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O cuidado que a loja não explica

Cristais que não podem ir na água nem no sal

Existe uma lista curta de pedras que se estragam para sempre num banho de água ou numa noite dentro do sal grosso, e o motivo não é espiritual: é química de escola. Selenita dissolve porque é gesso. Pirita enferruja por dentro porque tem enxofre. Malaquita solta cobre. Turquesa é porosa e bebe tudo o que encosta nela. Esta página traz a tabela com o que acontece com cada uma, a regra que resolve quase todos os casos e a forma de limpar que não estraga nada.
Antes de perguntar se a pedra precisa de banho, vale perguntar do que ela é feita.

De onde vem o costume de lavar pedra

Vale começar dizendo de onde nasceu o costume, porque quase ninguém conta. Lavar pedra em água corrente, enterrar no sal grosso, deixar na lua cheia e pôr no sol da manhã são gestos da cristaloterapia contemporânea, uma prática ocidental que se organizou na segunda metade do século 20. Não vêm do feng shui, não aparecem nos manuais chineses clássicos e não fazem parte da escola do Chapéu Negro, que é a que este portal adota. Se o ritual faz sentido dentro da sua prática pessoal, ninguém aqui vai atrapalhar. Só é bom saber que ele é recente e que veio de outra tradição, porque misturar sistemas sem perceber é o caminho mais rápido para não conseguir avaliar nada depois.

O feng shui do baguá olha para a pedra de outro jeito. Ela é material: entra no cômodo como Terra pelo que é, e acrescenta um segundo elemento pela cor, exatamente como faz uma cerâmica, um tapete grosso ou uma parede pintada. Um objeto de material não precisa de descarrego nenhum. Precisa de poeira tirada, de lugar escolhido e de continuar inteiro, que é bem menos místico e bem mais útil. O que acontece é que a maioria das pessoas chega até aqui já com a pedra comprada e com a instrução de lavar vinda da loja, e é aí que o estrago começa.

Então a pergunta certa muda de lugar. Em vez de perguntar como purificar a pedra, pergunte do que ela é feita. Isso responde de uma vez o que pode molhar, o que desbota no sol, o que racha com choque de temperatura e o que vai manchar a sua estante em três meses. E é uma pergunta que tem resposta objetiva, conferível, igual para todo mundo.

A regra que resolve quase tudo

A régua que a maior parte do comércio usa é a escala Mohs, aquela de dureza que vai de 1, o talco, a 10, o diamante. A regra prática diz: abaixo de 5, não molha. Ela funciona porque as pedras moles costumam ser justamente as solúveis, as porosas e as que se desfazem em lasca. Selenita é 2, calcita é 3, malaquita é 3,5, fluorita é 4. Todas essas ficam fora da água, e o quartzo, que é 7, entra sem problema. Se você só quiser decorar uma frase desta página, decore essa.

Acontece que existem três exceções importantes, e são elas que pegam quem confia só na dureza. A primeira é o ferro: pirita e hematita são duras, 6 ou mais, e mesmo assim se estragam com umidade, porque o metal oxida. A segunda é a porosidade: turquesa passa de 5 na escala e mesmo assim bebe água, óleo e perfume por dentro, mudando de cor para sempre. A terceira é a cor que vem da luz: ametista, quartzo rosa, citrino e fluorita aguentam água numa boa e perdem a cor no sol, o que é um estrago tão definitivo quanto o outro e muito mais comum, porque quase todo mundo põe pedra colorida no parapeito da janela.

Existe ainda a pergunta que ninguém faz e que vale por todas: você sabe mesmo qual pedra é a sua? Boa parte do que se vende em feira e em loja de shopping é tingido, aquecido, resinado ou simplesmente vidro. Pedra tingida solta cor na água, e é assim que muita gente descobre que o lápis-lazúli barato era jaspe pintado. Se você não tem certeza do que comprou, o teste mais barato do mundo é não molhar.

O que o sal faz, e é diferente da água

O sal grosso merece parágrafo próprio, porque é mais agressivo que a água e quase todo texto trata os dois como se fossem a mesma coisa. Três coisas acontecem ali dentro do potinho. A primeira é óbvia: o sal puxa umidade do ar, é isso que faz o saleiro empedrar na cozinha, e uma pedra enterrada nele fica em contato com umidade por muito mais tempo do que ficaria numa lavada rápida debaixo da torneira. Para pirita e hematita, isso é o pior cenário possível.

A segunda é mecânica e tem nome de geologia: cristalização de sal dentro de fissura. A solução salgada entra nas microfissuras da pedra, a água evapora, o sal cristaliza e o cristal que se forma faz força de dentro para fora, alargando a fenda. É exatamente o processo que descasca a pedra do calçadão à beira-mar e que come a base dos prédios de orla. Numa peça bruta com trinca, o efeito é lento e é real.

A terceira é a que mais dói no bolso: se a pedra estiver montada em prata, em folheado ou colada com resina, o sal ataca o metal e a cola, e não a pedra. Pingente de prata vem preto do banho de sal e a solda enfraquece. Se ainda assim você quiser um gesto de recomeço, existem alternativas que não destroem nada: pano seco, um pincel macio, som, incenso, ou o mais coerente com esta escola, que é arrumar o lugar onde a peça está em vez de tratar a peça.

O sol, o inimigo esquecido

O sol é o inimigo esquecido, e é o que estraga mais pedra no Brasil, porque parapeito de janela é o lugar em que quase todo mundo expõe cristal colorido. A cor de muita pedra não vem de pigmento e sim do que a mineralogia chama de centro de cor, um pequeno defeito na estrutura que absorve certa faixa de luz. O ultravioleta desfaz esse defeito, e quando ele se desfaz a cor vai embora. Ametista roxa vira lavanda pálida e depois quase transparente. Quartzo rosa perde o rosa. Citrino perde o amarelo. Fluorita, celestita e ametista são as campeãs da lista, e o processo não tem volta em casa.

Tem um caso que vale saber antes de comprar: mais de oitenta por cento do citrino do mercado é ametista aquecida em forno, o que é um tratamento antigo, comum e nada escandaloso, e o roxo vira amarelo dourado no calor. Só que a cor obtida assim continua sensível à luz. Ou seja, a pedra que a loja vende como a pedra do sol é justamente uma das que não devem tomar sol.

A lista das que não se importam com luz é fácil: as pretas, as brancas e as opacas. Turmalina negra, obsidiana, quartzo branco, olho de tigre, hematita, pirita e jade podem ficar onde bater sol o dia inteiro sem perder nada. Se você tem uma peça colorida e quer manter a cor, o lugar dela é a estante do fundo da sala, a mesa longe da janela, a prateleira do corredor. Nenhum desses lugares tem uma gota de misticismo, e todos funcionam.

Como limpar sem estragar nada

A limpeza que serve para noventa por cento das peças cabe em duas linhas: pano seco de microfibra uma vez por mês, e pincel macio de maquiagem para tirar o pó de dentro dos cantos de peça bruta ou de drusa. Poeira é o que mais rouba brilho de cristal, e ninguém percebe porque acontece devagar. Se você fizer só isso, já está fazendo mais do que a média.

Quando a peça é dura e não tem ferro nem poro, ou seja, quartzo em qualquer cor, ágata, jaspe, turmalina, obsidiana, jade e olho de tigre, água morna corrente com pano macio resolve sujeira de gordura e de cozinha. Sem sabão em pó, sem detergente concentrado, sem escova de aço, sem água fervendo. Choque de temperatura racha pedra do mesmo jeito que racha copo, e drusa de ametista lascada nunca volta. Seque na hora e não guarde molhada.

Para as delicadas, a que dissolve e a que enferruja, o método é seco e ponto final. Pano, pincel, e no caso de peça guardada em cidade litorânea ou em apartamento úmido, uma caixa fechada com um saquinho de sílica daqueles de caixa de sapato, que é o mesmo recurso usado em vitrine de museu. E fica uma regra de segurança que não é conselho de saúde, é conselho de bom senso: não ponha pedra dentro de água que você vai beber. Malaquita e azurita têm cobre, muita peça vem com resina e com tinta, e nenhuma pedra do mundo precisa entrar num copo para cumprir o papel de estar bonita na sua estante.

Você sabia?

A selenita foi batizada em homenagem a Selene, a deusa grega da lua, por causa do brilho leitoso e perolado que a superfície tem quando a luz corre por cima das estrias. A ironia é que ela é o mineral mais banal do mundo da construção civil: gesso. A mesma coisa de que é feita a parede de drywall do seu escritório, o forro rebaixado da sala e o molde que o dentista usa para copiar os seus dentes. Existe um lugar no planeta onde esse material virou espetáculo: a Cueva de los Cristales, em Naica, no México, uma câmara a trezentos metros de profundidade com cristais de selenita de até doze metros de comprimento, formados durante centenas de milhares de anos dentro de água quente saturada. É o maior cristal já encontrado pela humanidade, e você pode dissolver um pedacinho dele numa pia de cozinha em algumas semanas de torneira aberta.

A tabela, pedra por pedra

PedraDo que é feitaDurezaÁguaSalSolPor quê
Selenitagesso, sulfato de cálcio com água na estrutura2NãoNãoPodeÉ solúvel em água, cerca de dois gramas por litro. Contato prolongado corrói a superfície, apaga as estrias e deixa a peça leitosa e sem brilho. Também amassa com a unha.
Halita, o sal-gemacloreto de sódio, sal de cozinha em cristal2 a 2,5NãoNãoPodeÉ sal. Dissolve na água e derrete até com a umidade do ar de um verão brasileiro. Guarde em pote fechado e longe do banheiro.
Calcitacarbonato de cálcio, a mesma matéria do mármore3NãoNãoCom ressalvaReage com qualquer coisa ácida, e vinagre, limão e produto de limpeza comum já bastam para corroer a superfície. As variedades coloridas ainda desbotam na luz forte.
Malaquitacarbonato de cobre, o verde é o próprio cobre3,5 a 4NãoNãoPodeÁgua solta íons de cobre e fosca o polimento para sempre. O pó da pedra não deve ser inalado, o que só importa a quem lixa ou corta peça, nunca a quem tem uma na estante.
Azuritacarbonato de cobre, a irmã azul da malaquita3,5 a 4NãoNãoNãoInstável até parada: com o tempo ela se transforma em malaquita e fica esverdeada nas bordas. Umidade e luz aceleram o processo, e a peça esfarela nas pontas.
Angelitaanidrita, sulfato de cálcio sem água3,5NãoNãoPodeÉ o gesso sem a água. Ao molhar, ela absorve e vira gesso de novo, aumentando de volume, o que estufa e racha a peça de dentro para fora.
Celestitasulfato de estrôncio3 a 3,5NãoNãoNãoFrágil e com clivagem fácil, lasca com pouco choque. O azul claro é dos que mais desbotam no sol, e uma drusa esquecida na janela sai branca do verão.
Fluoritafluoreto de cálcio4Com ressalvaNãoNãoTem clivagem perfeita em quatro direções, o que quer dizer que ela se parte em planos com pouca pancada e com mudança brusca de temperatura. A cor também desbota na luz forte.
Lepidolitamica de lítio, formada em folhas2,5 a 3NãoNãoPodeÉ feita de lâminas empilhadas que descolam com facilidade. Molhada, a peça esfarela nas bordas e solta escamas brilhantes que ficam na mão.
Piritadissulfeto de ferro, ferro com enxofre6 a 6,5NãoNãoPodeDura e mesmo assim proibida na água: o enxofre reage com umidade e oxigênio, vira sulfato de ferro mais ácido, e a peça esfarela por dentro e mancha o móvel.
Hematitaóxido de ferro5 a 6Com ressalvaNãoPodeÉ ferro, e ferro enferruja. Um banho rápido e seco na hora não mata ninguém, mas água parada, suor e sal deixam manchas alaranjadas e comem o espelho do polimento.
Turquesafosfato de alumínio e cobre, cheio de poros5 a 6NãoNãoCom ressalvaPassa de 5 na escala e mesmo assim bebe tudo: água, óleo da pele, creme e perfume entram nos poros e viram o azul em verde, de forma permanente. Quase toda peça do mercado tem resina que também se degrada.
Lápis-lazúlirocha, não mineral: lazurita com calcita e pontinhos de pirita5 a 5,5NãoNãoPodeReúne dois problemas numa peça só, a calcita que se corrói e a pirita que oxida. E boa parte do que se vende barato é pedra tingida, então a água leva a cor embora.
Opalasílica com água na própria estrutura5,5 a 6,5Com ressalvaNãoNãoTem entre três e vinte por cento de água dentro dela. Calor seco e sol direto fazem essa água sair, e a peça racha numa teia fina de fissuras que não tem conserto.
Âmbarresina de árvore fossilizada, nem é pedra2 a 2,5Com ressalvaNãoNãoÉ resina, então risca com quase tudo, amolece perto de fonte de calor e escurece com luz forte. Álcool, perfume e produto de limpeza deixam a superfície pegajosa.
Ametistaquartzo com traço de ferro7PodeCom ressalvaNãoAguenta água tranquilamente. O que ela não aguenta é o sol: o roxo vem de um centro de cor que o ultravioleta desfaz, e a peça vai clareando até virar quase incolor.
Quartzo rosaquartzo com traços de titânio, ferro ou manganês7PodeCom ressalvaNãoMesma história da ametista: água não faz mal, luz forte faz. É a pedra que mais some de cor em parapeito de janela brasileira.
Citrinoquartzo amarelo, e mais de oitenta por cento é ametista aquecida7PodeCom ressalvaNãoA cor obtida no forno continua sensível à luz. A pedra vendida como pedra do sol é, com folga, uma das que menos devem tomar sol.
Quartzo brancodióxido de silício puro7PodeCom ressalvaPodeNão tem cor para perder nem metal para oxidar. Água morna e pano dão conta. O único cuidado é o choque de temperatura, que lasca ponta fina.
Turmalina negrasilicato de boro com ferro7 a 7,5PodeCom ressalvaPodeDura e estável. As peças brutas costumam ter estrias e microfissuras, então evite o sal, que cristaliza dentro delas e abre a fenda com o tempo.
Obsidianavidro vulcânico, sem estrutura de cristal5 a 5,5PodeCom ressalvaPodeÉ vidro, então água não é problema. O cuidado é físico: ela quebra em lasca de gume vivo, e peça trincada corta a mão de quem for limpar.
Jadenefrita ou jadeíta, duas pedras diferentes com o mesmo nome6 a 7PodeCom ressalvaPodeÉ a mais resistente da lista pela estrutura de fibras entrelaçadas. Evite só produto químico e detergente forte, que atacam a cera usada no polimento.
Olho de tigrequartzo que substituiu fibras minerais, e daí vem o brilho de seda7PodeCom ressalvaPodeQuartzo por fora e por dentro, aguenta bem água morna e pano. A cor é estável e não desbota como as do quartzo colorido.

Dureza na escala Mohs, de 1 (talco) a 10 (diamante). A régua prática do comércio é que abaixo de 5 não molha, e as exceções que quebram a régua estão explicadas na coluna da direita.

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Perguntas frequentes

Preciso mesmo limpar os meus cristais?
Da poeira, sim, e é a única limpeza que este portal recomenda com convicção, porque pó opaco tira brilho de qualquer pedra. Do resto, a resposta honesta é que descarrego, banho de sal e banho de lua vêm da cristaloterapia contemporânea, não do feng shui. Na escola do baguá a pedra é material de ambiente, como cerâmica e tapete, e material não guarda nada. Se o ritual faz parte da sua prática, mantenha o que faz sentido para você, sabendo que ele veio de outro sistema e escolhendo um método que não destrua a peça.
Existe uma regra rápida para saber se pode molhar?
A régua do comércio é a dureza: abaixo de 5 na escala Mohs, não molha. Ela acerta quase sempre porque as pedras moles costumam ser as solúveis e as porosas. Guarde também as três exceções que quebram a regra: as que têm ferro, como pirita e hematita, que oxidam mesmo sendo duras; as porosas, como turquesa, que bebem líquido por dentro; e as coloridas de quartzo, que aguentam água e perdem a cor no sol. Na dúvida sobre o que você comprou, não molhe.
Molhei uma pedra que não podia. E agora?
Seque na hora, com pano macio, incluindo as frestas, e deixe a peça arejando fora do banheiro por um ou dois dias. Uma exposição rápida quase nunca destrói nada, porque o estrago é cumulativo. Selenita molhada fica opaca e não recupera o brilho original, turquesa que mudou de cor não volta, e pirita que começou a soltar pó amarelo continua o processo se ficar em lugar úmido. Nesse caso, guarde em caixa fechada com um saquinho de sílica e tire do banheiro de vez.
Posso pôr pedra na garrafa de água para beber?
Não faça isso, e o motivo não tem nada de espiritual. Muita pedra do mercado é tingida ou tratada com resina, e várias das mais vendidas contêm metais que não têm por que entrar num copo, caso da malaquita e da azurita, que são minerais de cobre. Some a isso o fato de que boa parte das pessoas não sabe com certeza qual pedra comprou. Na leitura do feng shui isso nem faz falta: a pedra trabalha estando no cômodo, escolhida de propósito e posta num lugar que você decidiu, e não dentro de uma bebida.
E o sol da manhã, que dizem ser mais fraco?
O ultravioleta que apaga a cor está lá de manhã também, e o que muda é a intensidade, não a natureza da coisa. Uma hora por semana não vai destruir nada; o parapeito da janela o ano inteiro, sim, e é isso que acontece na maioria das casas. Se a peça for preta, branca ou opaca, pode deixar onde quiser. Se for ametista, quartzo rosa, citrino, fluorita ou celestita, escolha uma prateleira longe da janela e a cor que você pagou continua ali daqui a dez anos.

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