O que fazer com o que já está na casa
Fios à mostra, extensão no chão e carregador na cabeceira
Ninguém decide onde os fios vão morar. Eles simplesmente ficam onde caíram no dia da mudança.
O princípio, antes da receita
Ande hoje pelo caminho que você mais faz em casa, da porta de entrada até a cozinha, e conte quantas vezes o pé desvia. Quase sempre existe pelo menos um cabo no meio, o do carregador que ficou na tomada da sala, o da extensão que alimenta o roteador, o do ventilador que passa por trás da poltrona. A escola do Chapéu Negro, que orienta o baguá pela porta de entrada e é a que este portal adota, chama esse caminho de circulação e trata obstrução nele como problema de primeira ordem, antes de qualquer objeto decorativo. O detalhe que torna isso interessante é que o corpo aprende o desvio em uma semana e para de reclamar, mas continua gastando um pedacinho de atenção em cada volta, todos os dias, sem avisar você.
Na tabela dos cinco elementos, os dois materiais dessa cena são fáceis de identificar. Aparelho ligado é Fogo, porque emite luz, calor e movimento, e é o elemento que a escola pede em dose baixa no quarto e em dose alta na sala de convívio. Fio é Metal, a família da linha reta, do contorno e do que corta, e Metal em excesso tem uma descrição clássica bem específica, a de ambiente que fica frio e cortante. Uma mesa de trabalho com seis cabos atravessando a superfície é literalmente isso: seis linhas retas cruzando o campo de visão de quem precisa se concentrar.
Existe ainda a leitura que vale por todas e não depende de tabela. O emaranhado é o registro visível de cada aparelho que entrou na casa sem ninguém decidir onde ele mora. Foi comprado, foi ligado na tomada mais perto, e ali ficou. É por isso que a arrumação de fios funciona tão bem: ela não é sobre esconder, é sobre atribuir endereço. E endereço decidido é o único tipo de organização que sobrevive a um mês corrido.
O que fazer hoje
A versão de custo zero vem primeiro, e ela já entrega a maior parte do resultado. Passe por cada aparelho e recolha a sobra de cabo, prendendo o rolinho com o próprio fecho de plástico do pão de forma, com um elástico ou com um pedaço de fita crepe dobrado. Metade do que parece emaranhado é apenas cabo comprido demais para a distância que ele precisa vencer. Depois, encoste na parede tudo o que estiver cruzando o meio do cômodo: cabo rente ao rodapé continua feio de perto e some do caminho, que é o que importa para a circulação.
Depois vem o endereço, que é a parte que faz a arrumação durar. Escolha um ponto único de carregar celular na casa e mantenha, de preferência fora do quarto, num aparador da sala ou na bancada da cozinha americana. Escolha um ponto para o notebook. Escolha um para o fone e para o relógio. A regra de ouro é curta: cada aparelho carrega sempre no mesmo lugar, e o carregador vive lá. Isso acaba com o hábito de arrancar o cabo da parede e levar de cômodo em cômodo, que é a origem de nove entre dez emaranhados.
Por último, dois truques baratos e um descarte. O filtro de linha para de ficar pendurado pelo peso quando você o coloca dentro de uma caixa de sapato com dois furos nas laterais, uma para o cabo de entrada e outra para os de saída, e a caixa ainda esconde os LEDs. Presilha adesiva de plástico, dessas de dez unidades por poucos reais, fixa o cabo por trás do móvel e resolve a parede da TV numa tarde. E abra a gaveta dos carregadores órfãos, aquela que toda casa tem: separe os que pertencem a aparelhos que ainda existem, e leve o resto para o descarte de eletrônico do supermercado ou do shopping mais perto.
O que não fazer
Não passe extensão por baixo de tapete, de carpete ou de porta. Este é o único item desta página que é de segurança e não de arrumação, então fica dito com sobriedade: cabo em uso esquenta um pouco por natureza, embaixo do tapete não existe como esse calor se dissipar, e o vaivém de pisar por cima vai gastando o isolamento no mesmo ponto. Manual de instalação elétrica desaconselha essa prática justamente por isso. Se o caminho é longo, a saída certa é uma extensão do comprimento adequado passada rente ao rodapé, ou um eletricista para instalar uma tomada onde ela faz falta.
Na mesma linha, evite o encadeamento de adaptadores, aquele T no benjamim que recebe outro T, e evite ligar aparelho de alta potência, como ferro de passar, aquecedor e air fryer, numa extensão fina ou num filtro de linha compartilhado. Também não deixe o cabo dobrado em ângulo fechado logo na saída do conector, que é onde ele sempre arrebenta, nem empurre o móvel contra a tomada até o plugue entortar. Nenhuma dessas coisas tem a ver com feng shui, e todas têm a ver com a casa funcionar.
Do lado da arrumação, o erro mais comum é comprar antes de recolher. Existe um mercado inteiro de canaleta, organizador e caixa de cabo, e quase sempre a pessoa gasta com isso antes de fazer as duas coisas de graça que resolvem a maior parte, que são enrolar a sobra e definir onde cada aparelho carrega. Compre depois de arrumar, se ainda fizer falta. E não tente esconder tudo de uma vez: comece pela parede da TV ou pela mesa de trabalho, que são as duas superfícies que você olha mais horas por dia.
O que ele faz e o que ele não faz
Convém ser direto sobre o que este portal não diz. Não existe, na escola do baguá, nenhuma leitura de que fio elétrico corta a energia da casa, de que o roteador perturba o sono ou de que campo eletromagnético de tomada residencial faz alguma coisa com quem mora ali. Isso não está em manual clássico, não é medido por ninguém aqui e não vai aparecer nestas páginas. Quando um texto de feng shui começa a falar em radiação de aparelho doméstico, ele saiu do assunto e entrou em outro, sem avisar o leitor.
O que é observável cabe em três frases. Um cabo atravessando o caminho faz o corpo desviar. Um ponto de luz piscando num cômodo escuro é um ponto de luz piscando num cômodo escuro. E uma superfície de trabalho com seis linhas metálicas cruzando por cima tem mais informação visual competindo com a tarefa do que uma superfície limpa. Nada disso precisa de fé, e é exatamente o tipo de coisa que a escola sempre tratou, porque ela nasceu como método de arrumar espaço e não como sistema de crenças.
O ganho honesto é proporcional ao esforço, que é pequeno. Você libera o caminho principal da casa, tira da altura da cabeceira o que pisca, devolve a mesa de trabalho para o trabalho e descobre no meio do processo dois ou três carregadores de aparelhos que você nem tem mais. Leva uma tarde, custa quase nada e é das poucas arrumações que não voltam ao estado anterior em duas semanas, desde que a regra do endereço fixo seja mantida.
Você sabia?
A tomada de três furos em linha curva que existe na sua parede é uma esquisitice brasileira, e a história dela é melhor do que parece. Antes da padronização, o país convivia com mais de doze tipos de plugue e oito tipos de tomada, o que explica a gaveta de adaptadores que toda casa tinha nos anos 1990. A norma ABNT NBR 14136 foi publicada em 1998, depois de anos de discussão entre fabricantes, laboratórios e representantes de consumidores, e o Inmetro tornou o padrão obrigatório por portaria no ano 2000, com prazos escalonados que terminaram em julho de 2011 para a venda de aparelhos com plugue fora do padrão. O desenho não foi inventado aqui: veio de uma norma internacional, a IEC 60906-1, que quase nenhum outro país levou adiante, e é por isso que o brasileiro viaja e não encontra a própria tomada em lugar nenhum. O terceiro pino, o do meio, é o fio terra, e foi ele o motivo principal de toda a mudança.
As providências, na ordem de impacto
- 1Ande do portão até a cozinha e conte quantas vezes o pé desvia de um cabo. Encoste esses cabos no rodapé agora, sem comprar nada.
- 2Recolha a sobra de cada fio com o fecho de plástico do pão de forma ou um elástico. Metade do emaranhado é só cabo comprido demais.
- 3Defina um ponto único de carregar celular na casa e deixe o carregador morando lá, de preferência fora do quarto.
- 4Tire da mesa de cabeceira tudo o que pisca, e tape com fita isolante preta o LED que não dá para desligar.
- 5Ponha o filtro de linha dentro de uma caixa de sapato com dois furos. Ele para de ficar pendurado e os LEDs somem.
- 6Abra a gaveta dos carregadores e separe os órfãos. O que não pertence a nenhum aparelho da casa vai para o descarte de eletrônico.
O elemento Fogo por trás disso
Elemento
火 Fogo
Cores
vermelho, laranja e magenta
Materiais
vela, lâmpada quente, couro, lã, imagem de bicho ou de gente
Sinal de excesso
o cômodo cansa em vinte minutos, discussão pega fogo rápido e ninguém dorme direito ali
As áreas do baguá que este assunto toca
Grátis, sem cadastro
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Quinze perguntas de sim ou não sobre a porta, a luz, o caminho e o que está quebrado. No fim vem a sua lista, em ordem de impacto, e quase tudo se resolve sem comprar nada.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Preciso esconder todos os fios da casa?
Carregador na mesa de cabeceira é problema?
Pode passar extensão por baixo do tapete para esconder?
Fio atrás do móvel importa se ninguém vê?
Continue explorando
O resto do que já está na casa
- A televisão no quarto
- O lixo na cozinha
- A bicicleta na sala
- A porta que range
- A lâmpada queimada
- O varal dentro de casa
- O espelho de frente para a cama
- A viga aparente sobre a cama
- O sofá de costas para a porta
- A cama embaixo da janela
- As coisas embaixo da cama
- O relógio parado
- As flores secas
- O cacto dentro de casa
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- A moeda chinesa
- O sapo de três patas
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- Feng shui, do começo
Cada uma abre a leitura completa, do mesmo tamanho desta.