A planta lida pelo formato da folha, antes da espécie
Zamioculca no feng shui: a planta do canto escuro, e a verdade sobre o boato de que ela é perigosa
Ela é a única que resolve o canto que não tem janela, e o pior que você pode fazer por ela é cuidar demais.
O que ela é de verdade
É uma arácea do leste da África, de Zanzibar, do Quênia e da Tanzânia até o leste da África do Sul, onde vive em terreno seco e sombreado sob mata rala e passa a estação inteira sem chuva. O gênero tem uma espécie só no mundo inteiro, o que é raríssimo, e o nome vem da parecença das folhas com as de uma Zamia, um tipo de cicadácea, planta de linhagem bem mais antiga com a qual ela não tem nenhum parentesco.
Aquilo que você chama de galho não é galho. Cada haste que sai da terra é, na verdade, uma única folha composta, e as dezenas de folhinhas ovais e brilhantes ao longo dela são folíolos. A planta não tem caule aéreo nenhum: tudo o que existe acima da terra é folha. Embaixo há rizomas grossos, quase batatas, que armazenam água e amido, e é dali que vem toda a resistência dela. Cada folíolo, além disso, é coberto por uma cutícula cerosa espessa que reduz a perda de água, e a espécie ainda faz o truque das plantas de deserto, abrindo os poros à noite em vez de abrir de dia, o que é bem incomum entre aráceas.
Somando as três coisas, reserva subterrânea, cera na folha e respiração noturna, você tem um vegetal projetado para atravessar seca. É por isso que a instrução de cuidado é quase toda pela negativa: o que mata a zamioculca em apartamento brasileiro não é abandono, é rega semanal com boa intenção.
O que a tradição faz com ela
Comece pelo que ela não é: uma planta do repertório clássico chinês. Ela é africana e chegou ao mercado mundial de vasos há menos de trinta anos, então nenhum manual antigo fala dela. O que a tradição fala é de forma, e por esse critério ela se encaixa muito bem: folíolo arredondado, carnudo, brilhante e virado para cima é a leitura de energia que acolhe, exatamente o oposto da folha em lâmina que corta e marca limite. Isso a coloca no grupo de plantas que a escola põe em lugar de convívio.
Há uma segunda leitura, e ela é de porte. A zamioculca cresce em hastes que sobem em leque, com uma verticalidade suave, e verticalidade é uma das assinaturas do elemento Madeira, junto com a matéria viva. Ou seja, ela reforça Madeira duas vezes, sem a agressividade de uma folha pontuda. É uma combinação incomum e útil, e é o motivo pelo qual ela funciona tão bem no canto de sala em que se quer presença sem quina.
O apelido brasileiro de planta da fortuna é comércio, não tradição, e vale saber para não pagar caro por causa dele. Não existe nenhum texto clássico associando esta espécie a dinheiro, e este portal não vai fingir que existe. O que sobra é o efeito honesto de qualquer objeto escolhido de propósito: ele fica visível todo dia no ponto em que você decidiu alguma coisa, e num canto que estava morto e agora tem uma planta viva, isso é mais do que parece.
Onde ela vai na sua casa
Ela é a resposta para os pontos que nenhuma outra planta resolve, e é por aí que vale começar. Corredor interno de um metro e vinte, sem janela, iluminado só por lâmpada: um vaso alto no fim dele dá um ponto de chegada ao olho e resolve o vazio. Hall de entrada de apartamento, aquele metro quadrado entre a porta e a sala. Canto de sala atrás do sofá, onde não bate sol nenhum. Escritório de home office sem janela. Nesses quatro lugares, a zamioculca não está sendo tolerada: ela está no habitat que mais se parece com o dela.
Pelo baguá, faça a divisão de pé: entre pela porta principal e reparta o cômodo em nove partes. O canto mais distante à esquerda é a Prosperidade, o canto da esquerda na parede da porta é o Conhecimento, e a faixa central dessa mesma parede é a Carreira. Os três costumam ser, no apartamento brasileiro, justamente cantos escuros e mal resolvidos, e a coincidência entre o que a escola valoriza e o que a planta aguenta é o que faz dela a espécie mais útil desta família inteira.
Dois detalhes de execução. Primeiro, vaso pesado: ela fica alta e as hastes se abrem em leque, então vaso plástico leve tomba com o primeiro esbarrão em corredor estreito, e cerâmica ou barro ainda acrescentam Terra ao conjunto. Segundo, altura: em casa com gato, a folhinha brilhante e mastigável precisa ficar fora de alcance, e prateleira não conta como fora de alcance para gato. Se o corredor escuro é rota do bicho, o melhor é escolher outro cômodo em vez de contar com a sorte.
Onde ela não vai
Sol direto está fora, e essa é a única condição de luz que ela realmente não tolera. Parapeito de janela virada para o poente ou varanda descoberta queimam as folhinhas em manchas amareladas e depois pardas, que não se recuperam. É irônico, mas a planta que aguenta o escuro é a mesma que sofre no claro demais, e as duas coisas vêm da mesma origem: sub-bosque africano, sombra e não sol.
Evite o pratinho com água embaixo do vaso, e nesta espécie o aviso vale duas vezes. O rizoma é uma reserva de água cercada de tecido macio, e ele apodrece com facilidade se ficar em terra encharcada, começando por baixo, sem sinal externo, até o dia em que a haste inteira amarela e tomba. Some a isso a razão brasileira de sempre: pratinho com água parada é criadouro de mosquito.
Em casa com criança pequena e com pet, saem de circulação as superfícies baixas, principalmente mesa de centro e chão da sala. O oxalato de cálcio das folhas fere a boca de quem mastiga, e a folhinha lisa e brilhante é exatamente o tipo de coisa que dá vontade de arrancar. Não é caso de descartar a planta, é caso de escolher altura e cômodo. E vale a regra de dose de sempre: três zamioculcas grandes na mesma sala pequena somam Madeira demais, com o sinal descrito na tradição de que tudo parece sempre em andamento e nada nunca termina.
Como manter viva, que é o que decide tudo
Regue pouco e por baixo do que a sua intuição pede. No verão brasileiro, uma boa rega a cada duas ou três semanas basta; no inverno, uma vez por mês costuma ser generoso. O teste é o dedo enfiado até a segunda falange: se sair com qualquer umidade, espere. Quando regar, molhe bem até sair água pelo furo, esvazie o pratinho depois de dez minutos e esqueça de novo. Folha amarelando da base para cima, com a haste amolecendo perto da terra, é sinal de rega em excesso, e a correção é parar de molhar e conferir o rizoma.
A luz define a velocidade, não a sobrevivência. No corredor escuro ela fica praticamente do mesmo tamanho por anos, e tudo bem, é para isso que ela está ali. Em claridade indireta forte, a dois metros de uma janela grande, ela lança hastes novas algumas vezes por ano, e cada haste nova nasce enroladinha como uma lança que vai se abrindo. Passe um pano úmido nas folhinhas a cada dois meses, porque a superfície cerosa acumula poeira e fica opaca, e folha empoeirada rende menos fotossíntese.
Multiplicar é um exercício de paciência e é de graça. Arranque um folíolo inteiro com a base, deixe secar por um dia e enfie um terço dele em terra levemente úmida. Nos meses seguintes ele forma um pequeno tubérculo na base, e desse tubérculo sai uma haste nova. Pode levar de quatro a oito meses, e é justamente essa lentidão que explica por que a planta era cara quando chegou ao mercado. Um jeito mais rápido é dividir a touceira na hora do transplante, separando rizomas com faca limpa, sempre de luva.
Você sabia?
Esta é a mais nova das plantas de casa clássicas, e a diferença de idade é gritante: a samambaia está nas varandas desde o século 19 e a violeta desde 1892, mas a zamioculca só chegou ao mercado mundial em meados dos anos 1990. Ela existia na África havia sempre, descrita pela botânica desde o século 19, e simplesmente não era cultivada em vaso porque ninguém sabia multiplicá-la em escala. Quando viveiros holandeses instalados no sul da África resolveram esse problema, por volta de 1996, a planta se espalhou pelo mundo inteiro em pouco mais de uma década, embalada pela característica mais rara do mercado de plantas: ela não morre em escritório. É o único caso da sua estante em que a sua avó, quase certamente, nunca viu a planta na juventude dela. E tem mais uma raridade: o gênero Zamioculcas tem uma espécie só no mundo, o que faz dela uma solitária botânica sem nenhum primo direto.
A ficha da planta
A ASPCA a lista como tóxica para gato e cachorro, e o mecanismo é irritação: os tecidos contêm cristais de oxalato de cálcio que ferem a boca de quem mastiga, causando ardência, baba e às vezes vômito. A seiva também pode irritar pele sensível, então use luva ao podar ou dividir. E fica registrado, porque circula muito: a história de que a zamioculca causa câncer é boato de internet, sem qualquer base científica.
Nome científico
Zamioculcas zamiifolia
Também chamada de
zâmia, planta da fortuna, zz e zamioculcas
Folha
arredondada, que acolhe, suaviza e convida a ficar
Elemento
木 Madeira
Luz
Aceita canto escuro melhor que quase todas, cresce mais rápido em claridade indireta forte. Sol direto queima as folhinhas.
Rega
Muito pouca. A cada duas ou três semanas no calor, e uma vez por mês no frio, sempre esperando a terra secar por completo.
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Espada de são jorge
Aguenta a mesma escuridão e o mesmo esquecimento. A diferença é de leitura: folha em lâmina marca limite e vai para passagem, não para lugar de ficar.
Pacová (Philodendron martianum)
Folha larga e brilhante, boa tolerância à sombra e mesmo porte de canto de sala. Também é arácea, então a questão do oxalato continua igual.
Peperômia
Muito menor, mas atóxica para gato e cachorro pela ASPCA, com a mesma folha grossa e arredondada. A escolha certa quando o canto escuro fica no caminho do bicho.
As áreas do baguá que esta planta toca
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Zamioculca é venenosa? Ouvi dizer que causa câncer.
Ela sobrevive em cômodo sem janela?
As folhas estão amarelando. É falta de água?
Posso ter zamioculca no quarto?
Dá para tirar muda de zamioculca?
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