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Os objetos da tradição, separados do folclore de loja

Espelho bagua: para que ele serve, os três tipos e por que não apontar para o vizinho

O espelho octogonal com os oito trigramas na moldura é o objeto mais delicado desta família inteira, e a razão é simples: ele é o único que a tradição usa apontado para fora, contra alguma coisa. Nunca foi enfeite de sala, e no Brasil ele ganhou um uso que não existe na origem, o de ser pendurado virado para a casa do vizinho com quem se brigou. Este portal não recomenda esse uso e explica por quê, sem sermão. Aqui você encontra o que a peça é, o que significam os oito traços da moldura, a diferença entre o plano, o convexo e o côncavo, e o que fazer quando o incômodo da rua é real.
Virado para uma quina, é leitura de forma. Virado para uma janela, é bilhete.

O princípio, antes da receita

Comece pela moldura, porque é ela que dá nome à peça. Bagua quer dizer oito trigramas, e trigrama é uma figura de três linhas, cheias ou partidas, que a tradição chinesa usa como alfabeto de leitura do mundo desde muito antes de existir feng shui de apartamento. Oito combinações de três linhas dão oito figuras, e é esse conjunto que aparece esculpido em volta do vidro, quase sempre com um pequeno diagrama de yin e yang no centro. Existem duas ordens possíveis para dispor os oito, chamadas de Céu Anterior e Céu Posterior, e a peça de uso defensivo tradicionalmente carrega a ordem do Céu Anterior. Se você tem uma em casa e quer conferir, procure o trigrama de três linhas cheias, que é o Céu: na ordem defensiva ele fica no topo.

O uso original é de fachada e é de forma. A escola clássica lê o entorno construído procurando o que ela chama de flecha, que é qualquer aresta, ponta ou linha reta apontada contra a sua porta ou a sua janela: a quina do prédio da frente, um poste plantado bem no meio do seu portão, o beiral pontudo do telhado vizinho, a rua que termina batendo na sua fachada. Repare que nada disso é uma pessoa. São geometrias de um bairro construído sem ninguém pensar em você, e o espelho é o gesto de devolver a linha reta em vez de recebê-la de frente.

Daí sai a regra que este portal considera a mais importante do assunto e que resolve todas as dúvidas seguintes: a peça responde a uma forma, nunca a um endereço. No momento em que ela deixa de encarar uma quina e passa a encarar a janela da cozinha de alguém, o objeto mudou de natureza. Ele parou de ser leitura de espaço e virou mensagem para uma pessoa que tem nome, rosto e horário de chegar do trabalho. É por isso que a página inteira gira em torno de uma pergunta só, e ela é fácil de responder olhando pela sua janela: o que exatamente está do outro lado?

Onde ele fica e como se usa

Antes de qualquer coisa, faça o diagnóstico do lado de fora, porque metade dos casos se resolve sem a peça. Fique parado na porta de entrada, ou na janela que incomoda, e descreva em voz alta o que está na sua frente. Se for uma quina de prédio, um poste, um transformador, um beiral apontado, uma passarela ou uma rua que termina na sua fachada, você tem um caso clássico de forma, e a tradição tem três respostas antes do espelho: interromper a linha reta, cobrir a visada ou trocar o que o olho encontra. Um vaso alto na varanda, uma cortina de tecido leve fechada nas horas em que o incômodo aparece, uma planta pendurada no lugar certo e uma película jateada no vidro fazem todas o mesmo trabalho por menos dinheiro e sem recado nenhum para ninguém.

Se você quiser mesmo usar a peça, o uso fiel à tradição tem endereço e altura definidos. Ela vai do lado de fora, na fachada ou acima do batente da porta principal, virada para a forma que incomoda, e nunca para uma abertura de moradia. Fica alta, acima da linha da cabeça, e não é objeto de sala, de quarto nem de corredor interno. Em prédio, antes de furar qualquer coisa, confira a convenção do condomínio: fachada costuma ser área comum, e objeto pendurado do lado de fora é assunto de assembleia em muito prédio brasileiro.

Sobre o tipo, escolha com informação. O plano devolve a imagem como ela é, é o mais neutro dos três e é o que este portal indicaria a quem faz questão de ter um. O convexo, aquele espelhinho estufado parecido com o de garagem, espalha a imagem e a diminui, e a leitura tradicional é a de dispersar em vez de rebater, o que faz dele a opção mais branda. O côncavo, o afundado, inverte a imagem de cabeça para baixo e a tradição descreve o efeito dele como o de absorver, não o de devolver, e é justamente por isso que as escolas desaconselham essa versão para quem não é praticante experiente: é a única das três em que a instrução clássica prevê que a peça possa trabalhar contra a própria casa se estiver na posição errada. Na dúvida entre os três, a resposta mais segura é não pendurar nenhum e resolver o incômodo pelo lado prático.

O que não fazer

Não aponte para a casa do vizinho, e vale explicar o motivo em vez de apenas proibir. Um espelho desses virado para a janela, para a porta ou para a varanda de alguém não é leitura de forma: é um objeto escolhido, comprado e instalado com uma pessoa específica em mente, e essa pessoa vai entender exatamente isso quando olhar para cima. No Brasil o gesto costuma vir depois de uma briga de barulho, de vaga de garagem ou de obra, e o que ele produz na prática é conhecido: o outro percebe, se ofende, e a chance de o assunto voltar a ser resolvido conversando cai para perto de zero. Em Hong Kong, onde o costume é antigo, isso já rendeu queixa de vizinhança e disputa que subiu de andar em andar, com cada um pendurando o seu. Nada disso resolveu o barulho de ninguém.

Existe ainda a parte que não é de etiqueta e sim de consequência. Objeto instalado na fachada com a intenção declarada de atingir outra pessoa é o tipo de coisa que aparece em conflito de condomínio e em conversa de síndico, e o desconforto é real para os dois lados. Se o problema é barulho, infiltração, obra fora de hora, cachorro ou fumaça, existem caminhos que de fato mudam a situação: conversar direto, registrar na administração, acionar a convenção, e em caso extremo procurar orientação jurídica. É menos satisfatório que pendurar um disco de dez centímetros na sacada, e é o que funciona.

Dentro de casa, três nãos curtos. Não pendure de frente para a cama, para a mesa em que a família come nem para a poltrona em que alguém senta, porque a peça é feita para encarar coisa e não gente. Não use como decoração de sala, achando que é enfeite chinês bonito, porque ela não é isso na origem e quem conhece o objeto vai estranhar. E não pendure na dúvida: se você não consegue dizer em uma frase qual é a forma exata que a peça está encarando, ela não deveria estar pendurada. Essa regra sozinha evita quase todo o mau uso que se vê por aí.

O que ele faz e o que ele não faz

Nenhum espelho age sobre a rua, sobre o prédio da frente nem sobre a vida de quem mora do outro lado, e é bom dizer isso numa página que trata justamente de uma peça vendida como defesa. O que existe de verificável é ótico e é bem menor do que o folheto promete: um disco espelhado devolve luz e devolve imagem, e é só isso que ele faz do ponto de vista físico. A leitura tradicional é uma convenção de escola, tem séculos, é interessante de conhecer, e continua sendo convenção.

A segunda verdade é sobre o que muda de fato quando o assunto é a vista da janela. O incômodo de olhar todo dia para uma quina de concreto, um poste no meio do portão ou o muro cego do prédio da frente é real, e ele é de campo de visão, não de energia. Por isso as soluções que funcionam são as que mudam o que o seu olho encontra: cortina, planta, vidro jateado, um móvel que reposicione a poltrona. O princípio do espelho como cura, com os usos que este portal recomenda e os que ele desaconselha, já está explicado em detalhe na página da cura do espelho, e ali estão as colocações internas que valem a pena. Esta aqui trata só da peça octogonal, que é outro objeto e tem outra função.

A terceira é sobre o motivo pelo qual alguém compra uma dessas. Quase sempre a pessoa está incomodada com um vizinho, com um barulho ou com uma sensação de estar exposta, e o objeto entra como forma de fazer alguma coisa quando parece não haver o que fazer. Isso é humano e não merece deboche. Só que a peça não resolve o problema que motivou a compra, e existe um risco concreto de piorar a relação que já estava ruim. Vale gastar os mesmos vinte reais em uma cortina e a mesma meia hora numa conversa difícil. Uma das duas coisas tem chance de mudar a sua semana.

Você sabia?

A história mais contada de Hong Kong sobre esse assunto envolve dois arranha-céus e nenhum espelho de dez centímetros. Quando a torre do Bank of China ficou pronta, no fim dos anos 1980, com aquele desenho de prismas cortados e arestas afiadíssimas assinado pelo arquiteto I. M. Pei, correu pela cidade a leitura de que as quinas do edifício estavam apontadas como lâminas contra os vizinhos, entre eles a sede do HSBC. A resposta que entrou para o folclore local foi instalar no topo do prédio do banco rival duas estruturas de manutenção parecidas com canhões, viradas na direção da torre nova. Ninguém no mundo corporativo confirma que a intenção era essa, e é justamente isso que torna o caso saboroso: a briga simbólica mais famosa da história do feng shui aconteceu entre dois bancos multinacionais, em aço e vidro, na escala de trinta andares. Ela mostra bem o que este portal quer dizer quando fala que a peça vira recado: no instante em que existe um alvo com nome, o objeto para de ser leitura de espaço e vira conversa entre duas partes, e conversa entre duas partes tem sempre uma resposta.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Vá até a janela ou a porta que incomoda e descreva em voz alta o que está do outro lado. Se a resposta contiver a palavra vizinho, a peça não é para o seu caso.
  2. 2Se for mesmo uma quina, um poste ou um beiral, teste primeiro a solução de graça: feche a cortina nas horas em que incomoda e veja se o assunto some.
  3. 3Ponha um vaso alto ou um móvel que reposicione a poltrona, de modo que a forma da rua saia do seu campo de visão. É o mesmo efeito por menos dinheiro.
  4. 4Se for usar a peça, use do lado de fora, acima da linha da cabeça, virada para a forma e nunca para uma janela de moradia. E confira a convenção do condomínio antes de furar a fachada.
  5. 5Escolha o plano se estiver em dúvida. O côncavo é o que as escolas desaconselham para leigo, porque a instrução clássica dele prevê que a posição errada trabalhe contra a própria casa.
  6. 6Se o problema real é barulho, obra ou infiltração, escreva hoje uma mensagem para a administração do prédio. É menos satisfatório que pendurar um disco na sacada e é o que muda a situação.

O elemento Água por trás disso

Elemento

水 Água

Cores

preto e azul-escuro

Materiais

espelho, vidro, fonte, aquário, tecido brilhante

Sinal de excesso

vira lugar de dispersão, a pessoa entra para fazer uma coisa e sai duas horas depois sem ter feito

As áreas do baguá que este assunto toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Posso pendurar o espelho bagua virado para a casa do vizinho?
Este portal não recomenda, e o motivo não é moral, é de natureza do objeto. A tradição usa a peça contra formas: uma quina de prédio, um poste, um beiral apontado, uma rua que termina na sua fachada. Nenhuma dessas coisas é uma pessoa. Virado para a janela de alguém, o objeto vira um recado endereçado, a outra pessoa entende exatamente isso, e a chance de resolver o conflito conversando desaparece. Em Hong Kong, onde o costume é velho, isso já rendeu disputa de vizinhança que subiu andar por andar sem resolver o barulho de ninguém.
Qual a diferença entre o espelho plano, o convexo e o côncavo?
O plano devolve a imagem como ela é e é o mais neutro dos três. O convexo, aquele estufado que parece espelho de garagem, espalha e diminui a imagem, e a leitura tradicional é a de dispersar em vez de rebater, o que faz dele a opção mais branda. O côncavo, o afundado, inverte a imagem de cabeça para baixo e a tradição descreve o efeito dele como absorver. É justamente esse terceiro que as escolas desaconselham para quem não é praticante experiente, porque a instrução clássica prevê que ele possa trabalhar contra a própria casa se estiver mal posicionado.
Posso ter um espelho bagua dentro de casa, como decoração?
Pode, ninguém vai te multar, mas vale saber que ele não é isso na origem: é peça de fachada, pendurada alta e virada para uma forma específica da rua. Dentro de casa ele fica sem função e passa a encarar gente, que é justamente o que a tradição evita. Se você quer espelho na sala, no corredor ou na entrada, o assunto é outro e está tratado na página da cura do espelho deste portal, com as colocações que funcionam e a única que a escola desaconselha com firmeza.
E se a quina do prédio da frente aponta mesmo para a minha janela?
Esse é o caso clássico, e ele tem três soluções antes de qualquer peça comprada. A primeira é interromper a linha reta com alguma coisa entre você e ela, um vaso alto na varanda ou uma planta pendurada. A segunda é cobrir a visada nas horas em que ela incomoda, com cortina de tecido leve ou película jateada no vidro. A terceira é mudar o móvel de lugar, para que a poltrona ou a mesa não fiquem de frente para aquilo. Todas custam pouco, nenhuma envolve terceiro, e as três resolvem o que de fato incomoda, que é o campo de visão.

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