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A planta lida pelo formato da folha, antes da espécie

Samambaia no feng shui: a planta que suaviza canto duro, e o que são aquelas bolinhas embaixo da folha

A samambaia é a planta de varanda brasileira por excelência, aquela pendurada no macramê, e o feng shui tem um uso bem específico para ela que quase ninguém explica. O que a escola lê primeiro é o formato da folha: aqui não há lâmina nem disco, há uma fronde inteira recortada em dezenas de folíolos que se mexem com qualquer corrente de ar. Isso faz dela a ferramenta certa para amaciar aresta, disfarçar quina e ocupar canto duro, e a ferramenta errada para quem quer firmeza e direção. É atóxica para gato e cachorro, o que a coloca num grupo pequeno e valioso, e é exigente em umidade, o que explica por que a sua morreu no inverno.
Ela não aponta para lugar nenhum, e é exatamente para isso que serve: onde a casa tem canto duro, uma coisa que balança resolve.

O que ela é de verdade

Samambaia não é planta com flor e nunca foi. Ela pertence a um grupo muito mais antigo, com cerca de trezentos e sessenta milhões de anos nas costas, que já cobria a terra bem antes de existir a primeira flor e antes do primeiro dinossauro. Sem flor, sem fruto e sem semente: a reprodução é por esporos, aqueles pozinhos marrons que aparecem organizados em bolinhas embaixo das folhas. O nome do gênero conta a história por dentro, porque Nephrolepis vem do grego para rim mais escama, uma referência à pelinha em forma de rim que cobre cada grupo de esporos.

A Nephrolepis exaltata é americana, de mata úmida tropical e subtropical, e ocorre naturalmente do sul dos Estados Unidos até a América do Sul, incluindo o Brasil. No lugar de origem ela cresce no chão da mata ou agarrada em tronco, na sombra, com o ar sempre carregado de umidade. Guarde essas três condições, porque são exatamente as que faltam num apartamento com ar-condicionado ligado e janela fechada, e são elas que explicam a folhinha marrom caindo no chão da sala.

A versão que você compra, a de frondes muito cheias e curvadas, é um acaso de 1894. Um lote de samambaias comuns enviado a um florista de Boston trazia uma planta diferente das outras, mais densa e mais graciosa, e o cultivo daquela única mutação deu origem à variedade que o mundo inteiro vende até hoje como samambaia-de-boston. Ou seja, todas essas plantas iguais nas varandas do Brasil descendem de um mesmo indivíduo esquisito que apareceu numa remessa por engano.

O que a tradição faz com ela

O repertório clássico chinês não trata desta espécie, que é americana, e trata de forma, que é o que interessa aqui. A folha recortada, dividida em muitos folíolos pequenos e leves, é lida como energia de movimento: qualquer deslocamento de ar mexe a planta inteira, e a escola gosta disso em lugar onde o ar parece parado, canto sem uso, corredor sem janela, vão atrás da porta. É o oposto exato da folha em lâmina, que marca limite, e é diferente também da folha redonda, que acolhe e assenta.

O segundo uso é geométrico e resolve um problema concreto de apartamento brasileiro. Uma samambaia pendurada num canto de teto, ou apoiada no alto de um armário, quebra o encontro duro entre duas paredes e o forro, aquele ângulo reto que o olho registra sem perceber. É o mesmo raciocínio que faz a tradição pedir folha larga na frente de quina de coluna, aplicado três metros mais acima. Numa sala de teto baixo, isso vale mais do que qualquer objeto na estante.

Nos cinco elementos ela é Madeira, com uma nuance: por ser leve, arqueada e sem verticalidade, ela é uma Madeira macia, que não empurra o cômodo para cima. É a escolha certa para quem quer verde em ambiente pequeno sem aumentar a sensação de bagunça, e é também por isso que ela combina tão bem com banheiro e área de serviço, cômodos em que ninguém quer nada impondo presença.

Onde ela vai na sua casa

Pense em altura antes de pensar em canto, porque essa planta cai e não sobe. Ela pede vaso suspenso, prateleira alta, alto de armário ou suporte de pé, e é justamente essa característica que a torna a solução mais barata para os pontos que ninguém sabe o que fazer: o canto de teto da sala, o vão morto sobre a geladeira, a parte de cima da estante em que hoje há uma caixa. Nenhum desses lugares exige furar parede, porque suporte de chão de três pés e gancho adesivo de teto para vaso leve existem, sempre conferindo o limite de peso na embalagem.

Pelo baguá, faça a divisão em nove partes com você entrando pela porta principal: o meio da parede da esquerda é a casa da Família e o canto mais distante à esquerda é a Prosperidade, as duas de Madeira, com verde na paleta. O miolo do cômodo é a Saúde, de Terra, e recebe bem qualquer planta viva. Se algum desses pontos coincidir com um canto alto e sombreado, é ali. Em apartamento de quarenta e cinco metros, a Família costuma cair na parede lateral da sala, que é onde a samambaia pendurada fica mais bonita e menos no caminho.

Os dois cômodos que agradecem de verdade são o banheiro com janela e a área de serviço, e o motivo é clima, não simbolismo: banho quente e roupa lavada mantêm a umidade alta o dia inteiro, que é exatamente o que ela procura. Uma samambaia pendurada num banheiro com janela é, provavelmente, a planta mais fácil de manter viva num apartamento brasileiro, e é um dos raros casos em que o cômodo de que ninguém gosta é o melhor endereço da casa.

Onde ela não vai

Debaixo do ar-condicionado é o erro fatal, e ele é comum porque o aparelho costuma ficar justamente no canto alto onde a planta fica bonita. Ar-condicionado tira umidade do ambiente por definição, e um jato constante em cima de uma planta de mata úmida seca a fronde de fora para dentro em poucos dias, começando pelas pontas. O mesmo vale para o ventilador de teto ligado à noite toda e para a frente do exaustor.

Sol direto está fora, inclusive o da manhã atrás do vidro. Folhinha de samambaia é fina, sem cera protetora, e queima muito rápido: primeiro fica amarelo-clara, depois marrom seca, e não volta. Parapeito de janela virada para o poente é a pior escolha possível. Se a sua varanda fechada com vidro pega sol em alguma parte do dia, a samambaia vai no fundo dela, e não no vidro.

E tem um endereço que é ruim por motivo doméstico e não botânico: o meio de uma passagem estreita, na altura da cabeça. A fronde solta folhinha marrom o tempo todo, é da natureza da planta, e um vaso suspenso no corredor de um metro e vinte significa varrer todo dia, esbarrar toda semana e cansar da planta em um mês. Prefira o canto onde ela pode se abrir sem que ninguém a atravesse. Sobre dose, a mesma regra de sempre: duas samambaias grandes numa varanda de dois metros criam uma cortina verde que tira a luz do resto, e Madeira demais tem sinal próprio, a sensação de que tudo está sempre começando e nada nunca termina.

Como manter viva, que é o que decide tudo

Umidade primeiro, rega depois, e nessa ordem. A causa número um de samambaia morta em apartamento é ar seco, não falta de água na terra: você rega direitinho e ela vai secando pelas pontas mesmo assim. O jeito de graça de resolver é agrupar plantas próximas umas das outras, porque cada folha transpira e o conjunto cria um bolsão mais úmido, e pôr o vaso sobre um prato largo com pedrinhas e um dedo de água, sem que o fundo do vaso encoste na água. Borrifar ajuda pouco e por pouco tempo, ao contrário do que dizem, porque a umidade evapora em minutos.

A terra fica sempre levemente úmida, nunca encharcada e nunca seca por completo. No verão brasileiro isso pode significar molhar dia sim, dia não, principalmente em vaso suspenso, que seca muito mais rápido do que vaso no chão por causa do ar circulando em volta. Um sinal fácil: se o vaso ficou visivelmente leve ao levantar, está na hora. Uma vez por mês vale mergulhar o vaso inteiro num balde por quinze minutos, o que reidrata a terra que já secou demais e não absorve mais água pela superfície.

Agora a informação que salva mais samambaia do que qualquer outra. Aquelas bolinhas marrons alinhadas embaixo das folhas não são praga, não são cochonilha e não precisam de veneno: são os soros, os pacotes de esporos, ou seja, o aparelho reprodutivo da planta. Toda samambaia adulta e saudável produz. Muita gente pulveriza inseticida achando que está tratando doença, o que estressa a planta sem motivo nenhum. Praga de verdade nesta espécie costuma aparecer como fio de teia fina entre os folíolos, que é ácaro e é sinal de ar seco demais, e o primeiro tratamento é um banho de água na folha e mais umidade em volta.

Você sabia?

Aquele vaso escuro e peludo de xaxim, que era o companheiro obrigatório da samambaia na varanda dos anos 1970 e 1980, hoje é ilegal no Brasil. Ele não era feito de fibra qualquer: era serrado do tronco da samambaia-açu, a Dicksonia sellowiana, uma samambaia gigante de Mata Atlântica que cresce em forma de árvore e leva décadas para ganhar alguns metros de altura. Cada vaso vendido significava uma planta inteira derrubada, e como a espécie cresce devagar e não rebrota do toco, as populações despencaram até ela entrar na lista oficial de espécies ameaçadas, com a extração e o comércio proibidos. Se você tem um xaxim antigo herdado da família, ele é legalmente um item do passado e vale mais como peça de memória do que como vaso. Os substitutos de fibra de coco funcionam igual ou melhor, custam menos e não derrubam nada.

A ficha da planta

Não tóxica

A ASPCA lista a samambaia-americana como não tóxica para gato e cachorro, e ela é uma das plantas mais seguras que existem para casa com bicho e com criança. Um aviso importante de nome, porque salva vida: a chamada samambaia-de-espargo, ou aspargo-pluma, não é samambaia coisa nenhuma, é Asparagus, e essa é tóxica. Se a sua tem hastes finas e espetadas com bolinhas vermelhas, não é esta planta.

Nome científico

Nephrolepis exaltata

Também chamada de

samambaia-americana, samambaia-paulista, renda-portuguesa e feto

Folha

recortada, que movimenta, agita o ar parado

Elemento

木 Madeira

Luz

Sombra clara e claridade indireta. Sol direto, mesmo o da manhã atrás do vidro, torra a folhinha em poucas horas.

Rega

Nunca deixe secar por completo. Terra sempre levemente úmida, o que no calor pode significar molhar dia sim, dia não.

Se você não achar esta, servem também

Peperômia pendente

Cai igual, ocupa o mesmo canto alto e perdoa esquecimento de semanas, o que a samambaia não faz. Também atóxica para gato e cachorro.

Rhipsalis

Aquela que desce em fios verdes de vaso pendurado. É cacto brasileiro sem espinho, aguenta muito mais ar seco e faz o mesmo trabalho de amaciar canto alto.

Jiboia

A mais fácil de todas para vaso suspenso e a que melhor aguenta banheiro escuro. A ressalva é a segurança: tem oxalato de cálcio e irrita boca de pet e de criança.

As áreas do baguá que esta planta toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

O que são as bolinhas marrons embaixo das folhas da samambaia?
São os soros, que guardam os esporos da planta, ou seja, é como a samambaia se reproduz. Não são cochonilha, não são doença e não precisam de nenhum veneno, e toda samambaia adulta e saudável tem. Uma boa forma de conferir: os soros ficam em fileiras regulares, sempre na mesma posição em todas as folhinhas, enquanto praga aparece espalhada de qualquer jeito. Se houver fio de teia entre os folíolos, aí sim é ácaro, sinal de ar seco, e o primeiro tratamento é banho de água na folha e mais umidade em volta.
Por que minha samambaia está secando nas pontas?
Quase sempre é ar seco, e não falta de rega. Ela é planta de mata úmida e o apartamento fechado com ar-condicionado é um deserto para ela, principalmente no inverno. Tire de perto do jato do aparelho e do ventilador, agrupe com outras plantas para criar um bolsão úmido, e ponha o vaso sobre um prato largo com pedrinhas e um dedo de água, sem que o fundo encoste. Se a terra também estiver secando por completo entre uma rega e outra, aumente a frequência, lembrando que vaso suspenso seca muito mais rápido que vaso no chão.
Samambaia é tóxica para gato e cachorro?
A samambaia-americana, a Nephrolepis exaltata, está na lista de plantas não tóxicas da ASPCA, e é uma das opções mais seguras para casa com bicho e com criança. Existe uma armadilha de nome que vale conhecer: a chamada samambaia-de-espargo ou aspargo-pluma, aquela de hastes finas e espetadas que às vezes dá bolinhas vermelhas, não é samambaia, é do gênero Asparagus, e essa é tóxica para pet e ainda irrita a pele de quem manuseia. Se você tem dúvida sobre qual é a sua, olhe a folha: samambaia de verdade tem fronde inteira dividida em folíolos achatados.
Posso ter samambaia dentro de casa ou ela só vive na varanda?
Vive dentro de casa sem problema, desde que o lugar tenha claridade indireta e não seja no caminho do ar-condicionado. Os melhores cômodos internos são o banheiro com janela e a área de serviço, porque a umidade é alta o dia inteiro e é isso que ela procura. Na sala, prefira canto alto longe de janela ensolarada e aceite que ela vai soltar folhinha marrom de vez em quando, o que é normal na espécie. Vaso suspenso e prateleira alta funcionam melhor que vaso no chão.
Ela ficou toda seca. Dá para recuperar?
Muitas vezes dá, porque a parte viva fica na base. Corte todas as frondes secas rente ao vaso, sem dó, mergulhe o vaso inteiro num balde de água por quinze ou vinte minutos para reidratar a terra, deixe escorrer bem e ponha num lugar sombreado e úmido. Se houver rizoma vivo lá dentro, folhas novas enroladas em forma de báculo começam a aparecer em poucas semanas. Se depois de um mês não vier nada, a planta se foi mesmo, e vale a regra da escola: retire hoje, porque vaso morrendo à vista é o oposto do que uma planta deveria estar fazendo naquele canto.

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