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Os objetos da tradição, separados do folclore de loja

Gato da sorte: ele é japonês, e isso muda tudo

O gato de braço em movimento que você vê em restaurante, salão e loja de bairro chama maneki-neko, nasceu no Japão do período Edo e não é objeto de feng shui, que é uma disciplina chinesa. Isso não invalida nada: milhões de brasileiros têm um, ele é bonito, tem história de verdade por trás e continua fazendo muito bem o trabalho para o qual foi criado. Só muda o que se pode esperar dele e onde ele fica melhor, e é disso que esta página trata, com a leitura de material que a escola do Chapéu Negro de fato usa.
Ele não está acenando adeus. Está chamando você para dentro, no gesto japonês que o Ocidente lê ao contrário.

O princípio, antes da receita

Vale começar pelo mal-entendido mais bonito desse objeto, porque ele explica o resto. Para olho ocidental, o gato parece estar dando tchau: a palma virada para frente, os dedos descendo. No Japão, esse é justamente o gesto de chamar alguém para perto, feito com a palma para baixo e os dedos abanando na direção do próprio corpo. O nome já diz isso, maneki quer dizer aquele que convida, e neko quer dizer gato. Ou seja, a peça inteira é um convite congelado em cerâmica, apontado para quem está do lado de fora.

Entendido o gesto, entende-se o endereço. Um objeto que existe para captar quem passa foi feito para vitrine, balcão e porta de entrada, e é exatamente ali que ele aparece no Japão desde o século 19. Não é acaso comercial: um ponto de movimento junto à porta prende o olho de quem chega antes de qualquer outra coisa do ambiente. A escola do Chapéu Negro usa esse mesmo princípio quando indica movimento perto da entrada, e é o único ponto em que as duas tradições, que nasceram em países diferentes e não se misturam, apontam para o mesmo lugar da casa.

A separação precisa ficar clara, e é ela que quase nenhum site brasileiro faz. Feng shui é chinês, trabalha com baguá, cinco elementos e leitura de espaço. O maneki-neko é japonês, é objeto de folclore comercial e não aparece em manual chinês nenhum. Misturar sistemas sem perceber é o mesmo problema de usar duas escolas de baguá na mesma planta: você perde a capacidade de avaliar o que mudou e por quê. Dá para ter os dois na mesma casa com o maior prazer, desde que você saiba qual é qual.

Onde ele fica e como se usa

Se você tem comércio, a resposta é a mais fácil deste portal: balcão, vitrine ou perto do caixa, virado para a porta, na altura dos olhos de quem entra. Ele foi desenhado para isso e cumpre bem, porque um objeto com movimento junto à entrada é a primeira coisa que o olho registra. Numa loja de rua ou num salão de bairro, ele resolve um problema real de sinalização por menos que qualquer outra solução de vitrine.

Em casa, a leitura muda de vocabulário. Pela escola do Chapéu Negro, a peça entra como material: cerâmica é Terra, o dourado do colar e da moeda é Metal, e o braço que se mexe é movimento, que é uma categoria à parte e vale mais que a cor. O lugar coerente é o aparador da entrada ou a prateleira do hall, virado para a porta, de modo que ele veja quem chega em vez de encarar a parede. Se o seu apartamento não tem hall, o que é a regra em planta de quarenta e cinco metros quadrados, serve a primeira superfície que aparece depois da porta, nem que seja o móvel do rack. Muita loja manda pôr no canto do dinheiro, e a leitura de elemento não sustenta bem essa indicação, pelo motivo que este portal explica na página da pirita.

Depois vem a parte que ninguém escreve e que é a mais importante: manutenção. Um objeto de movimento que parou de se mexer deixou de ser o que era e virou enfeite empoeirado com pilha vencida dentro. A escola lê o que está quebrado como uma pequena decisão adiada, e essa regra vale para o gato exatamente como vale para a lâmpada queimada. Troque a pilha, limpe a poeira do braço, confira se o modelo solar está pegando luz de verdade. Se ele parou há dois anos e você não trocou, a pergunta honesta é se você ainda quer aquilo ali.

O que não fazer

Não conte com ele para fazer o trabalho que é do seu negócio ou da sua casa. Essa é a parte que precisa ser dita sem rodeio: nenhuma estatueta muda faturamento, e quem afirma o contrário está vendendo a estatueta. Se a loja está vazia, o gato no balcão não é a variável a mexer, e a escola do baguá diria a mesma coisa por outro caminho, mandando você olhar primeiro para a porta que emperra, para a lâmpada queimada da vitrine e para o caminho entupido entre a entrada e o caixa.

Evite o banheiro, a área de serviço e o chão. Não por proibição mística, e sim por coerência: um objeto que existe para ser visto por quem chega não tem função nenhuma no cômodo em que ninguém entra e no ponto em que ninguém olha. Pela mesma lógica, gato virado para a parede ou espremido atrás do micro-ondas deixou de fazer o que veio fazer. E não empilhe: três gatos em cima do balcão não triplicam nada, apenas dividem a atenção que um só tinha inteira, e a escola trata acúmulo de objeto igual em qualquer cômodo.

O último item é de honestidade cultural. Não apresente o maneki-neko como tradição chinesa nem como cura de feng shui, principalmente se você trabalha com o assunto. É informação errada que circula há décadas no Brasil, e corrigir isso não tira o encanto do objeto, dá encanto novo: ele deixa de ser um enfeite genérico de sorte oriental e passa a ser uma peça com país, com século e com duas lendas de origem que valem ser contadas para quem perguntar.

O que ele faz e o que ele não faz

O efeito verificável do gato é publicitário, e é ótimo. Movimento junto à porta captura o olhar, cor forte diferencia a vitrine da vizinha, e um objeto reconhecível vira ponto de referência para o cliente que volta. Isso não é pouco, é design de ponto comercial funcionando exatamente como foi projetado no Japão do século 19, muito antes de a palavra marketing existir por aqui.

A parte simbólica também tem valor honesto, desde que fique no tamanho certo. Um objeto escolhido de propósito e posto num lugar decidido funciona como lembrete do que você combinou consigo mesmo, e quem abre a loja todo dia às oito da manhã sabe que lembrete diário conta. A tradição comercial japonesa associa a pata direita levantada a dinheiro e a pata esquerda a pessoas e clientes, e essa distinção é bonita de conhecer e varia conforme a região e o fabricante. É costume, e costume não é mecanismo.

O que muda de verdade na sua casa é outra coisa, e ela é gratuita: você passou a olhar para a entrada. Reparar no aparador do hall, no que está em cima dele, na poeira, na luz que chega ali e no que a pessoa vê nos primeiros dois segundos depois de abrir a porta é o começo de qualquer trabalho sério de feng shui. Se o gato foi o motivo de você olhar para aquele metro quadrado pela primeira vez em anos, ele já pagou o que custou.

Você sabia?

Existem duas lendas concorrentes de origem, e as duas são ótimas. A primeira é do templo Gotokuji, em Tóquio, e envolve Ii Naotaka, senhor do domínio de Hikone que viveu entre 1590 e 1659: ele passava a cavalo diante do templo quando viu um gato no portão fazendo o gesto de chamar, entrou por curiosidade e escapou de um temporal que caiu logo em seguida. Agradecido, tornou-se protetor do lugar, e o templo virou o santuário do gato que convida. A segunda é do templo Imado, no bairro de Asakusa: uma senhora muito pobre não conseguia alimentar a si mesma e ao gato, e acabou soltando o bichano; naquela noite ele apareceu em sonho pedindo que ela modelasse figuras de barro com a imagem dele, no estilo local de cerâmica, e as vendesse. Venderam mais rápido do que ela conseguia fabricar. Um detalhe fecha a história: os gatos de Gotokuji levantam sempre a pata direita e não seguram moeda nenhuma, o que faz do templo o lugar onde o objeto original é justamente o menos comercial de todos.

As providências, na ordem de impacto

  1. 1Descubra qual pata o seu gato levanta. A tradição comercial japonesa liga a direita a dinheiro e a esquerda a clientes, e saber isso é mais divertido do que obedecer.
  2. 2Vire a peça para a porta. Um objeto que existe para chamar quem chega não pode estar encarando a parede.
  3. 3Troque a pilha hoje se o braço parou. Objeto de movimento parado entra na mesma lista da lâmpada queimada, e a lista cobra atenção de você todo dia.
  4. 4Passe um pano na peça e no móvel embaixo dela. Poeira em cima do enfeite da entrada é o primeiro recado que a casa dá a quem chega.
  5. 5Se você tem comércio, leve o gato para perto do caixa ou da vitrine, na altura dos olhos, e observe por uma semana se alguém comenta.
  6. 6Olhe os dois primeiros segundos da sua casa. Abra a porta, entre e repare no que aparece primeiro. É o único diagnóstico gratuito desta página.

O elemento Metal por trás disso

Elemento

金 Metal

Cores

branco, cinza, prateado e dourado

Materiais

aço, alumínio, cobre, mármore claro, sino, moeda

Sinal de excesso

o ambiente fica frio e cortante, bonito de foto e desconfortável de ficar

As áreas do baguá que este assunto toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Gato da sorte é feng shui?
Não é, e essa é a informação central desta página. O maneki-neko é japonês, nasceu no período Edo e pertence ao folclore comercial do Japão, enquanto feng shui é uma disciplina chinesa que trabalha com baguá, cinco elementos e leitura de espaço. As duas coisas convivem numa casa sem problema nenhum, mas não são a mesma tradição e não se explicam uma pela outra. Quem vende o gato como cura milenar chinesa está misturando dois países e uns bons séculos de distância.
Pata direita ou pata esquerda, qual eu devo escolher?
Na tradição comercial japonesa, a pata direita levantada é associada a dinheiro e boa fortuna, e a esquerda a pessoas e clientes, com as duas levantadas somando os dois sentidos. A leitura varia conforme a região e o fabricante, então trate como costume e não como regra fechada. Curiosamente, os gatos do templo Gotokuji, um dos berços do objeto, levantam sempre a direita e não seguram moeda nenhuma. Escolha o que você achar mais bonito: o objeto não muda de comportamento por causa disso.
As cores do gato significam alguma coisa?
No comércio japonês, sim, e existe uma tabela de significados que varia bastante entre fabricantes: o tricolor é o clássico, o branco e o dourado aparecem ligados a fortuna, o preto a afastar azar e o vermelho à saúde. Isso é convenção de mercado, é recente perto da idade do objeto e não tem lastro em escola nenhuma. Pela leitura de material da escola do Chapéu Negro, o que conta é outra coisa: dourado e branco são Metal, a cerâmica é Terra, e o braço em movimento vale mais que qualquer cor.
O braço do meu gato parou de se mexer. Preciso trocar?
Precisa resolver, e resolver pode ser trocar a pilha, limpar o mecanismo ou pôr o modelo solar num lugar que receba luz de verdade. A escola trata objeto quebrado como pequena decisão adiada, e o custo dele não é místico: é a atenção que você gasta toda vez que passa e registra que aquilo está parado. Se o braço não volta e a peça continua bonita, ela vira um enfeite comum, e tudo bem. Se ela não é mais bonita para você, o destino honesto é doar.

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