Os objetos da tradição, separados do folclore de loja
Quadros no feng shui: o que pendurar, onde e a que altura
Móvel a gente troca quando cansa. Quadro fica na parede até alguém tomar a decisão de tirar.
O princípio, antes da receita
Pense na parede que aparece inteira quando alguém abre a sua porta. Na maior parte dos apartamentos brasileiros ela está a uns quatro metros da entrada, é a maior superfície livre da sala e recebe o olhar de todo mundo que chega, inclusive o seu, uma dezena de vezes por dia. A escola do Chapéu Negro chama esse pedaço da casa de Reconhecimento: a faixa central do fundo, de frente para quem entra. É o ponto em que a casa fala mais alto, e é justamente onde costuma morar um quadro comprado às pressas porque a parede estava vazia e a visita vinha no sábado.
A pergunta que a tradição faz sobre imagem não é decorativa. Ela não é sobre o que combina com o sofá, é sobre o que você vai olhar todo dia pelos próximos cinco anos. Vale fazer a conta que ninguém faz: uma imagem pendurada na sala entra no seu campo de visão alguns milhares de vezes por ano, e você não escolheu nenhuma dessas vezes. Escolheu só a primeira, no dia em que pendurou. Nenhum outro objeto doméstico tem essa proporção entre uma decisão tomada e a quantidade de vezes que ela se repete.
Daí sai o critério da escola, e ele se sustenta sem precisar de nenhum misticismo. A tradição prefere montanha, água calma, fruta, flor aberta, campo cultivado e gente reunida, e evita naufrágio, deserto, figura sozinha de costas, bicho prestes a atacar e mar revolto. O argumento não é que a pintura convoque aquilo que mostra. É bem mais simples e bem mais difícil de contestar: você está escolhendo, por conta própria, o que a sua casa vai te dizer todas as manhãs antes do café.
Onde ele fica e como se usa
Comece pelo lugar, que se acha em trinta segundos. Fique de pé do lado de fora da porta principal, entre e divida o que você vê em nove partes iguais, três por três. A faixa central do fundo é o Reconhecimento, e ali vai a imagem que tem a ver com o que você faz ou com o que você gostaria que dissessem de você quando saísse da sala: o diploma, a foto da corrida que você terminou, a gravura de que você tem orgulho. O canto mais distante à sua direita é o Amor, e a gramática daquela casa é o par, ou seja, duas imagens em vez de uma solitária, ou uma imagem com duas figuras. O meio da parede da esquerda é a Família, endereço natural do retrato de quem veio antes de você.
Depois vem a altura, e é aqui que quase todo mundo erra por excesso de cerimônia: o instinto manda pendurar alto, e alto demais deixa a peça flutuando perto do teto, sem conversar com nada. A régua que funciona é o centro da imagem por volta de um metro e cinquenta do chão, que é a linha do olhar de um adulto em pé. Na sala existe uma correção importante: se aquele é o cômodo em que as pessoas ficam sentadas, desça o conjunto uns dez centímetros, porque quem está no sofá olha de baixo para cima. Sobre aparador ou encosto de sofá, deixe de quinze a vinte centímetros de respiro entre o móvel e a base do quadro, e o conjunto passa a ser lido como uma coisa só.
Quem mora de aluguel tem quatro saídas sem furar parede, e todas funcionam. Fita de dupla face de espuma, conferindo o limite de peso escrito na embalagem, que costuma ficar em um ou dois quilos por tira. Prateleira estreita de apoio, aquela de dez centímetros, em que os quadros ficam encostados e trocam de ordem quando você quiser. Peça grande escorada no chão, apoiada na parede atrás de um móvel baixo, que é a solução mais bonita e a mais barata. E o varal de arame com prendedor de roupa, perfeito para foto pequena e para desenho de criança, que muda toda semana sem custo nenhum. Antes de fixar qualquer coisa, faça o teste da fita crepe: cole o contorno do quadro na parede e conviva com ele por dois dias.
O que não fazer
A lista de imagens que a tradição evita é curta, e vale entender antes de obedecer, porque entender é o que permite discordar com critério. Naufrágio, deserto, ruína, figura sozinha de costas, animal em ataque e mar revolto entram nela. O motivo declarado pela escola é de sugestão, não de destino: são cenas de perda, de secura e de ameaça, e você vai encará-las nos dias bons e também nos dias ruins, que é quando uma imagem pesa de verdade. Se um quadro assim tem valor afetivo ou artístico para você, a solução da escola não é jogar fora, é mudar de parede, tirando do campo de visão de quem entra e de quem senta.
No quarto, dois cuidados extras. O primeiro é de peso e é físico antes de ser simbólico: quadro grande e pesado pendurado bem acima da cabeceira é a mesma sensação de dormir debaixo de uma quina, e a solução é descer para a parede lateral ou trocar por uma peça leve. O segundo é o retrato de quem já morreu no quarto do casal, que a tradição desaconselha com um argumento bem terreno, o de que aquele cômodo pertence a duas pessoas vivas e a presença de um terceiro olhar muda a leitura do espaço. Isso é costume declarado, não é regra moral, e cada família decide o que faz sentido para ela.
Dois erros de composição fecham a lista, e são de olho e não de tradição. Quadro pequeno sozinho no meio de uma parede grande parece um selo esquecido, e o conserto é agrupar três ou quatro peças pequenas num bloco só, com cinco centímetros entre elas. E moldura muito trabalhada rouba a atenção que era da imagem, que é o oposto do que se quer. Espelho, por sinal, não entra nesta conversa, porque não é imagem fixa e sim superfície que devolve o cômodo, e a cura do espelho tem página própria neste portal.
O que ele faz e o que ele não faz
Nenhum quadro muda o que acontece com você fora de casa, e quem promete isso está vendendo outra coisa. O que a escola sustenta é modesto e verificável: uma imagem escolhida de propósito e posta num lugar decidido é uma declaração que você faz para si mesmo e revisita sem esforço. Um objeto assim funciona como lembrete do que você combinou consigo, e lembrete diário é uma tecnologia doméstica bem mais antiga que qualquer teoria energética.
Existe ainda a decisão que quase ninguém toma, e ela é a mais poderosa desta página: tirar da parede o quadro de que você não gosta mais. Toda casa tem um. Foi presente de alguém querido, foi comprado numa viagem, veio com a mudança, e há anos ninguém olha para ele com prazer. A escola trata objeto assim do mesmo jeito que trata gaveta emperrada e lâmpada queimada: é uma pequena decisão adiada, e ela cobra um pedaço da sua atenção toda vez que você passa por ali. Parede vazia é melhor que parede com uma imagem que você já rejeitou em silêncio.
E vale dizer o que fazer com o presente que você não quer expor, porque a resposta honesta não é a que a internet dá. Guardar não é ingratidão: quem deu queria te agradar, e o objeto que não agrada deixou de cumprir o próprio propósito no minuto em que você começou a desviar o olhar dele. Guarde com cuidado, empreste, devolva ao circuito, presenteie alguém que goste de verdade. A parede da sua casa não é obrigação social, é a única superfície que fala com você todos os dias sem precisar abrir a boca.
Você sabia?
A pintura clássica chinesa de paisagem tem um nome que já é uma receita de composição: shan shui, montanha e água. O gênero nasceu na dinastia Tang e virou o grande assunto da pintura na dinastia Song, e a regra interna dele diz que a montanha é o coração do quadro, o ponto firme para onde tudo converge, enquanto a água é o que se move em volta. Agora o detalhe que muda a forma como você pensa a sua parede: aquelas pinturas não eram feitas para ficar penduradas para sempre. Elas eram rolos, guardados enrolados e trocados conforme a estação do ano ou a ocasião, de modo que a casa mostrava uma imagem por vez e renovava o olhar várias vezes ao ano. Ou seja, a tradição que hoje se cita para justificar o quadro perfeito na parede principal era, na origem, uma tradição de rodízio. Se você tem cinco quadros e três paredes, está mais perto do costume original do que imagina.
As providências, na ordem de impacto
- 1Pare do lado de fora da sua porta, entre e olhe a parede do fundo. Se a primeira imagem da casa foi escolhida às pressas, você acabou de achar a única parede que vale reorganizar hoje.
- 2Meça a altura de um quadro que já está pendurado. Se o centro dele estiver bem acima de um metro e cinquenta, desça o prego alguns centímetros e compare.
- 3Tire hoje da parede o quadro de que você não gosta mais. Não precisa substituir por nada: conviva uma semana com a parede vazia antes de decidir.
- 4Deite na cama e olhe as imagens do quarto da posição em que você dorme. Peso grande acima da cabeceira e cena agitada de frente para a cama são os dois ajustes clássicos.
- 5Junte os quadros que estão encostados no chão esperando prego e monte um bloco só numa parede, com fita crepe primeiro para testar o desenho.
- 6Leve uma foto de família para o meio da parede da esquerda, contando a partir de quem entra. É a casa da Família no baguá e custa um prego.
As áreas do baguá que este assunto toca
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Perguntas frequentes
Qual é a altura certa para pendurar um quadro?
Posso ter quadro com água, cachoeira ou mar no quarto?
Onde ficam as fotos de família?
Espelho conta como quadro na parede?
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