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Os objetos da tradição, separados do folclore de loja

Cabaça wu lou: a garrafa mais antiga do mundo e o que a tradição faz com ela

A cabaça de dois bojos que as lojas vendem como wu lou é o mesmo fruto seco que o gaúcho usa para tomar chimarrão, a Lagenaria siceraria, chamada de porongo no sul do Brasil. Na China ela virou o cantil do médico andarilho e o objeto que a tradição liga à longa vida, e o comércio brasileiro passou a vendê-la em latão dourado sem contar nada disso. Aqui você encontra de onde vem o formato, o que a tradição de fato associa a ele, onde a peça cabe num apartamento pequeno e a parte que precisa ser dita com todas as letras: objeto nenhum trata doença.
Ela existiu como garrafa muito antes de existir como símbolo. Toda a leitura sai daí.

O princípio, antes da receita

O formato explica tudo e quase ninguém repara nele. Uma cabaça madura e seca fica oca por dentro, com casca dura e leve, e o estrangulamento no meio dá um gargalo natural: você tem um recipiente pronto, sem forno, sem torno e sem barro. Foi por isso que essa planta acompanhou a humanidade em quase todos os continentes antes da cerâmica existir. Na China ela foi cantil de água, garrafa de vinho de arroz e, principalmente, o pote em que o médico ambulante carregava as ervas dele de vilarejo em vilarejo. Quando você vê a peça de bronze na prateleira da loja, está vendendo para você a memória de uma farmácia portátil.

Daí saem as duas leituras que a tradição chinesa acumulou. A primeira é de forma: o bojo de cima é pequeno, o de baixo é grande, e o pescoço estreito liga os dois. Os textos populares leem isso como o céu e a terra unidos por uma passagem apertada, e a mesma imagem aparece nas histórias em que um imortal guarda um mundo inteiro dentro da própria cabaça. A segunda é de som, que é o motor de metade do simbolismo chinês: hulu, o nome da cabaça, se parece com a dupla de palavras que designa bênção e o salário do funcionário público. Rima virou significado, e isso acontece na China com uma frequência que surpreende quem chega de fora.

Dois personagens fixaram a peça no imaginário. Li Tieguai, um dos Oito Imortais, é sempre representado manco, apoiado numa muleta de ferro e com uma cabaça pendurada, de onde ele tira o remédio que distribui. E Shou Lao, a figura de testa alta associada à longa vida, aparece com o mesmo objeto na mão. Nos cinco elementos, a cabaça de verdade é Madeira, porque é fruto seco de uma trepadeira, e a versão de latão que se vende hoje é Metal. Isso não é detalhe de purista: muda o canto da casa em que ela combina, e a página segue essa diferença até o fim.

Onde ele fica e como se usa

Antes de comprar qualquer coisa, procure em casa. Se você tem uma cuia de chimarrão parada no armário, tem uma cabaça: é exatamente a mesma espécie, só que cortada e curada de outro jeito. Se alguém da família guarda um porongo inteiro, melhor ainda, porque a peça de verdade é leve, cheira a fruto seco e tem a casca marcada pelo crescimento, coisa que a réplica fundida nunca vai ter. Lavar por fora com pano seco, deixar num lugar arejado e escolher onde ela vai morar é o trabalho inteiro do primeiro dia, e custa zero.

O endereço depende de qual versão você tem. A cabaça vegetal é Madeira e combina com o meio da parede da sua esquerda quando você entra, que na escola do Chapéu Negro é a casa da Família e das raízes, e com o canto mais distante à esquerda, que é a da Prosperidade. A versão de metal é Metal e vai melhor no canto da direita na mesma parede da porta, a casa dos Amigos protetores. Se você quiser seguir a leitura tradicional de longa vida, o endereço clássico é o miolo do cômodo, a casa da Saúde, e num apartamento de quarenta e cinco metros quadrados esse miolo quase sempre é a mesa da sala ou o vão entre o sofá e a cozinha americana. O que a escola pede ali é o oposto de encher: é deixar o centro livre, com uma peça só, de preferência baixa.

Existe um uso doméstico que é o mais fiel de todos e ninguém vende, porque não dá lucro: usar a cabaça como recipiente. Ponha dentro dela o que você quer lembrar de tomar conta, e o exemplo mais direto é o que a família usa de verdade, receita de médico, cartão de vacina, o papel do convênio, a lista do que precisa comprar na farmácia. A peça vira um lugar decidido para uma pilha que hoje anda solta pela casa. É a única coisa desta página que muda alguma coisa mensurável, e é gratuita. Se a sua cabaça for pequena demais, uma cuia serve igual, com a boca virada para cima em cima do aparador da entrada.

O que não fazer

Não trate a peça como remédio, e este é o item que vem antes de qualquer outro. A tradição associa a cabaça ao ofício de quem cuidava de doente, e isso é história, não é tratamento. Nenhuma escola séria diz que um objeto na cabeceira interfere numa doença, e este portal não vai dizer. Se tem alguém doente na sua casa, o assunto é médico, é exame e é o remédio certo na hora certa. Arrumar o quarto ajuda a pessoa a descansar melhor no sentido banal de haver menos coisa em cima da cômoda, e é honesto parar exatamente aí.

Não pendure a cabaça na cabeceira da cama pelo motivo prático mais óbvio, que é o de qualquer objeto suspenso sobre quem dorme: ele cai. Isso vale para a peça de cerâmica, para a de latão e para o vaso de planta pendurado, e a escola tem a mesma opinião pelo lado simbólico, porque o que fica acima da cabeça deveria ser só o teto. Também não use a peça vegetal em lugar úmido: cabaça é fruto seco, e banheiro, área de serviço e beirada de pia são justamente onde ela mofa e escurece. Se a sua já tem mancha escura e cheiro de bolor, ela não é objeto de decisão nenhuma, é lixo orgânico.

E não compre a versão grande de latão achando que a antiga era assim. Peça original era um fruto, com o peso de um fruto, e era barata a ponto de qualquer camponês ter a sua. A cabaça dourada com nó chinês e caractere gravado é produto de souvenir dos últimos trinta anos, o que não a torna feia nem inútil, torna apenas recente. Se você já tem uma e gosta, ótimo, ela continua sendo Metal e continua servindo de lembrete. Só não pague por linhagem que ela não tem, e desconfie de quem prometer resultado por tamanho de peça.

O que ele faz e o que ele não faz

Vale ser direto sobre o que essa peça faz e o que ela não faz. Ela não interfere em doença, não muda exame, não substitui consulta e não age sobre ninguém que esteja em outro cômodo. O que existe de verificável é a mesma coisa que existe para qualquer objeto escolhido de propósito: você decidiu comprar aquilo, decidiu onde ficaria, e passa por ali todo dia. Um lembrete visível funciona, e funciona bem, para o tipo de coisa que a gente adia por não ter onde escrever.

A parte histórica é a que mais rende, e ela é sólida. A cabaça é uma das plantas mais antigas que a humanidade domesticou, aparece em sítios arqueológicos da Ásia, da África e das Américas, e serviu de garrafa, de boia de rede de pesca, de instrumento musical e de máscara em quase todo lugar em que cresceu. O berimbau brasileiro usa uma. A cuia do chimarrão usa outra. O cantil do imortal chinês usava a mesma. Um objeto com essa biografia não precisa de promessa nenhuma para ser interessante.

E tem a proporção, que vale para esta família inteira de páginas. A escola do Chapéu Negro é hierárquica: primeiro o que funciona, a porta que abre inteira e a lâmpada acesa, depois a luz e a circulação, e só então o objeto. Uma cabaça na estante de uma casa com quatro coisas quebradas é decoração. A mesma cabaça numa casa em que você acabou de liberar o meio da sala é outra conversa, porque aí ela marca uma decisão que já foi tomada com as mãos.

Você sabia?

A cuia em que se toma chimarrão no Rio Grande do Sul e a cabaça que o imortal chinês carrega são a mesma espécie de planta, Lagenaria siceraria, e isso levanta uma pergunta que a ciência ainda discute: como uma única espécie foi parar, domesticada, em continentes que não se falavam. Existem cabaças em sítios arqueológicos americanos com milhares de anos, muito antes de qualquer travessia conhecida, e a hipótese levada a sério é a mais estranha de todas, a de que os frutos atravessaram o oceano boiando. A casca dura resiste meses na água salgada, as sementes continuam viáveis dentro, e experimentos mostraram justamente isso. Ou seja, o objeto que a tradição chinesa associa à vida longa é uma planta que talvez tenha chegado ao Brasil sozinha, flutuando, e que hoje volta ao brasileiro pelo caminho mais improvável possível: fundida em latão, dentro de uma caixinha de loja de importados, com um folheto explicando que ela vem do outro lado do mundo.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Procure em casa antes de comprar: cuia de chimarrão, porongo guardado, cabaça de artesanato. Você provavelmente já tem a peça de verdade.
  2. 2Escolha hoje um lugar para ela e mantenha. Cabaça vegetal é Madeira e prefere o meio da parede da esquerda; a de metal é Metal e prefere o canto da direita da parede da porta.
  3. 3Use a peça como recipiente do que a casa esquece: receita, cartão de vacina, papel do convênio. É o uso mais antigo e o único que muda algo mensurável.
  4. 4Tire a cabaça vegetal de qualquer lugar úmido. Fruto seco em banheiro ou perto da pia mofa, escurece e vira lixo em poucos meses.
  5. 5Não pendure nada acima da cama, inclusive esta peça. O que fica sobre a cabeça de quem dorme deveria ser só o teto.
  6. 6Se tem alguém doente na casa, marque a consulta hoje e arrume o quarto no fim de semana. As duas coisas cabem na mesma semana e só uma delas trata doença.

O elemento Madeira por trás disso

Elemento

木 Madeira

Cores

verde e azul-esverdeado

Materiais

planta viva, madeira crua, algodão, linho, papel

Sinal de excesso

a casa parece uma selva e ninguém consegue terminar nada, porque tudo está sempre começando

As áreas do baguá que este assunto toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

A cabaça wu lou serve para saúde?
A tradição chinesa associa a cabaça ao ofício do médico andarilho e à figura ligada à longa vida, e é assim que a peça entrou no repertório. Associação de costume é uma coisa; tratamento é outra, e este portal não afirma que objeto nenhum interfere em doença, sintoma ou exame. Se você gosta do objeto, tenha, ele tem uma história ótima. Se tem alguém doente na sua casa, o caminho é médico, e nada nesta página substitui isso nem atrasa isso.
Tem que ser de metal ou pode ser a cabaça de verdade?
Pode ser a de verdade, e ela é mais fiel à origem: a peça histórica era um fruto seco, leve e barato, não uma escultura de latão. A diferença prática é de elemento. Cabaça vegetal é Madeira e combina com o meio da parede da esquerda, a casa da Família, e com o canto mais distante à esquerda, a da Prosperidade. A de metal é Metal e vai melhor no canto da direita da parede da porta, a dos Amigos protetores. Nenhuma das duas é superior, mudam só de endereço.
Onde não devo colocar?
Três lugares. Acima da cama, por motivo de gravidade antes de qualquer simbolismo. Em ambiente úmido, se a peça for o fruto de verdade, porque cabaça mofa e a mancha não sai. E no chão encostada na parede à espera de um lugar, que é onde todo objeto sem endereço acaba e é o oposto do que faz um lembrete funcionar. Fora isso, a peça é discreta e cabe em quase qualquer superfície acima da linha da cintura.
Quantas cabaças posso ter em casa?
Uma resolve, e a razão é de dose e não de regra mística. A escola trabalha com equilíbrio de materiais, e repetir o mesmo objeto em quatro cantos satura o ambiente do jeito que qualquer coleção satura: você para de enxergar as peças. Se você já ganhou várias, escolha a que gosta mais, deixe num lugar decidido e dê as outras de presente. Objeto de casa que sobra costuma fazer mais sentido na casa de outra pessoa.

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