Quando a área Amor cai no cômodo que trabalha ao contrário
Canto que falta na planta: a área ausente do baguá
O canto não sumiu da sua vida, sumiu do desenho. E desenho se completa com um vaso no lugar certo.
O que esse cruzamento significa de verdade
O baguá é um retângulo repartido em nove, e ele presume uma casa inteira. Só que casa inteira é coisa rara: o terreno era torto, o prédio precisou recuar na esquina por causa da calçada, a caixa da escada avançou sobre a planta do apartamento, o poço de ventilação comeu um pedaço da cozinha, a família fechou a garagem e ganhou um quarto que não alinha com nada. Quando o retângulo fica com um vão, uma das nove áreas cai dentro desse vão, ou seja, do lado de fora da casa. A escola chama isso de área ausente, e o Brasil chama de canto faltando.
Vale falar do susto antes de falar da cura, porque esse é o termo mais alarmista do feng shui brasileiro e rende muito vídeo curto. Se área ausente fosse sentença, metade do país estaria condenada por uma decisão de engenheiro que nunca conheceu ninguém que fosse morar ali. Não é sentença, e a leitura correta é bem mais modesta: aquela área não tem lugar físico dentro da casa para ser cuidada, então ela precisa ser marcada de propósito em outro ponto. É uma tarefa a mais, e não uma perda.
Repare também no que a palavra ausente descreve, porque é aí que a conversa costuma se perder. Ausência aqui é propriedade do desenho, não da sua vida. Nada saiu da casa e nada foi levado: o que existe é um mapa retangular sobreposto a uma planta que não é retangular, e a escola criou um procedimento para lidar com a sobra. Existe ainda uma saída que quase ninguém conta e que esta página trata como cura principal mais adiante: o baguá se repete dentro de cada cômodo, contado da porta dele, com exatamente o mesmo desenho. Uma área que falta na casa inteira continua existindo em cada quarto, em cada sala e até em cima de uma mesa.
Como confirmar que é mesmo o seu caso
Pegue um papel e desenhe a planta do jeito que der, sem escala e sem capricho. Depois trace por fora o menor retângulo que envolve a casa inteira. Onde a casa não preenche esse retângulo está o recorte, e é ele que vai ser medido. Se você não tem a planta do imóvel, dá para andar pela casa com o papel na mão e ir desenhando parede por parede, e para conferir o recuo do prédio basta olhar a fachada da calçada. Depois que o retângulo estiver definido, a ferramenta de mapa do baguá do portal faz a divisão em nove para você.
Agora a regra que decide tudo, e é ela que separa uma casa com pedaço a mais de uma casa com pedaço a menos. Meça o pedaço irregular, aquele que avança para fora do corpo retangular da casa, ao longo da parede de onde ele sai, e compare com o comprimento inteiro daquela parede. Se o pedaço que avança tem até um terço da parede, ele é lido como extensão: a casa tem um pedaço a mais, nenhuma área está faltando, e a área em que ele cai ganha reforço. Se ele passa de um terço, a leitura inverte, o retângulo de referência passa a ser o maior, aquele que envolve tudo, e o vão que sobra dentro dele é a área ausente. Dois exemplos para fixar. Apartamento de sete metros de frente com uma sacada de um metro e oitenta avançando num canto: um metro e oitenta é pouco mais de um quarto de sete metros, então é extensão, e aquele canto está reforçado. Apartamento da mesma largura com um metro e meio de canto comido pela caixa da escada: o corpo da casa avança cinco metros e meio dos sete, muito acima de um terço, então o retângulo de referência é o maior e aquele canto é ausente. Para medir sem trena, conte as peças do piso ao longo da parede, que costumam vir todas do mesmo tamanho, ou conte passos seus, sempre do mesmo jeito nas duas medidas.
E aqui vem a parte que nenhum site brasileiro escreve: esse número não é consenso. Uns autores usam metade da parede, outros usam um terço, e outros mandam olhar caso a caso e sentir o imóvel. Este portal adotou o terço e segue o terço até o fim, inclusive nos empates, porque recorte de exatamente um terço a gente lê como extensão, que é a leitura mais generosa e a que cobra menos de você. Declarar o critério importa mais do que escolher qual, e o motivo é prático: o problema nunca foi ter escolhido um número, foi misturar dois e ficar sem decisão nenhuma. Quem mede com metade e depois lê uma página escrita com um terço termina com duas casas diferentes na cabeça, e nenhuma delas dá instrução.
A leitura pelos cinco elementos
Este é o único cruzamento do portal em que não existe cômodo para ler, e isso muda a seção inteira. Não há Água de banheiro nem Fogo de cozinha para combinar ou para brigar com o elemento da área, porque não há cômodo nenhum: no ponto que falta está o apartamento do vizinho, o poço de ventilação, o vão da escada ou o ar livre da rua. Não tem ciclo para ler aqui, e dizer isso é mais honesto do que fabricar uma leitura. O que sobra, e é bastante, é o elemento da própria área, que passa a ser a matéria-prima da cura.
No canto do Amor, o elemento é a Terra, e é por isso que os objetos indicados para marcar o ponto que faltou não são escolhidos por serem bonitos: pedra, vaso de barro, cerâmica, tijolo aparente, um cachepô pesado, um banco de concreto, tudo de forma baixa e larga, em bege, ocre, terracota ou rosa. Você não está enfeitando um canto, está pondo o elemento da área no lugar em que ela deveria estar. É a mesma lógica de quem marca uma divisa com um marco de pedra em vez de com uma fita.
Como a página vale para as nove áreas, guarde a lista inteira, que resolve qualquer caso. Carreira é Água, e se marca com preto, azul-escuro, formas onduladas ou uma superfície que reflita. Conhecimento é Terra, com pedra, cerâmica e bege. Amigos protetores é Metal, com cinza, branco, prateado e objeto redondo de metal. Família é Madeira, com planta viva e verde. Saúde é Terra, com amarelo terroso e ocre, e como ela é o miolo do desenho, raramente cai fora. Criatividade é Metal, com branco e tons pastel. Prosperidade é Madeira, com verde, roxo e planta. Reconhecimento é Fogo, e se marca com luz acesa, vermelho ou laranja. E o Amor é Terra, como você acabou de ler. Marcar o canto ausente do Reconhecimento com uma luz e o da Prosperidade com uma muda plantada é a mesma operação, com a matéria certa em cada caso.
O que fazer, na ordem de impacto
A primeira providência é marcar o canto por fora, no ponto mais próximo daquele que ficou de fora do retângulo. Ache onde a parede da casa vira, vá para o lado de lá e veja o que é seu: a varanda, o corredor, o quintal, o muro, o chão do recuo, o pedaço de calçada que fica dentro do portão. Ponha ali uma coisa que você já tem e que pertença ao elemento da área: um vaso de barro, uma pedra grande, uma luminária externa, um banco baixo. O princípio importa mais do que o objeto, e ele é o seguinte: a escola trabalha com perímetro declarado, ou seja, o desenho da casa é aquilo que você marca como sendo a casa, e um objeto no ponto certo fecha o retângulo pela intenção. Em casa com quintal dá para ir além e plantar uma muda naquele ponto, que é a versão mais barata e mais duradoura da cura, porque ela cresce sozinha.
Em segundo lugar vem a parede interna do recorte, aquela que você olha de dentro e que corresponde ao vão. O objetivo é dar profundidade a ela, fazer o olho seguir para além do ponto em que a casa parou. Espelho é a solução mais citada e merece uma condição que quase nunca é dita, porque espelho não estende parede, ele amplia o que está na frente dele. Se o que vai ser refletido é a sala aberta, uma janela ou uma planta, funciona bem. Se o que vai ser refletido é a porta do banheiro, a pia com louça suja, a porta de entrada ou um corredor de passagem, deixe para lá, porque você vai dobrar exatamente aquilo que não queria dobrar. Existe a versão sem efeito colateral e sem custo nenhum: uma luz apontada para essa parede e uma linha vertical junto dela, uma planta alta, uma luminária de chão ou uma prateleira estreita, que puxam o olho para cima e para fora do canto do mesmo jeito.
Em terceiro vem a cura que funciona sempre e que quase ninguém conta, e é ela que garante que ninguém precisa mudar de casa por causa disso. O baguá de um cômodo tem exatamente o mesmo desenho do baguá da casa: você para na porta do cômodo, olha para dentro, divide em nove com a fileira de baixo na parede da porta, e as nove áreas estão todas lá, inclusive a que faltava no mapa grande. Escolha um ambiente que tenha a ver com o assunto, o quarto para o Amor, a sala ou a cozinha para a Prosperidade, o canto de estudo para o Conhecimento, e trabalhe a área ali dentro com as mesmas instruções da página daquela área. Quem mora em quarto alugado usa essa desde o primeiro dia, e não é prêmio de consolação: é o mesmo mapa em outra escala, e a escola sempre trabalhou assim, da casa para o cômodo e do cômodo para a mesa.
O que a internet manda fazer e não se sustenta
Mudar de casa por causa de um canto que falta é a decisão mais cara que essa leitura já provocou, e ela não se sustenta. Basta olhar a rua: prédio recuado na esquina, apartamento com o canto comido pelo poço de ventilação, casa com puxadinho, conjunto habitacional inteiro em planta de L. Se planta torta condenasse alguém, o efeito apareceria em bairros inteiros e ninguém teria conseguido esconder isso por tanto tempo. Recorte é a regra e não a exceção, e é justamente por isso que a escola tem procedimento pronto em vez de mandar todo mundo se mudar. Vale o mesmo para quem está procurando imóvel: use isso como um item entre muitos, e nunca acima de sol, ventilação, silêncio e aluguel que cabe no bolso.
Obra para fechar o retângulo é a segunda tentação, e ela custa caro para resolver um símbolo. Fechar a sacada com vidro, levantar parede, construir um puxadinho só para completar o canto: nenhum manual pediu isso, nem na linha da porta nem na linha da bússola. Um detalhe honesto sobre esse ponto, aliás: se você fechar a sacada por outro motivo qualquer, o retângulo da casa muda de verdade, e o mapa inteiro precisa ser refeito depois da obra. A planta é viva e a leitura acompanha, o que é mais um motivo para não tratar o desenho de hoje como destino. E não forre a parede do recorte inteira de espelho, muito menos o teto, porque espelho amplia o que reflete e uma parede espelhada devolve o cômodo em dobro, com pilha de caixa e tudo.
A terceira é invadir o que não é seu para cumprir a cura, e acontece mais do que parece. Vaso no hall do prédio, planta na área comum, objeto pendurado na parede que dá para o corredor do condomínio: o síndico tira, o vizinho reclama, e escola nenhuma pediu que você ocupasse metro quadrado alheio. Se o ponto que falta cai fora do que é seu, marque pelo lado de dentro, no canto em que a parede vira, e faça a cura do cômodo. E a última, que é a mais importante de todas: não use o canto ausente como explicação para o que está difícil na sua vida. Casa em L não separa casal, não segura emprego e não adoece ninguém, e qualquer texto que ligue uma coisa à outra está trocando cuidado por medo.
Você sabia?
O jogo da velha que você desenha por cima da planta tem um parente inesperado na história chinesa. O caractere 井, jǐng, que quer dizer poço, é literalmente esse desenho, duas linhas cruzando outras duas, e ele deu nome a um sistema de repartição de terra descrito por Mêncio no século 4 antes de Cristo, o jǐngtián, o campo em poço. Um quadrado de terra era dividido em nove quadrados iguais: oito famílias cultivavam os oito de fora, cada uma o seu, e todas juntas cultivavam o do meio, que era do senhor. Historiadores discutem até hoje se aquilo funcionou mesmo assim na prática ou se Mêncio descreveu um ideal antigo para criticar o presente dele. O que interessa aqui é a forma: muito antes de existir baguá sobre planta de apartamento, aquela cultura já pensava um pedaço de chão como um quadrado repartido em nove, com oito partes de fora e uma no meio que pertencia a todos, exatamente como a Saúde no centro do nosso mapa. Quando falta um canto na sua planta, o que está faltando é um dos nove quadrados de um desenho com mais de dois mil anos, e a instrução da escola é simplesmente marcar de novo onde ele estaria.
Onde Amor fica na planta
A ficha da área envolvida
Área
Amor e parcerias
Trigrama
☷ Kun
Elemento
Terra
Onde fica
o canto mais distante à sua direita
O checklist deste caso
- 1Desenhe a planta num papel e trace por fora o menor retângulo que envolve a casa inteira.
- 2Meça o pedaço irregular contando as peças do piso ao longo da parede: até um terço é extensão, mais que isso é canto ausente.
- 3Divida o retângulo em nove, com a fileira de baixo na parede da porta de entrada, e descubra qual das nove áreas ficou de fora.
- 4Vá até o ponto mais próximo do canto que falta, do lado de fora da parede, e marque com algo que você já tem: um vaso, uma pedra, uma luminária, um banco.
- 5Confira se esse objeto pertence ao elemento da área: barro e pedra para Terra, planta para Madeira, luz e vermelho para Fogo, metal e branco para Metal, preto e azul-escuro para Água.
- 6Se o ponto cair em área comum do prédio ou no imóvel do vizinho, marque pelo lado de dentro, no canto em que a parede vira.
- 7Escolha um cômodo que tenha a ver com a área que faltou, pare na porta dele e reforce ali o mesmo canto, usando o baguá do cômodo.
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Veja onde cai cada uma das nove áreas na planta da sua casa
A grade das nove áreas se encaixa na sua planta a partir da porta de entrada, e cada cruzamento vem com a leitura pelos cinco elementos e o que dá para fazer hoje.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Canto ausente no baguá é coisa grave?
Falta justamente o canto do Amor. Isso atrapalha o meu relacionamento?
Como fica isso na escola tradicional, da bússola?
Espelho resolve canto ausente?
Não tenho lado de fora nenhum e não posso furar parede. O que dá para fazer?
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