Os objetos da tradição, separados do folclore de loja
Buda em casa: qual é a figura, de onde ela vem e onde ela fica
Não é o tamanho da peça que mede o cuidado com ela. É a altura em que ela está e a poeira em cima.
O princípio, antes da receita
Comece pela confusão, porque desfazê-la é metade do assunto. O Buda histórico, Sidarta Gautama, é representado magro, sereno, em postura de meditação, e nenhuma tradição o retrata rindo com a barriga de fora. A figura sorridente e barriguda é outra pessoa: Budai, monge chinês do século 10, cujo nome quer dizer saco de pano, apelido tirado do saco que ele carregava pelas estradas. Andava de vilarejo em vilarejo distribuindo o que tinha, principalmente às crianças, e a tradição conta que só na hora da morte ele deixou entender que era manifestação de Maitreya, o buda que ainda está por vir. Da China a imagem seguiu para o Japão, a Coreia e o Vietnã, e no Japão ele ganhou o nome de Hotei.
Essa distinção tem peso prático, não é preciosismo de enciclopédia. Para budistas, e são muitos no Brasil, uma imagem de buda não é um objeto decorativo qualquer: ela ocupa um lugar de respeito na casa, do mesmo jeito que outras tradições reservam lugar para as imagens delas. Quem compra por gosto estético não está fazendo nada errado, e este portal não vai transformar isso em problema. O que vale é saber que o objeto tem dois estatutos possíveis, e que a diferença entre eles não está na peça e sim em quem olha.
Existe ainda um motivo pelo qual esse assunto pertence a esta vertical e não é digressão. A escola do Chapéu Negro, que é a linha de feng shui que o Brasil aprendeu e a que este portal segue, tem raiz budista declarada: ela foi organizada no Ocidente por Lin Yun, que vinha do budismo tântrico tibetano da chamada Seita Negra, e o primeiro templo dessa linha no Ocidente foi fundado em Berkeley, na Califórnia, em 1986. Ou seja, a escola que orienta o baguá pela porta de entrada nasceu dentro de um contexto religioso, e ela nunca escondeu isso.
Onde ele fica e como se usa
A primeira decisão não é de lugar, é de estatuto, e só você pode tomá-la: essa imagem, na sua casa, é objeto que você acha bonito ou é imagem que você reverencia? As duas respostas são legítimas e mudam o cuidado. Se for a segunda, a peça pede um lugar próprio, limpo, mais alto que a linha da cintura e de preferência perto da altura dos olhos, com parede ou superfície firme atrás, e não dividindo prateleira com controle remoto e cabo de carregador. Se for a primeira, os costumes de respeito continuam valendo por educação com quem entra na sua casa, e custam nada.
No apartamento brasileiro de quarenta e cinco metros quadrados, os endereços que funcionam são poucos e óbvios. A estante da sala, numa prateleira acima da cintura. O aparador da entrada, virado para dentro, de modo que a figura receba quem chega em vez de encarar a porta fechada. Um canto tranquilo do quarto de estudo ou do canto de leitura. Pela escola do Chapéu Negro, o material conta como Terra, que é o elemento do que assenta e do que sustenta, e isso combina especialmente com o miolo do cômodo, que é a casa da Saúde, e com o canto da esquerda na mesma parede da porta, que é a do Conhecimento e do silêncio.
O cuidado que sustenta tudo isso é banal e é o que quase ninguém faz: limpar. Tirar o pó uma vez por semana, conferir se a peça não ficou torta ou espremida por causa da última arrumação, e manter livre o espaço em volta. Para quem não é budista, isso é praticamente a prática inteira, e ela é gratuita. Numa casa em que a imagem está limpa e num lugar decidido, nenhuma outra regra desta página precisa ser cobrada.
O que não fazer
O chão é o primeiro item, e vale para qualquer imagem religiosa: a peça não fica no piso, encostada na parede à espera de um lugar. Junto com ele vem o banheiro, incluindo a estatueta na borda da banheira e a que fica de frente para a porta do banheiro aberta, situação comum em suíte de apartamento pequeno. E vem também o uso doméstico irônico, que é o que mais aparece em loja de decoração: buda porta papel higiênico, buda cinzeiro, buda abridor de garrafa. Isso não é assunto de superstição, é assunto de consideração com quem entra na sua casa e enxerga ali uma imagem sagrada.
Depois vêm os cuidados de posição, que são de bom senso. Figura virada para a parede, espremida atrás do micro-ondas ou coberta por pilha de papel deixou de estar num lugar e passou a estar num depósito. Vela acesa apoiada na peça, ou perto dela, pede a mesma cautela que qualquer vela pede em qualquer lugar, e essa cautela é de bombeiro e não de feng shui: chama não fica sozinha num cômodo nem perto de cortina. Estatueta rachada ou lascada entra na lista das coisas quebradas da casa, e a escola trata isso como pequena decisão adiada.
E existe o que não fazer com a boca, não com o objeto: apresentar a figura como amuleto que dá retorno. Não jogue no lixo comum a peça de que você quer se desfazer, porque isso magoa gente que você talvez nem saiba que se importa. Doe, dê a quem goste, ofereça a um centro budista, que costuma aceitar. Se você comprou achando que era o Buda histórico e agora se sente enganado pela loja, a decisão continua sendo sua, e nenhuma delas precisa ser tomada hoje.
O que ele faz e o que ele não faz
Nenhuma estatueta muda o que acontece com você, e vale repetir isso mesmo numa página escrita com respeito religioso. O costume de esfregar a barriga da figura para pedir sorte circula muito no Brasil e é convenção recente de comércio, não doutrina budista, e a tradição séria não promete retorno por gesto nenhum. Na leitura do budismo, aliás, a graça de Budai é justamente o contrário do acúmulo: ele é lembrado por ser alguém que carregava um saco e ia distribuindo o que tinha.
O que sobra é honesto e não é pouco. Uma imagem escolhida de propósito, posta num lugar limpo e decidido, funciona como lembrete diário de alguma coisa que a pessoa quis marcar, e lembrete diário é uma tecnologia doméstica antiquíssima. Para quem pratica, ela cumpre função religiosa e nem precisa desta página. Para quem não pratica, ela pode continuar sendo um objeto bonito com uma história bem melhor do que a loja contou.
A última verdade é sobre proporção, e ela vale para toda esta família de páginas. Nenhuma peça comprada substitui a porta que abre inteira, a lâmpada trocada, o caminho livre entre a entrada e a cozinha e a torneira consertada. A escola do baguá é hierárquica: primeiro o que funciona, depois a luz, e só então o objeto. Se a sua casa está em ordem e você quer uma imagem na estante porque gosta dela, essa é uma decisão perfeitamente boa, e é bom que ela seja tomada sabendo quem está representado ali.
Você sabia?
O nome Budai quer dizer, ao pé da letra, saco de pano, e não é título nem honraria: é o apelido de um monge andarilho pelo objeto que ele carregava nas costas. A tradição conta que ele percorria vilarejos com aquele saco e ia distribuindo o que encontrava, e que as crianças o seguiam pelas ruas justamente por isso. Só na hora da morte, segundo as histórias que circularam depois, ele teria deixado entender que era manifestação de Maitreya, o buda do futuro, aquele que segundo a tradição ainda não chegou. Vale deixar essa parte assentar: a figura mais associada no Ocidente à sorte imediata representa, na tradição de origem, precisamente o que ainda está por vir, o que ainda não é. E a barriga descoberta, que o comércio transformou em símbolo de fartura, aparece nas representações antigas como sinal de outra coisa, de alguém que não tinha nada a esconder e nada a guardar.
As providências, na ordem de impacto
- 1Decida hoje o estatuto da imagem que está na sua casa: objeto que você acha bonito ou imagem que você reverencia. Todo o resto desta página depende dessa resposta.
- 2Tire a peça do chão, se ela estiver lá, e leve para uma superfície firme acima da linha da cintura.
- 3Vire a figura para dentro do cômodo. Imagem de costas para a sala ou encarando a parede não está num lugar, está numa sobra de espaço.
- 4Passe um pano na peça e libere dez centímetros em volta dela. Limpeza semanal é praticamente a prática inteira para quem não é budista.
- 5Se a estatueta está no banheiro ou de frente para a porta dele, mude de cômodo hoje. Leva um minuto e é o ajuste mais citado da tradição.
- 6Se você quer se desfazer da peça, escolha doar, dar a alguém que goste ou oferecer a um centro budista, em vez do lixo comum.
O elemento Terra por trás disso
Elemento
土 Terra
Cores
amarelo-terroso, marrom, bege e ocre
Materiais
cerâmica, argila, pedra, tijolo, tapete grosso
Sinal de excesso
tudo fica pesado e lento, dá preguiça de sair e as decisões arrastam
As áreas do baguá que este assunto toca
Grátis, sem cadastro
Descubra em 15 perguntas o que a sua casa está pedindo primeiro
Quinze perguntas de sim ou não sobre a porta, a luz, o caminho e o que está quebrado. No fim vem a sua lista, em ordem de impacto, e quase tudo se resolve sem comprar nada.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
O buda gordo e sorridente é o Buda mesmo?
Onde é o melhor lugar para deixar uma imagem de buda em casa?
Posso ter uma imagem de buda mesmo não sendo budista?
Esfregar a barriga da estatueta dá sorte?
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Cada uma abre a leitura completa, do mesmo tamanho desta.