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A planta lida pelo formato da folha, antes da espécie

Espada de São Jorge no feng shui: por que ela vai na entrada e nunca na cabeceira

Se existe uma planta que a tradição manda para a porta e a botânica confirma que sobrevive ali, é esta. O feng shui lê o formato da folha antes de ler o nome da espécie, e a folha daqui é lâmina: rígida, vertical, de ponta afiada. Na escola do Chapéu Negro, que orienta o baguá pela porta de entrada e é a que este portal adota, esse formato é energia que corta e marca limite, então ela vai onde se quer passagem e firmeza, nunca onde se quer que alguém se instale e fique. É também uma das pouquíssimas plantas que aguentam o corredor sem janela do apartamento brasileiro. E é tóxica para gato e cachorro, coisa que a floricultura raramente diz.
Uma lâmina apontada para o sofá continua sendo uma lâmina, mesmo sendo verde.

O que ela é de verdade

Por baixo do apelido brasileiro, é uma dracena africana. Ela cresceu por milênios na África ocidental, da Nigéria ao Congo, em terreno pedregoso e seco, e cada uma das características que fazem dela a planta perfeita para apartamento vem dali. A folha é grossa e cheia de água porque no lugar de origem chove pouco e mal. O rizoma, aquele caule gordo que corre por baixo da terra e de onde as folhas brotam, é o tanque de reserva. E ela faz uma coisa que a maioria das plantas de sala não faz: abre os poros da folha à noite em vez de abrir de dia, um jeito de respirar que os botânicos chamam de metabolismo ácido das crassuláceas e que serve para perder o mínimo de água possível no calor. É por isso que ela consegue viver com quase nada de luz e quase nada de rega.

Até 2017 ela se chamava Sansevieria trifasciata, e é assim que ainda vem escrito na etiqueta de metade dos vasos vendidos no Brasil. Naquele ano, o sequenciamento de DNA mostrou que o gênero Sansevieria estava inteiro encaixado dentro de Dracaena, e a botânica fez a fusão. Consequência divertida: a sua espada de são jorge, o bambu da sorte do potinho com pedra e o pau-d'água da sala do dentista são, hoje, parentes do mesmo gênero.

A folha não é folha de enfeite, é fibra. Nas regiões de origem, e depois na Índia e na Indonésia, a espécie foi cultivada para tirar dela um fio resistente usado em corda de arco, o que rendeu à planta o nome inglês de cânhamo de corda de arco. Se você já tentou rasgar uma folha ao meio com a mão, sabe que a fibra está lá.

O que a tradição faz com ela

Duas tradições diferentes chegam ao mesmo lugar por caminhos que nunca se cruzaram, e vale conhecer as duas. A primeira é a chinesa clássica, que não fala desta espécie, porque a espécie é africana e chegou tarde ao repertório. O que a tradição chinesa fala é de forma: ponta viva apontada na direção de quem passa ou de quem fica parado é lida como pequena flecha, o sha chi, a mesma coisa que faz a escola pedir uma folha larga na frente da quina do corredor. Uma touceira de lâminas verticais é essa geometria repetida trinta vezes, e daí sai o endereço: entrada, passagem, canto de limite.

A segunda tradição é brasileira e é sincrética. O nome popular vem da lâmina que lembra a espada de São Jorge, figura associada a Ogum nas religiões de matriz africana, e o costume de plantar a touceira no portão, na entrada do prédio ou ao lado da porta é antigo e continua vivo em cidade grande. Este portal registra o costume como costume, sem promessa: o que um vaso escolhido de propósito faz é ficar visível todo dia no ponto em que você decidiu alguma coisa, e isso não é pouco.

Nos cinco elementos, planta viva é Madeira, o que cresce, e a espada reforça a Madeira duas vezes: pela matéria e pela forma, já que tudo o que é alto e vertical entra como Madeira também. Quem trabalha com a escola tradicional, a da bússola, procuraria o Leste e o Sudeste para pôr Madeira. Aqui a orientação é pela porta, e quando as duas escolas discordam este portal segue a da porta e diz que está seguindo. Os mesmos cinco elementos também são lidos na pessoa, e aí já é outro sistema, o do mapa chinês, o BaZi, montado a partir de data, hora e lugar de nascimento: o feng shui cuida do espaço, e o BaZi de quem vive nele.

Onde ela vai na sua casa

Comece de fora. Saia para o lado de fora da sua porta principal, entre olhando para dentro e divida o que você vê em nove partes, três por três: a faixa central da parede da porta é a casa da Carreira, o canto da esquerda nessa mesma parede é o Conhecimento e o canto da direita é o dos Amigos protetores. A espada trabalha bem em qualquer um dos três, porque os três são zona de chegada e de partida, e ela é planta de chegada e de partida. No apartamento de quarenta e cinco metros, isso quase sempre significa o vão entre a porta e o sapateiro, ou aquele meio metro morto ao lado da porta em que hoje só há um gancho de chave.

O segundo endereço é geométrico e resolve um problema real: a quina de parede que avança no corredor de um metro e vinte. Um vaso alto encostado nela quebra a linha da aresta e o seu olho passa a ver folha em vez de canto. Repare que aqui o formato pontudo não atrapalha, porque ninguém fica parado num corredor: passa. O terceiro é o hall dos elevadores da sua própria casa, ou seja, a entradinha antes da sala, onde a tradição gosta de alguma coisa que segure a corrida entre a porta e o resto do apartamento.

Dois detalhes de altura, e são eles que separam quem entendeu de quem copiou a foto. Primeiro: a ponta da folha nunca deve ficar na altura do rosto de quem passa nem apontada para o assento do sofá, para a cadeira da mesa ou para a cama. Se o vaso é baixo e a touceira é alta, gire e afaste até que as pontas fiquem acima ou abaixo da linha do olhar. Segundo: vaso de barro ou cerâmica pesado, que é material de Terra, ancora a peça no chão e resolve o tombo do vaso plástico, que numa casa com criança e cachorro acontece uma vez por mês.

Onde ela não vai

Cabeceira de cama é o erro que a internet brasileira mais repete, e ela repete porque a planta aparece em toda lista de espécie que aguenta quarto escuro. As duas coisas são verdade separadas e falsas juntas: ela aguenta o quarto, e mesmo assim uma touceira de pontas a trinta centímetros da cabeça de quem dorme é justamente a leitura que a escola evita. Se você quer verde no quarto, ponha a espada na parede oposta à cama, ou troque por uma folha macia. O deslocamento leva dez segundos e é a providência prática desta página.

O segundo endereço ruim é o lado do sofá, na altura do braço de quem senta, e o terceiro é a mesa em que a família come. Nos dois casos as pessoas ficam paradas ali por meia hora ou mais, e é disso que se trata: a escola não implica com a planta, implica com a ponta apontada para quem não vai sair do lugar. O quarto endereço ruim é o chão do corredor estreito quando a casa tem criança que corre, porque a folha é rígida de verdade e o olho da criança fica exatamente naquela altura.

Sobra o motivo que não é simbólico e é o mais importante de todos: onde o gato sobe. Gato adora morder folha comprida, e esta tem saponina. Estante alta não resolve nada com gato, porque estante alta é onde ele mora. O que resolve é escolher um cômodo que ele não frequenta, a varanda fechada com vidro, a área de serviço, o hall de entrada de porta fechada. E vale a regra de dose que vale para tudo nesta escola: três touceiras grandes na mesma sala pequena não são três vezes mais firmeza, são Madeira demais, e Madeira demais na sala tem sinal próprio, tudo parece sempre em obra e nada nunca termina.

Como manter viva, que é o que decide tudo

Regar menos é a instrução inteira. A causa de morte desta espécie em apartamento brasileiro é uma só, água demais, e ela mata pela base: o rizoma amolece, a folha amarela junto da terra e depois tomba inteira, com cheiro azedo. O teste custa nada: enfie o dedo até a segunda falange na terra, e se sair com qualquer umidade, espere mais uma semana. No verão de São Paulo isso dá mais ou menos uma rega a cada vinte dias; num inverno seco de apartamento fechado, pode passar de um mês. Nunca deixe água parada no pratinho, e aqui a razão brasileira vem antes da razão botânica: pratinho com água é criadouro de Aedes aegypti.

Luz é onde as expectativas precisam de ajuste. Ela sobrevive no corredor escuro, e sobreviver não é crescer: naquele canto ela vai ficar do tamanho que está por anos, e tudo bem, é para isso que ela serve ali. Se você quer touceira nova e folha larga, o lugar é claridade indireta forte, tipo dois metros de uma janela grande ou a varanda coberta. Sol direto da tarde através do vidro queima manchas brancas irreversíveis. Um pano úmido nas folhas uma vez por mês tira a poeira, e poeira em folha lisa é mais do que estética: folha empoeirada faz menos fotossíntese.

Um detalhe que quase ninguém conta e que resolve uma frustração comum. Se a sua espada tem a borda amarela e você tentar multiplicar cortando um pedaço de folha e enfiando na água, a muda nova vai nascer inteira verde, sem o amarelo. Não é azar nem erro de técnica: a faixa amarela é uma quimera, ou seja, duas camadas de células geneticamente diferentes empilhadas na mesma planta, e o pedaço de folha só regenera a camada de dentro. Para manter o amarelo é preciso dividir a touceira pelo rizoma, com a planta fora do vaso e uma faca limpa, separando um pedaço que já tenha folha e raiz. Custa zero e é a melhor forma de ganhar vaso novo.

Você sabia?

O Brasil separa as espadas por desenho da folha, e a separação é folclórica, não botânica. A touceira toda verde escura é a espada de são jorge; a que tem a borda amarela costuma ser chamada de espada de santa bárbara; e a cilíndrica, aquela de folhas roliças como lápis, é a lança de são jorge. É a mesma espécie ou espécies muito próximas, rebatizadas pela devoção de quem cultiva, e é um caso bonito de taxonomia popular funcionando em paralelo com a científica. Em Portugal e no mundo de língua inglesa a mesma planta ganhou nome de humor doméstico: língua-de-sogra, mother-in-law's tongue, pela lâmina comprida e afiada. E tem a reviravolta de 2017: o DNA mostrou que Sansevieria era, na verdade, Dracaena, então a espada de são jorge, o bambu da sorte e o pau-d'água passaram todos a ser primos de primeiro grau no mesmo gênero, uma família que ninguém desconfiava que existisse.

A ficha da planta

Tóxica se ingerida

A ASPCA lista a espécie como tóxica para gato e cachorro. As folhas contêm saponinas, e o bicho que morde costuma apresentar salivação, vômito e diarreia. Em criança pequena o quadro é o mesmo em versão leve, ardência na boca e enjoo. Não é planta que mata, é planta que rende madrugada no veterinário, e o conserto é de graça: vaso alto, longe do chão, longe do gato que sobe.

Nome científico

Dracaena trifasciata

Também chamada de

língua-de-sogra, sansevieria, espada-de-santa-bárbara e rabo-de-lagarto

Folha

pontiaguda, que corta, protege e marca limite

Elemento

木 Madeira

Luz

Aguenta canto escuro melhor que quase tudo, mas cresce mesmo é com claridade indireta forte. Sol direto de tarde queima a folha em mancha branca.

Rega

Pouquíssima. Molhe só quando a terra estiver seca até o fundo, o que no verão dá umas três semanas e no inverno pode passar de um mês. Água demais apodrece o rizoma pela base.

Se você não achar esta, servem também

Zamioculca

Aguenta a mesma escuridão e o mesmo esquecimento, com folha oval e macia em vez de lâmina. É a troca certa para quem quer a resistência sem a ponta. Também irrita boca de pet.

Pau-d'água (Dracaena fragrans)

Mesma família, mesma verticalidade, folha comprida e mole que não corta. Fica grande e ocupa canto de sala inteiro, ao preço de precisar de mais claridade.

Lança de são jorge

A prima de folhas roliças. Mesma leitura de limite e mesma resistência, com a vantagem de ocupar menos largura no corredor estreito, e a mesma toxicidade para pet.

As áreas do baguá que esta planta toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Posso ter espada de são jorge no quarto?
Pode, com uma condição de posição. A espécie aguenta a pouca luz do quarto brasileiro sem reclamar, então botanicamente não há problema. O que a escola evita é a ponta apontada para quem fica parado horas no mesmo lugar, e dormindo você fica oito. A solução não custa nada: tire da cabeceira e ponha na parede oposta ou num canto que a cama não enxerga de perto. Se o quarto tem gato, o assunto muda de figura e a planta sai do cômodo, porque a folha é tóxica se mordida.
Espada de são jorge é tóxica para gato e cachorro?
É, e está na lista da ASPCA. As folhas têm saponinas, substâncias que irritam o trato digestivo, e o animal que morde costuma ter salivação, vômito e diarreia. Não costuma ser grave, mas é desconfortável e rende consulta. Em criança pequena o efeito é parecido e mais leve, ardência na boca e enjoo. O ajuste é de lugar, não de descarte: escolha um cômodo em que o bicho não entra, como a varanda fechada ou a área de serviço, lembrando que estante alta não resolve nada com gato.
Ela sobrevive no banheiro sem janela?
Sobrevive por bastante tempo, e é uma das únicas que sobrevivem, mas não cresce. Banheiro sem janela tem umidade a favor e luz contra, e a luz é o fator que manda no tamanho. Duas saídas honestas: deixar ali sabendo que a planta vai ficar parada do jeito que está, ou fazer rodízio, um mês no banheiro e um mês na varanda, que é o truque de quem cuida de planta em apartamento pequeno. Se a lâmpada do banheiro fica acesa várias horas por dia, isso ajuda mais do que parece.
As pontas ficaram marrons e secas. O que é?
Quase sempre é uma de três coisas, e nenhuma exige comprar nada. A primeira é água demais em rega frequente, que apodrece de baixo e seca a ponta lá em cima. A segunda é ar muito seco somado a sol direto no vidro. A terceira surpreende: dracenas são sensíveis ao flúor da água de torneira, e a marca clássica é a ponta marrom com uma borda amarela em volta. Deixar a água descansando de um dia para o outro resolve o cloro, mas não resolve o flúor, então quem quer eliminar a variável usa água filtrada ou de chuva. Corte a parte seca com tesoura, seguindo o formato da ponta, e a folha continua bonita.
É verdade que ela purifica o ar de casa?
Essa frase vem de um estudo da NASA dos anos 1980 feito em câmaras seladas de laboratório, e ela viajou muito longe da fonte. Nas câmaras, as plantas de fato absorveram compostos do ar. Numa sala com porta, janela e gente entrando e saindo, a conta muda: cálculos posteriores mostraram que seriam necessárias dezenas de plantas por metro quadrado para o efeito se aproximar do que uma janela aberta por dez minutos faz de graça. A espada é uma planta excelente por outros motivos, e é honesto ficar neles.

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