. Apoio é atrás, não em cima.
O elemento Água por trás disso
Elemento
水 Água
Cores
preto e azul-escuro
Materiais
espelho, vidro, fonte, aquário, tecido brilhante
Sinal de excesso
vira lugar de dispersão, a pessoa entra para fazer uma coisa e sai duas horas depois sem ter feito
As áreas do baguá que este assunto toca
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Preciso comprar uma tartaruga de enfeite?
Onde exatamente a peça deve ficar?
Posso ter uma tartaruga viva em vez da estatueta?
E se a minha mesa não tem parede atrás de jeito nenhum?
Continue explorando
Os outros objetos da tradição
- A moeda chinesa
- O sapo de três patas
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- O dragão
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Cada uma abre a leitura completa, do mesmo tamanho desta.