As nove áreas do baguá, pela porta de entrada
Prosperidade e abundância no baguá da sua casa
Ninguém junta nada em cima de uma prateleira torta.
O que essa área rege de verdade
Tem um mês, quase todo ano, em que entrou o de sempre e mesmo assim não fechou, sem que nada de extraordinário tenha acontecido. É desse desconforto que essa casa do baguá trata, e não de enriquecer. O trigrama que rege aqui é Xun, e trigrama quer dizer apenas um desenho de três linhas, cheias ou partidas, que os chineses usam para nomear uma força da natureza. Xun é o vento: linha partida embaixo, duas cheias em cima, o que a tradição lê como uma força que entra por baixo, sem barulho, e sobe. Não é o golpe de sorte, é o que se infiltra e se acumula.
Repare no que o vento faz numa casa fechada em dia de temporal. Ele acha uma fresta de dois dedos na janela do banheiro e, dez minutos depois, a porta do quarto do outro lado bate sozinha. Xun é exatamente isso: a coisa pequena e contínua que atravessa a casa inteira e mexe no que é grande. A escola lê o dinheiro pelo mesmo desenho, e por isso essa casa do baguá fala pouco de prêmio e muito de repetição: o que entra todo mês, o que sai sem você perceber, o que sobra.
Vale dizer também o que ela não é. Não é a área da ambição nem do sucesso profissional, que moram em outros pontos do mapa: rumo de trabalho fica na faixa da própria porta, e reputação fica na parede do fundo. O assunto daqui é posse, folga e suficiência, que é coisa bem diferente de faturamento. Tem gente que ganha bem e vive apertada, e a tradição chinesa nunca teve dificuldade nenhuma em separar as duas.
Onde ela fica na sua casa
Pare na soleira da porta de entrada, de costas para a rua, e olhe para dentro. Divida mentalmente o que você vê em nove quadrados, como um jogo da velha desenhado por cima da planta: a fileira de baixo é a parede da porta, a de cima é o fundo. O quadrado do fundo à esquerda é Xun. Costuma ser o ponto da casa mais distante de você nesse instante, e é justamente por isso que ele acumula o que ninguém quer encarar.
As escolas divergem nesse ponto, e é honesto declarar qual foi adotada. Na escola tradicional, que orienta pela bússola, Xun é sempre o Sudeste, e a sua porta não altera nada: quem trabalha assim precisa medir graus com um aplicativo na mão. Na escola do Chapéu Negro, que foi a que se popularizou no Brasil e que este portal segue, o mapa gira conforme a entrada, porque o princípio é outro: o que organiza um espaço é o lugar por onde a vida entra nele. As duas são coerentes por dentro. Misturar as duas é que não funciona.
O mesmo desenho vale dentro de cada cômodo, e é isso que salva quem divide apartamento ou mora num quarto só. Pare na porta do seu quarto e repita a conta: o canto do fundo à esquerda é a Prosperidade daquele cômodo. Em muita sala brasileira, esse canto é literalmente o vão atrás do sofá, o que virou depósito da caixa de papelão do micro-ondas, do ventilador do verão passado e da bicicleta ergométrica com quatro camisas penduradas no guidão.
A cor e o elemento que sustentam
Planta viva, madeira crua, papel, linho e tudo que cresce para cima pertencem à Madeira, o material desta casa do baguá. A forma que acompanha é a vertical: estante em pé, vaso alto, listra que sobe, uma coluna de livros. A lógica chinesa é literal e por isso fácil de guardar: madeira é a única coisa entre os cinco elementos que cresce sozinha, e acúmulo, nessa leitura, é crescimento com tempo dentro.
Roxo e dourado são a parte curiosa da lista, porque nenhum dos dois sai da lógica dos elementos: os dois entraram por história, e a do roxo está lá embaixo. O dourado inclusive pede dose. Dourado é Metal, e no ciclo de controle chinês o Metal corta a Madeira, que é justamente o elemento que você quer reforçar aqui. Isso não proíbe nada: um detalhe dourado numa moldura ou na borda de um vaso funciona bem, enquanto um canto inteiro de metal brilhante trabalha contra a própria ideia.
O que alimenta a Madeira é a Água, então um azul-escuro, um vidro, uma jarra que você de fato usa sustentam o canto sem chamar atenção. E se fosse para escolher uma coisa só, a escola escolheria uma planta de verdade, viva, dessas que perdoam esquecimento. Planta de plástico não é pecado, mas ela não pede nada de você, e metade do efeito desse canto está em ter no fundo da sala alguma coisa que precisa da sua atenção uma vez por semana.
O que dá para fazer hoje, sem comprar nada
Comece pelo que está quebrado. Essa é a regra mais concreta desta casa do baguá, e as duas escolas concordam nela: nada rachado, emperrado ou pela metade fica no canto do fundo à esquerda. O relógio que parou, o abajur sem lâmpada, o carregador que só funciona se você torcer o fio, a cadeira com a perna bamba. O motivo não é místico: objeto quebrado é decisão adiada, e ela cobra um pedacinho da sua atenção toda vez que você passa por perto.
Depois libere o chão e a luz. Sacola encostada, caixa de papelão vazia e mala de viagem saem dali, mesmo que por enquanto vão parar em outro lugar da casa. Em seguida, ponha uma luz nesse canto, nem que seja uma luminária emprestada de outro cômodo por uma semana. Canto que ninguém ilumina é canto que ninguém confere, e o feng shui chama de chi parado o que você provavelmente chamaria de preguiça de olhar para lá.
Por último vem o gesto que a escola chama de intenção declarada, e que é mais simples do que parece: escolher uma coisa só para ficar ali e saber dizer por que ela está ali. Uma planta, uma peça de cerâmica que você gosta, uma foto de um lugar aonde você quer voltar. E junto vem a frase que nenhuma loja escreve na etiqueta: nenhuma cura de feng shui paga uma conta. O que muda no canto arrumado é o ambiente e a sua atenção, não o extrato do banco.
Por onde começar, e por que nesta ordem
Se der para fazer uma coisa só neste fim de semana, faça a retirada. Levar embora o que está quebrado e o que só está de passagem vem na frente de tudo porque é o único movimento que não depende de gosto, de orçamento nem de pesquisa: você não precisa escolher nada, só precisa carregar. E um canto limpo e vazio já sustenta melhor do que um canto cheio de objeto certo, o que quase ninguém acredita antes de testar em casa.
O segundo passo é a luz e o caminho até lá, e essa posição tem motivo prático: sem enxergar e sem alcançar, tudo o que você fez no primeiro passo se desfaz em duas semanas. Ponto escuro volta a virar depósito porque ninguém confere o que não vê. Trocar a lâmpada, trazer uma luminária que está sobrando em outro cômodo e afastar o móvel que fecha a passagem custa quase nada e é o que faz o trabalho durar até o mês que vem.
Só em terceiro entra o que você põe: a cor, a planta, a peça escolhida, a frase que você quer lembrar. Fica por último não por ser enfeite, e sim porque acrescentar coisa boa em cima de canto entulhado é o mesmo que pintar parede suja. O critério que ordenou esta lista é um só, e não é a facilidade: cada passo veio antes do outro pelo tanto que ele destrava do seguinte. Comprar não aparece em lugar nenhum dessa ordem, e é de propósito, porque o que se compra por impulso costuma ser exatamente o próximo objeto a ficar parado ali.
Os erros que quase todo mundo comete
O sapo de resina com a moeda na boca é campeão de vendas e não é tradição clássica de escola nenhuma. A figura do sapo existe no folclore chinês, isso é verdade, mas o pacote que a gente compra hoje (o berro do sapo, o dia certo de virar a estatueta, a regra de nunca deixar ele olhando para a porta) é lenda de loja montada nas últimas décadas. O mesmo vale para as três moedas amarradas com fita vermelha, que viraram souvenir de aeroporto. Nada disso é proibido nem faz mal a ninguém. Só não é o que a escola do baguá faz, e comprar o sapo não substitui tirar a caixa velha do canto.
O segundo tropeço é transformar esse canto no arquivo da dívida. Boleto, extrato, a pasta do imposto de renda e a caixa de notas fiscais acabam ali porque é o ponto mais escondido da sala, e aí você guarda no lugar do dinheiro justamente o papel que te aperta o peito. Leve para uma gaveta com tampa, de preferência em outro cômodo. Continua tudo por resolver, mas para de te olhar de volta.
O terceiro erro é o mais silencioso: arrumar esse canto e achar que a casa está feita. A escola nunca leu o baguá como nove caixinhas independentes, e sim como uma grade sobre uma casa só. De nada adianta a Prosperidade impecável se a porta de entrada não abre inteira e se tem torneira pingando desde março. Água escapando é metáfora e conta de água ao mesmo tempo.
Onde as escolas divergem, e qual a gente segue
O endereço muda conforme a linha que você resolver seguir, e isso precisa estar dito antes de qualquer instrução. Na tradicional, que trabalha com bússola, o assunto do dinheiro mora no Sudeste da planta, e a porta de entrada não entra na conta. Na do Chapéu Negro, seguida aqui, o canto é o do fundo à esquerda de quem entra, caia ele no ponto cardeal que cair.
Existe ainda um terceiro canto circulando por aí, e ele explica a confusão de metade dos vídeos curtos sobre dinheiro em casa. A prática de Hong Kong trabalha com uma posição do dinheiro que não é a do baguá: é o ponto diagonalmente oposto à porta de cada cômodo, o pedaço mais distante e mais protegido de quem entra naquela peça. Numa sala com porta encostada à direita, essa diagonal cai no fundo à esquerda e por acaso coincide com o canto do baguá; em outra planta, não coincide com nada. É dessa técnica que saem as recomendações de pôr o cofre, a carteira ou o pote de moedas na diagonal da porta, quase sempre sem que ninguém diga de onde a regra veio.
A regra da casa aqui está declarada: trabalhamos com o canto do baguá contado a partir da porta principal, do jeito da escola do Chapéu Negro, e a diagonal do cômodo fica registrada como o que ela é, uma técnica legítima de outra linha, útil dentro do sistema dela. Usar as duas ao mesmo tempo é medir a mesma parede com duas réguas de tamanhos diferentes: as duas medem certo e você fica sem saber onde furar. O erro nunca foi escolher a escola errada, porque não existe escola errada nessa história. O erro é misturar duas e terminar com três cantos do dinheiro numa sala de dezoito metros quadrados.
Você sabia?
O roxo entrou nessa casa do baguá por história, não por natureza. Conta o Han Feizi, texto chinês do século III antes de Cristo, que o duque Huan do estado de Qi gostava de se vestir de roxo e o país inteiro copiou a moda: o tingimento era tão difícil que cinco peças de pano comum não compravam uma peça roxa. Séculos depois, o palácio imperial de Pequim ganhou o nome de Zijincheng, que se traduz por Cidade Proibida Púrpura, em referência à região púrpura do céu em volta da estrela polar, onde a astronomia chinesa colocava a morada do imperador celeste. Ou seja: quando a escola pinta de roxo o canto da Prosperidade, ela não está usando uma cor da natureza, está usando a cor mais cara que já existiu na China. É uma piada bem melhor do que qualquer amuleto.
A área no mapa da casa
A ficha da área
Trigrama
☴ Xun
Elemento
Madeira
Cores
roxo, verde e dourado
Onde fica
o canto mais distante à sua esquerda
Os sinais de que esse canto está pedindo atenção
Nenhum item desta lista é sobre a sua vida, todos são sobre o espaço. Dá para conferir de pé, agora, olhando para o canto.
Tem alguma coisa nesse canto que você não tira do lugar desde o dia da mudança.
Passe a mão no chão em volta do objeto e veja se ficou aquela moldura de poeira, que é o teste mais barato desta lista. Coisa parada por anos vira parte da parede: você para de enxergar e, junto, para de decidir sobre ela. A escola lê esse canto como o lugar do que se junta de propósito, e o que está ali por inércia ocupa a vaga do que ficaria por escolha. Tire, limpe embaixo e devolva só o que você quiser de volta.
Você precisa entrar de lado, espremido entre dois móveis, para alcançar esse canto.
Acesso é o que decide se um pedaço da casa existe ou não no dia a dia. Lugar difícil de alcançar é lugar que ninguém limpa, ninguém confere e ninguém usa, e é esse abandono que a escola trata como problema real, muito antes de qualquer cor ou objeto. Puxe um dos móveis dez centímetros e teste se dá para chegar lá de frente. Em sala pequena, girar a poltrona alguns graus costuma abrir a passagem sem precisar tirar nada.
Tem caixa ou sacola fechada ali e você não sabe dizer o que tem dentro sem abrir.
O assunto desta casa do baguá é posse, e não saber o que se tem é o contrário de possuir. Enquanto a caixa está fechada e sem nome, aquilo não é patrimônio, é volume. Abra hoje, separe em três montes (fica, sai, conserta) e escreva com caneta na tampa o que sobrou. Não custa nada e muda o canto de depósito para armazenamento, que são coisas bem diferentes.
A planta que está ali tem mais folha seca do que folha verde.
Madeira é o material desta casa, e madeira em declínio conta uma história que ninguém quer contar naquele pedaço da sala. Nada de agouro: é sinal de que o canto saiu da sua rota de atenção, porque planta esquecida no escuro é problema de luz e de caminho, não de dedo verde. Recupere a planta em outro cômodo mais claro ou troque por uma espécie que aguente sombra. Canto vazio sustenta melhor do que planta morrendo.
A parede ou o rodapé desse canto tem mancha de umidade, bolha na tinta ou cheiro de mofo.
Nesse item a escola e o pedreiro dizem a mesma coisa. Água é a que alimenta a Madeira, e essa relação só funciona enquanto a água está contida: solta na parede, ela apodrece justamente o que deveria crescer. Afaste o móvel um dedo da parede para o ar passar, seque, e trate a origem, que costuma ser infiltração do vizinho, cano velho ou roupa secando dentro do cômodo de janela fechada. É o único sinal da lista que às vezes exige chamar alguém.
O checklist desta área
- 1Vá até o canto do fundo à esquerda e tire de lá tudo que estiver quebrado, emperrado ou pela metade.
- 2Acenda uma luz nesse canto hoje, mesmo que seja uma luminária trazida de outro cômodo.
- 3Libere o chão: sacola, caixa de papelão e mala saem do canto ainda esta semana.
- 4Ponha ali uma planta viva que você consiga manter e escolha um dia fixo da semana para regar.
- 5Tire dali a papelada de contas e boletos e leve para uma gaveta que feche, de preferência em outro cômodo.
- 6Procure na casa uma peça roxa, verde ou dourada que você já tem e leve para o canto, em vez de comprar outra.
- 7Escreva em uma linha o que você quer lembrar toda vez que olhar para esse canto e deixe o papel junto do objeto que ficou lá.
E quando essa área cai justamente no cômodo errado
A planta raramente colabora, e a pergunta que todo mundo faz é o que fazer quando a área cai em cima de um cômodo que trabalha no sentido contrário. Cada página abaixo trata de um desses encontros, com a leitura pelos cinco elementos e as providências de custo zero.
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Veja onde cai cada uma das nove áreas na planta da sua casa
A grade das nove áreas se encaixa na sua planta a partir da porta de entrada, e cada cruzamento vem com a leitura pelos cinco elementos e o que dá para fazer hoje.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
A área da Prosperidade é sempre o Sudeste da casa?
E se esse canto for justamente o banheiro ou a área de serviço?
Dá para trabalhar essa área morando de aluguel, sem furar parede?
Arrumar o canto da Prosperidade faz o dinheiro entrar?
Meu apartamento é em L e esse canto simplesmente não existe na planta. E agora?
Espelho nesse canto dobra o dinheiro, como dizem por aí?
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