Os objetos da tradição, separados do folclore de loja
Cabaça wu lou: a garrafa mais antiga do mundo e o que a tradição faz com ela
Ela existiu como garrafa muito antes de existir como símbolo. Toda a leitura sai daí.
O princípio, antes da receita
O formato explica tudo e quase ninguém repara nele. Uma cabaça madura e seca fica oca por dentro, com casca dura e leve, e o estrangulamento no meio dá um gargalo natural: você tem um recipiente pronto, sem forno, sem torno e sem barro. Foi por isso que essa planta acompanhou a humanidade em quase todos os continentes antes da cerâmica existir. Na China ela foi cantil de água, garrafa de vinho de arroz e, principalmente, o pote em que o médico ambulante carregava as ervas dele de vilarejo em vilarejo. Quando você vê a peça de bronze na prateleira da loja, está vendendo para você a memória de uma farmácia portátil.
Daí saem as duas leituras que a tradição chinesa acumulou. A primeira é de forma: o bojo de cima é pequeno, o de baixo é grande, e o pescoço estreito liga os dois. Os textos populares leem isso como o céu e a terra unidos por uma passagem apertada, e a mesma imagem aparece nas histórias em que um imortal guarda um mundo inteiro dentro da própria cabaça. A segunda é de som, que é o motor de metade do simbolismo chinês: hulu, o nome da cabaça, se parece com a dupla de palavras que designa bênção e o salário do funcionário público. Rima virou significado, e isso acontece na China com uma frequência que surpreende quem chega de fora.
Dois personagens fixaram a peça no imaginário. Li Tieguai, um dos Oito Imortais, é sempre representado manco, apoiado numa muleta de ferro e com uma cabaça pendurada, de onde ele tira o remédio que distribui. E Shou Lao, a figura de testa alta associada à longa vida, aparece com o mesmo objeto na mão. Nos cinco elementos, a cabaça de verdade é Madeira, porque é fruto seco de uma trepadeira, e a versão de latão que se vende hoje é Metal. Isso não é detalhe de purista: muda o canto da casa em que ela combina, e a página segue essa diferença até o fim.
Onde ele fica e como se usa
Antes de comprar qualquer coisa, procure em casa. Se você tem uma cuia de chimarrão parada no armário, tem uma cabaça: é exatamente a mesma espécie, só que cortada e curada de outro jeito. Se alguém da família guarda um porongo inteiro, melhor ainda, porque a peça de verdade é leve, cheira a fruto seco e tem a casca marcada pelo crescimento, coisa que a réplica fundida nunca vai ter. Lavar por fora com pano seco, deixar num lugar arejado e escolher onde ela vai morar é o trabalho inteiro do primeiro dia, e custa zero.
O endereço depende de qual versão você tem. A cabaça vegetal é Madeira e combina com o meio da parede da sua esquerda quando você entra, que na escola do Chapéu Negro é a casa da Família e das raízes, e com o canto mais distante à esquerda, que é a da Prosperidade. A versão de metal é Metal e vai melhor no canto da direita na mesma parede da porta, a casa dos Amigos protetores. Se você quiser seguir a leitura tradicional de longa vida, o endereço clássico é o miolo do cômodo, a casa da Saúde, e num apartamento de quarenta e cinco metros quadrados esse miolo quase sempre é a mesa da sala ou o vão entre o sofá e a cozinha americana. O que a escola pede ali é o oposto de encher: é deixar o centro livre, com uma peça só, de preferência baixa.
Existe um uso doméstico que é o mais fiel de todos e ninguém vende, porque não dá lucro: usar a cabaça como recipiente. Ponha dentro dela o que você quer lembrar de tomar conta, e o exemplo mais direto é o que a família usa de verdade, receita de médico, cartão de vacina, o papel do convênio, a lista do que precisa comprar na farmácia. A peça vira um lugar decidido para uma pilha que hoje anda solta pela casa. É a única coisa desta página que muda alguma coisa mensurável, e é gratuita. Se a sua cabaça for pequena demais, uma cuia serve igual, com a boca virada para cima em cima do aparador da entrada.
O que não fazer
Não trate a peça como remédio, e este é o item que vem antes de qualquer outro. A tradição associa a cabaça ao ofício de quem cuidava de doente, e isso é história, não é tratamento. Nenhuma escola séria diz que um objeto na cabeceira interfere numa doença, e este portal não vai dizer. Se tem alguém doente na sua casa, o assunto é médico, é exame e é o remédio certo na hora certa. Arrumar o quarto ajuda a pessoa a descansar melhor no sentido banal de haver menos coisa em cima da cômoda, e é honesto parar exatamente aí.
Não pendure a cabaça na cabeceira da cama pelo motivo prático mais óbvio, que é o de qualquer objeto suspenso sobre quem dorme: ele cai. Isso vale para a peça de cerâmica, para a de latão e para o vaso de planta pendurado, e a escola tem a mesma opinião pelo lado simbólico, porque o que fica acima da cabeça deveria ser só o teto. Também não use a peça vegetal em lugar úmido: cabaça é fruto seco, e banheiro, área de serviço e beirada de pia são justamente onde ela mofa e escurece. Se a sua já tem mancha escura e cheiro de bolor, ela não é objeto de decisão nenhuma, é lixo orgânico.
E não compre a versão grande de latão achando que a antiga era assim. Peça original era um fruto, com o peso de um fruto, e era barata a ponto de qualquer camponês ter a sua. A cabaça dourada com nó chinês e caractere gravado é produto de souvenir dos últimos trinta anos, o que não a torna feia nem inútil, torna apenas recente. Se você já tem uma e gosta, ótimo, ela continua sendo Metal e continua servindo de lembrete. Só não pague por linhagem que ela não tem, e desconfie de quem prometer resultado por tamanho de peça.
O que ele faz e o que ele não faz
Vale ser direto sobre o que essa peça faz e o que ela não faz. Ela não interfere em doença, não muda exame, não substitui consulta e não age sobre ninguém que esteja em outro cômodo. O que existe de verificável é a mesma coisa que existe para qualquer objeto escolhido de propósito: você decidiu comprar aquilo, decidiu onde ficaria, e passa por ali todo dia. Um lembrete visível funciona, e funciona bem, para o tipo de coisa que a gente adia por não ter onde escrever.
A parte histórica é a que mais rende, e ela é sólida. A cabaça é uma das plantas mais antigas que a humanidade domesticou, aparece em sítios arqueológicos da Ásia, da África e das Américas, e serviu de garrafa, de boia de rede de pesca, de instrumento musical e de máscara em quase todo lugar em que cresceu. O berimbau brasileiro usa uma. A cuia do chimarrão usa outra. O cantil do imortal chinês usava a mesma. Um objeto com essa biografia não precisa de promessa nenhuma para ser interessante.
E tem a proporção, que vale para esta família inteira de páginas. A escola do Chapéu Negro é hierárquica: primeiro o que funciona, a porta que abre inteira e a lâmpada acesa, depois a luz e a circulação, e só então o objeto. Uma cabaça na estante de uma casa com quatro coisas quebradas é decoração. A mesma cabaça numa casa em que você acabou de liberar o meio da sala é outra conversa, porque aí ela marca uma decisão que já foi tomada com as mãos.
Você sabia?
A cuia em que se toma chimarrão no Rio Grande do Sul e a cabaça que o imortal chinês carrega são a mesma espécie de planta, Lagenaria siceraria, e isso levanta uma pergunta que a ciência ainda discute: como uma única espécie foi parar, domesticada, em continentes que não se falavam. Existem cabaças em sítios arqueológicos americanos com milhares de anos, muito antes de qualquer travessia conhecida, e a hipótese levada a sério é a mais estranha de todas, a de que os frutos atravessaram o oceano boiando. A casca dura resiste meses na água salgada, as sementes continuam viáveis dentro, e experimentos mostraram justamente isso. Ou seja, o objeto que a tradição chinesa associa à vida longa é uma planta que talvez tenha chegado ao Brasil sozinha, flutuando, e que hoje volta ao brasileiro pelo caminho mais improvável possível: fundida em latão, dentro de uma caixinha de loja de importados, com um folheto explicando que ela vem do outro lado do mundo.
As providências, na ordem de impacto
- 1Procure em casa antes de comprar: cuia de chimarrão, porongo guardado, cabaça de artesanato. Você provavelmente já tem a peça de verdade.
- 2Escolha hoje um lugar para ela e mantenha. Cabaça vegetal é Madeira e prefere o meio da parede da esquerda; a de metal é Metal e prefere o canto da direita da parede da porta.
- 3Use a peça como recipiente do que a casa esquece: receita, cartão de vacina, papel do convênio. É o uso mais antigo e o único que muda algo mensurável.
- 4Tire a cabaça vegetal de qualquer lugar úmido. Fruto seco em banheiro ou perto da pia mofa, escurece e vira lixo em poucos meses.
- 5Não pendure nada acima da cama, inclusive esta peça. O que fica sobre a cabeça de quem dorme deveria ser só o teto.
- 6Se tem alguém doente na casa, marque a consulta hoje e arrume o quarto no fim de semana. As duas coisas cabem na mesma semana e só uma delas trata doença.
O elemento Madeira por trás disso
Elemento
木 Madeira
Cores
verde e azul-esverdeado
Materiais
planta viva, madeira crua, algodão, linho, papel
Sinal de excesso
a casa parece uma selva e ninguém consegue terminar nada, porque tudo está sempre começando
As áreas do baguá que este assunto toca
Grátis, sem cadastro
Descubra em 15 perguntas o que a sua casa está pedindo primeiro
Quinze perguntas de sim ou não sobre a porta, a luz, o caminho e o que está quebrado. No fim vem a sua lista, em ordem de impacto, e quase tudo se resolve sem comprar nada.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
A cabaça wu lou serve para saúde?
Tem que ser de metal ou pode ser a cabaça de verdade?
Onde não devo colocar?
Quantas cabaças posso ter em casa?
Continue explorando
Os outros objetos da tradição
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Cada uma abre a leitura completa, do mesmo tamanho desta.