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As cores no feng shui, uma a uma

A cor preta no feng shui

Preto no feng shui é Água, na mesma família do azul-escuro, e é a cor da casa da Carreira, aquela faixa central da parede onde a sua porta de entrada normalmente está. Ele não é cor de azar nem de luto na tradição chinesa: pertence ao norte, ao inverno e ao que fica guardado. Na casa brasileira ele é a cor mais mal calculada de todas, porque em área grande engole a luz de um apartamento que já tem pouca, e em dose pequena faz todo o resto do cômodo parecer mais nítido.
Ele não preenche o ambiente. Ele recorta o que está ao lado e some.

O princípio, antes da receita

Água, na tabela dos cinco elementos, é o que corre e contorna. É o único elemento sem canto, sem aresta e sem forma fixa, e por isso a tradição associa a ele o que circula: conversa, ideia, informação, dinheiro em movimento, caminho. Preto e azul-escuro são as cores dessa família, e é essa a razão de a casa da Carreira, no baguá contado pela porta, ser justamente a faixa em que se entra e se sai. A área que fala do rumo profissional é a mesma por onde a casa se conecta com a rua, e a coincidência não é coincidência.

O comportamento óptico é o oposto exato do vermelho, e vale conhecer antes de decidir qualquer parede. Superfície escura absorve quase toda a luz que recebe, devolvendo menos de dez por cento dela ao cômodo, então cada metro quadrado pintado assim é um metro quadrado que para de ajudar a iluminar o lugar. Em compensação, ela recua visualmente: a parede parece mais longe, o canto se dissolve e o olho perde a referência de onde o cômodo termina. Isso pode ser péssimo num quarto de fundos e ótimo numa sala com janela boa.

Existe ainda a família interna, que quase ninguém separa na loja. Preto puro é seco e mostra tudo: poeira, risco, marca de dedo, imperfeição de reboco. Grafite é preto com cinza, mais fácil de conviver e mais indulgente com a parede torta. Azul quase preto, aquele que só se revela quando o sol bate, dá profundidade sem o peso do preto absoluto e continua sendo Água pela tabela. Para parede, os dois últimos costumam ser a escolha certa; para objeto e ferragem, o preto puro é imbatível.

O preto em cada cômodo

A parede escura atrás da televisão virou a moda da última década e merece uma resposta honesta: ela funciona, com duas condições. A primeira é que aquela seja a parede que você olha, e não a que ilumina o cômodo, ou seja, precisa haver janela em outro lugar. A segunda é entender o que ela faz de verdade, que é apagar a moldura da TV, porque um retângulo preto desligado sobre um fundo preto simplesmente desaparece. Esse é o motivo real pelo qual arquiteto usa o recurso, e é um motivo excelente.

No quarto o cálculo muda. Cômodo pequeno, sem janela boa, com parede escura e cortina blackout soma escuridão sobre escuridão, e a leitura da escola é direta: Água demais num lugar que já é caverna. Se você gosta da cor, ela cabe inteira nos detalhes, e o efeito é grande: ferragem preta nas portas, luminária de cúpula preta, moldura escura no quadro, uma manta. O contorno aparece, o cômodo continua claro e nada disso precisa de tinta.

Banheiro e cozinha pedem atenção diferente. O banheiro é o cômodo desenhado para levar água embora, então acrescentar mais Água ali é insistir no que já sobra: a escola pede o contrário, Terra, com cerâmica, bege, pedra e tapete encorpado. Na cozinha, preto em bancada e em marcenaria é prático e bonito, com a ressalva de que a superfície escura mostra migalha e respingo de gordura mais do que qualquer outra. E vale afastar a pia escura do fogão quando a planta permitir, porque Água e Fogo colados são o conflito clássico do cômodo. No corredor de um metro e vinte, por fim, a resposta é simples: não. Ali a cor escura fecha o vão que já era estreito.

O preto em cada área do baguá

Fique de pé do lado de fora da porta principal, entre e divida o que vê em nove partes. A faixa central da parede da porta é a casa da Carreira, elemento Água, e é o endereço natural desta cor. Como a porta costuma ocupar o meio dessa faixa, o preto entra na lateral: um aparador escuro, um espelho de moldura preta, um quadro emoldurado em preto, o cabideiro. É a área que a escola liga a trabalho e a rumo, e é também o metro quadrado que você atravessa todo santo dia.

O canto da esquerda na mesma parede da porta é o Conhecimento, e aqui aparece uma peculiaridade da tabela que merece ser dita em voz alta: a paleta daquela casa inclui azul-marinho e verde-escuro, embora o elemento dela seja Terra. Não é erro de digitação nem descuido da escola, é como a tradição do Chapéu Negro montou as correspondências, e quando duas fontes divergirem sobre isso, a regra deste portal é seguir a paleta declarada e avisar que ela mistura. Na prática significa que um canto de leitura em azul muito escuro é coerente por ali.

Duas relações fecham o raciocínio, e as duas saem dos ciclos. O meio da parede do fundo, de frente para a porta, é o Reconhecimento, casa de Fogo, e a Água apaga o Fogo: pintar de preto justamente a parede que todo mundo vê ao entrar é, pela lógica do sistema, abafar a casa que fala de como o mundo enxerga você. Já o miolo do cômodo é a Saúde, casa de Terra, e a Terra represa a Água, o que faz cerâmica e tom terroso serem o contrapeso certo para quem exagerou no escuro. A escola tradicional, que orienta pela bússola, poria a Água ao Norte da planta e chegaria às mesmas relações.

O que ela ativa e o que ela satura

O sinal de Água em excesso é descrito pela tradição como perda de foco no ambiente, e a versão doméstica disso é bem reconhecível: a sala em que a pessoa senta para resolver uma coisa e levanta duas horas depois com a coisa por resolver. Muita superfície escura, muito espelho, muito vidro e muito tecido brilhante no mesmo cômodo produzem esse efeito de lugar sem borda, em que nada chama para uma tarefa específica. Se o seu escritório em casa tem parede escura, tampo escuro e cadeira escura, o conserto vem de Terra e de Metal: uma bandeja clara, cerâmica, madeira, uma luminária de metal aparente.

Do lado da falta, a leitura é a de circulação travada. A tradição associa a ausência de Água a conversa que emperra e ideia que não circula, como cano fechado, e o retrato disso é a casa em que tudo é quente, felpudo, estampado e ocupado, sem nenhuma superfície lisa em que o olho descanse. Um pouco de preto, um pouco de vidro, um espelho bem colocado e a leitura muda.

Existe um terceiro excesso, e é o mais brasileiro de todos: o preto que ninguém escolheu. Televisão de sessenta polegadas, caixa de som, roteador, filtro de linha, notebook, micro-ondas, forno, cooktop, esquadria de alumínio anodizado escuro. Antes de concluir que a sua sala precisa de mais contorno, conte os objetos pretos que já estão acesos ou desligados ali. Costuma haver mais do que a memória diz, e a decisão certa passa a ser distribuir melhor o que existe em vez de comprar mais.

Como usar sem pintar nada

Esta é a cor mais fácil de acrescentar sem galão nenhum, porque ela chega em forma de objeto e de peça pequena. A ordem de impacto, do maior para o menor: moldura de quadro, luminária, cúpula de abajur, ferragem de porta e de armário, vaso, cesto, capa de livro virada para fora, tampo de bandeja. Um conjunto de três molduras pretas na mesma parede organiza visualmente um canto inteiro por menos que uma almofada boa.

O movimento de graça é anterior a qualquer compra e é o mais eficaz: unifique o que você já tem. Quase toda casa possui metais e molduras de cinco acabamentos diferentes espalhados pelos cômodos, e juntar num único ambiente as peças escuras que hoje estão dispersas dá contorno sem nenhum gasto. Vale o mesmo para os cabos e aparelhos, que já são pretos: recolhidos e alinhados, viram detalhe; espalhados, viram ruído.

Para quem quer área maior sem pintar parede, existem três caminhos honestos. O primeiro é o fundo de estante, forrado com papel adesivo fosco escuro, o que faz cada objeto claro na prateleira ganhar destaque imediato. O segundo é o têxtil, com cortina de trilho escuro ou tapete de fundo grafite. O terceiro é a porta, que em imóvel alugado costuma ser o único elemento com autorização tácita para mudar de acabamento, e uma porta escura numa parede clara resolve o contraste do corredor inteiro.

Você sabia?

Quando Qin Shi Huang unificou a China e fundou o primeiro império, no século 3 antes da era comum, ele fez uma escolha de cor que hoje soaria bizarra num governo: adotou o preto como cor oficial da dinastia, porque a teoria dos cinco elementos dizia que cada casa reinante governava sob a virtude de um deles, e a dele seria a Água, que sucede o Fogo da dinastia anterior. Bandeiras, vestes e estandartes foram para o escuro por decreto cosmológico. Há ainda um detalhe de idioma que os tradutores costumam esconder: o caractere mais comum para preto é hēi, mas o que aparece nos textos antigos ligados ao norte é xuán, que significa escuro no sentido de profundo e insondável, e descreve um preto com um fundo avermelhado, não o preto chapado da tinta moderna. Ou seja, o preto da tradição sempre teve mais brasa dentro dele do que o nosso.

Os três tons que costumam funcionar

preto profundo

#0E1016

grafite

#23262E

azul quase preto

#1B2340

Toda cor muda de personalidade conforme a lâmpada do cômodo. Antes de comprar o galão, pinte um retângulo de cinquenta por cinquenta na parede de destino e olhe de manhã, à tarde e com a luz acesa.

O elemento Água por trás desta cor

Elemento

水 Água

Cores da família

preto e azul-escuro

Formas

linha ondulada, contorno irregular, tudo que não tem canto

Materiais

espelho, vidro, fonte, aquário, tecido brilhante

Sinal de excesso

vira lugar de dispersão, a pessoa entra para fazer uma coisa e sai duas horas depois sem ter feito

Sinal de falta

as conversas emperram e as ideias não circulam, como cano fechado

As áreas do baguá que têm esta cor na paleta

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Parede preta atrás da televisão faz mal ao feng shui?
Não faz mal, e ela tem uma função visual real, que é fazer o retângulo escuro da TV desaparecer no fundo em vez de ficar dominando o cômodo. As condições são duas. A primeira é ter luz natural vindo de outro ponto, porque aquela parede deixa de contribuir com claridade. A segunda vem do baguá: se ela for a parede do fundo, de frente para a porta, você está escurecendo a casa do Reconhecimento, que é de Fogo, e a Água apaga o Fogo. Nesse caso, compense com uma luminária dirigida e algo quente por perto.
Preto em apartamento pequeno pode?
Pode, com uma regra de dose que resolve quase todos os casos: use em objeto e em detalhe, e não em superfície grande. Ferragem, moldura, luminária, cúpula, pé de móvel e fundo de estante acrescentam contorno sem tirar luz do cômodo. Parede inteira em apartamento de quarenta e cinco metros só faz sentido quando existe janela grande em outra face, e mesmo assim é melhor começar pelo grafite ou pelo azul quase preto, que são mais indulgentes com parede torta e com pouca luz.
Preto não é cor de luto e de azar?
Essa leitura é ocidental, não chinesa. Na tradição dos cinco elementos, o preto pertence à Água, ao norte, ao inverno e ao que está guardado antes de brotar de novo, e a cor do luto na China sempre foi o branco. Portanto não existe, na escola, nenhuma ideia de que pintar de escuro atrai coisa ruim. O que existe é uma conta física de luz e uma conta de dose: escuro demais num cômodo sem janela é problema de claridade, e problema de claridade se resolve com lâmpada e com parede clara.
Preto combina com que cores, na lógica dos cinco elementos?
Com branco, cinza, prateado e dourado, porque o Metal condensa a Água, e é a dupla que a tabela sustenta com mais naturalidade. Com verde também, já que a Água rega a Madeira, e é por isso que planta grande em vaso escuro funciona tão bem visualmente. A relação de tensão é com vermelho e laranja, que são Fogo, e funciona muito bem em dose pequena, como uma almofada vermelha num sofá grafite. Já bege e terracota entram como Terra, que represa a Água, e servem justamente quando o cômodo ficou escuro demais.

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