As cores no feng shui, uma a uma
A cor marrom no feng shui
Ninguém decora com marrom. Ele já estava aqui quando você chegou, e continua depois que você sai.
O princípio, antes da receita
Pense em terra de vaso, em barro cru, em tijolo antes de qualquer pintura. Todos são marrons, e é dessa observação bem simples que sai a classificação: nos cinco elementos chineses, marrom pertence à Terra, ao lado do bege, do ocre e do amarelo queimado. Terra é a fase do que já parou de crescer e passou a se sustentar, e por isso ela ficou com o miolo do mapa, a área da Saúde, o ponto do cômodo para onde tudo converge. Num sistema pensado por gente que vivia de plantar, faz todo sentido que a cor do solo tenha ganhado o centro em vez de um canto qualquer.
Agora a parte em que muita gente se perde, e ela merece leitura devagar. A tabela lê um objeto em mais de uma camada ao mesmo tempo: o material, a forma e a cor. Uma mesa de madeira maciça é Madeira pelo material, porque veio de árvore e representa o que cresce, e é Terra pela cor, porque é marrom. As duas leituras convivem sem briga nenhuma, do mesmo jeito que uma pedra é sempre Terra pelo material e ganha um segundo elemento pela cor que tem. A consequência prática é grande e quase nunca é dita: uma sala cheia de móvel de madeira crua não é a mesma coisa que uma sala com parede pintada de marrom. A primeira tem Madeira e Terra dividindo o cômodo; a segunda tem só Terra, e numa área muito maior. Se a sua casa anda parecendo pesada e você não sabe explicar por quê, comece por essa pergunta: o marrom daqui veio de madeira ou veio de tinta?
E existe uma família inteira de marrons, com comportamentos bem diferentes entre si. O castanho médio, cor de móvel envelhecido, é o mais discreto de todos e simplesmente desaparece no fundo do cômodo, o que é qualidade e não defeito. A madeira clara, cor de pinus novo e de compensado, fica a meio caminho do bege, devolve bastante luz e é a que salva apartamento de fundos. O tabaco escuro, aquele quase preto, absorve claridade como cortina pesada, e é o tom capaz de transformar um quarto de nove metros quadrados numa caverna em uma tarde de pintura. Quem diz que marrom é sem graça costuma estar falando de um tom só, quase sempre o mogno escuro dos armários dos anos 1990, e julgando a família inteira pelo parente mais antipático.
O marrom em cada cômodo
Comece pela sala e faça a conta que quase ninguém faz antes de escolher tinta: olhe em volta e some o piso, a porta, o rodapé, a estante, a mesa de centro, o painel da televisão e os pés do sofá. Em muita casa brasileira o resultado passa da metade do campo de visão, e aí o que estava faltando nunca foi mais marrom, era contraste. Nesse caso a decisão certa é manter a parede clara e deixar que os móveis façam o trabalho da cor. Quando a conta dá o contrário, uma sala branca com móvel branco e piso claro, aí sim uma parede castanha ou um tapete grande mudam o cômodo inteiro.
No quarto essa cor faz o melhor trabalho que ela sabe fazer, porque a escola pede lentidão ali e a Terra é justamente o elemento que segura. Cabeceira de madeira, colcha em tom areia, cômoda castanha e um tapete que receba o pé de quem levanta valem mais que qualquer objeto pendurado. O cuidado é de dose e de tamanho: quarto de nove metros com parede tabaco, cortina marrom e piso escuro vira um cômodo em que ninguém sabe que horas são. Já no banheiro, principalmente na suíte sem janela, o marrom é uma resposta bem melhor do que a fama dele sugere, porque aquele é o cômodo por onde a água vai embora e, pela tabela, é a Terra que represa a Água. Cesto de palha, tapete grosso, madeira tratada e cerâmica fosca fazem esse serviço sem obra nenhuma.
Na cozinha americana, que emenda fogão e sofá no mesmo ambiente, ele entra como o material que não briga com nada: tábua de corte apoiada em pé, cesto de pão, prateleira e banqueta de madeira. É o contraponto exato do inox, que domina esse cômodo por padrão de construtora. No corredor de um metro e vinte, o conselho é o inverso do que a intuição pede, porque o vão já é estreito e tom escuro nas duas paredes fecha ainda mais; se quiser a cor ali, ela cabe no piso, no batente ou numa moldura. E na mesa de trabalho existe uma vantagem discreta: marrom é o único tom quente que não disputa atenção com a tela, o que faz dele um bom fundo para quem passa oito horas olhando para um monitor.
O marrom em cada área do baguá
A instrução para achar as nove casas leva dez segundos e é sempre a mesma: entre pela porta principal, pare logo depois dela e divida mentalmente o que você vê em três por três. O centro dessa grade é a Saúde, e é a casa desta cor. Repare no detalhe que muda tudo na prática: o miolo de um cômodo quase nunca é uma parede, é chão. Ou seja, a área que a tradição entregou ao marrom é justamente aquela em que o material disponível é o tapete, a mesa de centro e o piso. Se você quer trabalhar essa casa do baguá, o objeto certo está debaixo dos seus pés, e não pendurado.
Duas outras casas também são de Terra, o que dá a esta cor a maior fatia do mapa. O canto da esquerda na mesma parede da porta é o Conhecimento, a casa do estudo e da decisão que se toma sozinho, e a paleta dela junta bege, verde escuro e azul-marinho. É o lugar mais coerente do apartamento para a poltrona de leitura com uma mesinha de madeira do lado. O canto mais distante à sua direita é o Amor, que também é Terra, embora a paleta declarada dela seja rosa, vermelho e branco. Marrom ali não é a cor da casa: é a base sobre a qual essas três se apoiam, o que na prática quer dizer madeira e palha sustentando um par de objetos coloridos.
E existe a tensão que quase nenhum site menciona. O meio da parede da esquerda é a Família e o canto mais distante à esquerda é a Prosperidade, e as duas são casas de Madeira. No ciclo de controle, a Madeira fura a Terra, que é a raiz rachando a calçada, então uma parede grande de marrom naqueles dois cantos instala justamente o elemento que a Madeira da casa passa a furar. A saída é elegante e resume a página inteira: ali, prefira o marrom que vem de madeira, porque ele entra como Madeira pelo material, ao marrom que vem de tinta, que entra só como Terra. Uma estante de madeira crua na parede da esquerda é coerente; a mesma parede pintada de castanho é uma escolha em que os dois elementos se empurram. Este portal segue a escola do Chapéu Negro, que orienta o baguá pela porta de entrada; a tradicional, que usa bússola, mudaria o canto da planta e não mudaria uma linha dos ciclos.
O que ela ativa e o que ela satura
O sinal de Terra demais aparece antes na sensação do que no olho. É o cômodo em que todo mundo senta sempre no mesmo lugar e nada muda de posição há dois anos; é a sala que parece precisar de ar mesmo quando está limpa; é o ambiente em que qualquer plano combinado ali termina adiado para o próximo fim de semana. Some a isso o retrato físico, que é fácil de conferir: piso escuro, móvel baixo e maciço, cortina densa, nenhuma linha vertical em lugar nenhum e nada de verde. Uma casa assim não precisa de mais nada bege, precisa exatamente do contrário.
A falta é mais difícil de diagnosticar porque não incomoda ninguém, apenas deixa o lugar meio anônimo. É o apartamento que você esvaziaria num sábado sem deixar marca nenhuma: parede branca, móvel claro e leve, cadeira de plástico, nada com peso e nada com idade. Ali qualquer peça pesada muda a leitura do cômodo em uma tarde, e ela não precisa ser cara: um vaso de barro grosso, um tapete de sisal, uma tábua antiga apoiada na bancada, uma pilha de livros de capa dura. O critério não é bonito ou feio, é se o objeto pareceria continuar no lugar mesmo se a casa fosse sacudida.
E existe o excesso que ninguém contabiliza porque ele já veio com o apartamento, que é o piso. Porcelanato amadeirado, laminado, tábua corrida e cerâmica em tom terroso cobrem o cômodo de parede a parede e formam a maior superfície contínua da casa inteira. Antes de decidir acrescentar marrom, olhe para baixo e ponha isso na soma. Em apartamento novo com piso amadeirado, porta de madeira, rodapé, armário planejado em tom nogueira e bancada bege, a Terra já veio instalada para três cômodos, e o que costuma faltar ali é verde vivo e alguma coisa que suba.
Como usar sem pintar nada
Esta é a cor em que a versão de graça ganha da versão pintada quase sempre, e o motivo é que ela entra pelo material antes de entrar pelo pigmento. A ordem de impacto, do mais forte para o mais fraco: tapete, cortina de linho ou de algodão cru, cesto de palha grande, mesa ou banco de madeira, cerâmica fosca, tábua e moldura de madeira. O tapete grande é a intervenção mais forte de todas porque ele ocupa chão, e chão é literalmente a matéria deste elemento.
A versão de custo zero começa dentro dos armários e costuma render mais do que a pessoa espera. Quase toda casa brasileira tem Terra guardada: a tábua de corte no fundo da despensa, a travessa de cerâmica que só sai no Natal, o cesto de vime que virou depósito de sacola, a caixa de madeira de uma garrafa que alguém deu de presente, a moldura sem foto. Junte três dessas peças em cima da mesa e escolha duas para deixar à vista no cômodo em que você mais fica. Em uma tarde você descobre se era disso que a casa precisava, e não gastou nada para descobrir.
Duas regras fecham o assunto. A de dose é a mesma de qualquer cor forte, no máximo um terço do campo de visão, só que no marrom ela precisa incluir o piso na conta, o que muda o resultado em quase toda casa brasileira. A de combinação sai direto dos ciclos: o Fogo alimenta a Terra, então tom terroso convive muito bem com laranja queimado e vermelho tijolo, que é a paleta de qualquer feira de artesanato do país. A Terra alimenta o Metal, então marrom com branco, cinza claro e dourado envelhecido é um par que a tabela sustenta sem esforço. E a tensão é com verde forte em área grande, porque a Madeira fura a Terra: em dose pequena isso é ótimo e é justamente o que desfaz o peso, em dose grande os dois se empurram.
Você sabia?
A tabela chinesa clássica tem cinco cores corretas, as wu zhengse, e marrom não é uma delas. As cinco são qing, o azul esverdeado do leste, chi, o vermelho do sul, huang, o amarelo do centro, bai, o branco do oeste, e hei, o preto do norte. Cada uma tinha um ponto cardeal, uma estação e uma posição na hierarquia, e tudo o que ficava de fora entrava na categoria das cores intermediárias, as jianse, misturas consideradas de status menor. Marrom cai justamente aí: ele nunca foi cor oficial do sistema, foi absorvido depois pela família do amarelo, que é a Terra. A ironia é boa de contar numa conversa: a cor mais presente na casa brasileira média, aquela que cobre o piso, a porta e metade dos móveis, é uma cor que a tabela original nem listava. Serve de lembrete de que o feng shui que chegou até aqui passou por muita gente antes de virar dica de decoração, e de que vale sempre perguntar de onde veio cada linha da tabela.
Os três tons que costumam funcionar
castanho
#6B4A32
madeira clara
#8C6A4A
tabaco escuro
#3E2A1C
Toda cor muda de personalidade conforme a lâmpada do cômodo. Antes de comprar o galão, pinte um retângulo de cinquenta por cinquenta na parede de destino e olhe de manhã, à tarde e com a luz acesa.
O elemento Terra por trás desta cor
Elemento
土 Terra
Cores da família
amarelo-terroso, marrom, bege e ocre
Formas
quadrado, retângulo baixo, tudo que é largo e firme
Materiais
cerâmica, argila, pedra, tijolo, tapete grosso
Sinal de excesso
tudo fica pesado e lento, dá preguiça de sair e as decisões arrastam
Sinal de falta
falta chão: a casa parece de passagem, ninguém se sente ancorado ali
As áreas do baguá que têm esta cor na paleta
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Marrom deixa a casa pesada?
Móvel de madeira conta como marrom ou como madeira?
Bege e marrom são a mesma coisa no feng shui?
O meu piso já é amadeirado. Ainda posso usar marrom nos móveis?
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