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A planta lida pelo formato da folha, antes da espécie

Hera no feng shui: onde ela ajuda, onde a tradição desconfia e por que ela sofre no calor

A hera é a planta que resolve o problema mais chato de qualquer casa, que é aquele ponto alto sem graça: o topo do armário, a lateral da estante, o canto de teto onde duas paredes se encontram, o emaranhado de fios atrás da TV. A folha recortada em lóbulos é lida pela escola do Chapéu Negro como energia de movimento, o que faz dela boa em canto parado e discutível acima de onde alguém dorme. Duas informações práticas mudam tudo aqui: ela é tóxica para gato e cachorro, e é uma planta de clima temperado que sofre de verdade no verão brasileiro, o que explica por que tanta gente acha que não tem jeito com ela.
Ela não suga nada da parede em que se agarra. O que ela faz é colar, com uma cola que a ciência ainda copia.

O que ela é de verdade

É uma trepadeira europeia, da mesma família da aralia e do ginseng, que na natureza cobre chão de bosque e sobe por tronco de árvore e por muro de pedra em toda a Europa e no oeste da Ásia. Ela não é parasita, ao contrário do que muita gente pensa: não enfia raiz dentro do hospedeiro e não tira nada dele. O que ela tem são raízes adventícias, pelinhos que saem do caule e produzem uma cola natural. Essa cola é objeto de pesquisa científica de verdade, porque é feita de nanopartículas orgânicas com poder adesivo notável, estudadas para colas industriais e para filtros solares.

O clima é o dado que quase nenhuma página brasileira menciona e que decide o sucesso do seu vaso. A hera é planta de lugar fresco, e no calor de trinta e cinco graus de um apartamento fechado ela definha, seca pelas bordas e vira alvo fácil do ácaro-rajado, aquela praga que deixa a folha pontilhada e cheia de teia fina. Em Curitiba, em Campos do Jordão ou numa varanda sombreada e ventilada de São Paulo no inverno, ela é vigorosa; em cobertura no Recife, é sofrimento. Isso não é falta de jeito de quem cuida, é biogeografia.

Um detalhe que interessa a quem mora em casa com muro: sobre alvenaria sã, as raízes adventícias grudam na superfície sem penetrar, e estudos de conservação de patrimônio mostraram que uma cobertura de hera chega a estabilizar a temperatura da parede. Sobre parede já rachada, rebocada ou pintada, é outra história: ela entra nas fissuras existentes e, na hora de arrancar, leva a pintura e pedaços de reboco junto. Em apartamento alugado, portanto, hera vive em vaso e nunca colada na parede.

O que a tradição faz com ela

A tradição chinesa clássica não cataloga esta espécie, que é europeia, e trabalha com o formato. A folha da hera é recortada em lóbulos, leve, e se mexe com qualquer corrente de ar, o que a escola lê como energia de movimento, indicada para canto parado, vão morto e ponto alto que o olho ignora. É o oposto da folha em lâmina, que marca limite, e diferente da folha redonda, que assenta.

Existe aqui uma divergência entre linhas que vale declarar, porque muda instrução prática. Parte dos autores tradicionais desaconselha trepadeira e planta pendente dentro de casa, com dois argumentos: um simbólico, o de que o que se agarra e se enrosca lembra dependência, e um espacial, o de que folhagem descendo sobre a cabeça de quem está sentado ou deitado repete a leitura desconfortável de uma viga sobre a cama. A escola do Chapéu Negro, que este portal adota, é bem mais liberal e olha o efeito no ambiente concreto. A regra que sai da soma das duas é fácil de cumprir: hera à vontade em canto alto e em parede lateral, e não pendurada exatamente sobre o sofá, sobre a mesa de jantar ou sobre a cabeceira.

Nos cinco elementos ela é Madeira, e a variedade com folha malhada de branco e creme acrescenta uma segunda leitura, porque branco pertence ao Metal, que corta Madeira no ciclo de controle. Na prática isso é sutileza, e a variegada tem uma consequência bem mais concreta: quanto mais branco na folha, menos clorofila, mais luz ela precisa e mais rápido ela reclama num canto escuro.

Onde ela vai na sua casa

Ela é feita para altura, e é aí que ela ganha de todas as outras. Topo de armário, prateleira alta da estante, gancho no canto de teto, alto da geladeira, beirada superior de uma cristaleira: em todos esses pontos a hera desce em cortina, amacia o encontro duro entre parede e forro e ocupa um espaço que não custa nada, porque ninguém o estava usando. Em apartamento de quarenta e cinco metros, isso é fundamental, já que cada centímetro de chão está disputado.

Existe um uso doméstico que a escola aprovaria por motivos práticos: esconder o que incomoda o olho. O emaranhado de fios atrás da TV, o roteador com luzinhas piscando, o quadro de energia no corredor, aquela caixa que não tem outro lugar. Uma hera numa prateleira logo acima resolve visualmente sem que ninguém precise de obra, e este portal trata do problema dos fios em página própria. Verde na frente de bagunça inevitável é uma das soluções mais baratas do feng shui doméstico.

Pelo baguá, entre pela porta principal e divida o cômodo em nove partes. O meio da parede da esquerda é a Família e o canto mais distante à esquerda é a Prosperidade, as duas de Madeira, com verde na paleta, e as duas costumam cair em parede lateral, que é exatamente onde uma hera em prateleira alta funciona melhor. O meio da parede da direita é a Criatividade, de Metal, e ali a variedade malhada de branco faz cor conversando com a casa. Escolha primeiro o ponto com claridade indireta boa, e depois use o baguá para desempatar.

Onde ela não vai

Não pendure sobre a cabeceira da cama nem sobre a poltrona em que alguém passa horas. É o ponto em que as duas escolas concordam, cada uma por seu motivo, e é o mais fácil de corrigir: mova o vaso um metro para o lado, para a parede em vez do teto, e pronto. Na mesa de jantar vale o mesmo, com o agravante bem material de que folha caindo sobre comida com uma planta tóxica em cima não é boa ideia.

Em casa com gato, o vaso pendurado é praticamente um convite: haste comprida balançando é brinquedo, e a folha tem saponina. Como esta é uma das que a ASPCA lista como tóxicas, e como prateleira alta não é obstáculo para gato, o caminho honesto é escolher um cômodo em que ele não entra, ou trocar de espécie. Peperômia pendente e rhipsalis fazem o mesmo desenho e não têm esse problema.

E tem um cuidado que sai da porta para fora, importante em casa com quintal e em bairro perto de mata. A hera consta entre as espécies exóticas com comportamento invasor registrado no Brasil: ela se alastra pelo chão, sobe em árvore nativa e sombreia o que estiver embaixo. Isso significa duas coisas simples: não jogue poda de hera em terreno baldio nem em borda de mata, e não plante em muro que faça divisa com área verde. Descarte a poda no lixo comum, ensacada, ou deixe secar antes de compostar.

Como manter viva, que é o que decide tudo

Frescor e claridade, nessa ordem, e essa é a receita inteira. O melhor lugar do apartamento brasileiro para uma hera é uma varanda sombreada e ventilada, o parapeito interno de uma janela clara sem sol direto, ou um banheiro com janela. Quanto mais quente e mais parado o ar, mais rápido aparece o ácaro-rajado, que é o inimigo número um dela aqui: folha pontilhada de amarelo, aspecto empoeirado e fios finíssimos de teia entre as hastes. O primeiro tratamento é banho de água com pressão na folha, principalmente por baixo, repetido a cada três dias por duas semanas.

Regue mantendo a terra levemente úmida, sem encharcar, e cuide mais do ar do que da terra. Agrupar vasos, pôr o prato com pedrinhas e um dedo de água por baixo e evitar o jato do ar-condicionado valem mais que qualquer aumento de rega. Folha marrom e crocante na borda é ar seco; folha amarelando por inteiro com terra sempre molhada é excesso de água.

Pode sem medo, que ela agradece. Cortar as pontas engrossa a planta e evita aquele aspecto de fio comprido e careca no meio. Cada pedaço podado com quatro ou cinco folhas enraíza num copo com água em duas ou três semanas, o que faz da hera uma das plantas mais fáceis de multiplicar em casa. Use luva na poda, porque a seiva causa dermatite em pele sensível, e lave a tesoura depois. Se ela ficar rala e esticada, o problema é luz, e a correção é aproximar da janela.

Você sabia?

A hera passa por uma puberdade e nunca mais volta atrás. Enquanto é jovem, ela tem aquela folha recortada em lóbulos, cresce em ramo flexível e sobe agarrada em tudo, e nunca floresce. Quando finalmente alcança o topo de um muro ou de uma árvore e recebe luz plena, ela muda de fase: as folhas novas nascem inteiras, em forma de losango, sem lóbulo nenhum, os ramos ficam rígidos e ela vira um arbusto que não sobe mais, floresce no outono e produz bagas pretas. Parece outra planta, e muita gente que vê as duas lado a lado jura que são espécies diferentes. O detalhe espetacular é o seguinte: se você cortar um galho da fase adulta e enraizar, a muda nasce adulta e permanece adulta para sempre, formando um arbusto que jamais trepa em nada. Existem variedades vendidas exatamente assim, herdeiras de um ramo que amadureceu em algum muro europeu e nunca mais rejuvenesceu.

A ficha da planta

Tóxica se ingerida

A ASPCA lista a hera-inglesa como tóxica para gato, cachorro e cavalo. As folhas contêm saponinas, e as bagas pretas da planta adulta concentram ainda mais: o quadro é vômito, dor abdominal, salivação e diarreia. Em gente, o problema mais comum não é ingestão, é pele: o contato repetido com a seiva causa dermatite em pessoas sensíveis, e quem poda muita hera sem luva costuma descobrir isso da pior maneira.

Nome científico

Hedera helix

Também chamada de

hera-inglesa, hera-comum, hera e hedera

Folha

recortada, que movimenta, agita o ar parado

Elemento

木 Madeira

Luz

Claridade indireta forte, e quanto mais variegada a folha, mais luz ela pede. Sol direto no calor brasileiro torra as bordas.

Rega

Terra levemente úmida, sem encharcar. Ela sofre mais com ar quente e seco do que com falta de água na terra.

Se você não achar esta, servem também

Peperômia pendente

Desce igual, aguenta muito mais calor e é atóxica para gato e cachorro pela ASPCA. É a troca mais sensata para apartamento quente com bicho.

Rhipsalis

Cacto brasileiro sem espinho que cai em fios verdes. Aguenta ar seco, quase não precisa de rega e amacia canto alto do mesmo jeito.

Jiboia

A mais fácil e a mais tolerante à sombra para vaso pendurado, e a que melhor cobre volume rápido. Contém oxalato, então a questão de segurança com pet continua.

As áreas do baguá que esta planta toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Hera é tóxica para gato e cachorro?
É, e está na lista da ASPCA para gato, cachorro e cavalo. As folhas contêm saponinas e as bagas pretas da planta adulta concentram mais ainda, com quadro de vômito, dor abdominal, salivação e diarreia. Como ela costuma ficar pendurada e o ramo comprido balançando é um brinquedo perfeito para gato, o risco de mordida é maior do que numa planta de vaso parada. A saída é cômodo de porta fechada ou troca de espécie: peperômia pendente e rhipsalis fazem o mesmo efeito visual e são seguras.
Hera estraga a parede?
Depende do estado da parede. Sobre alvenaria firme e sem trincas, as raízes adventícias grudam na superfície sem penetrar, e trabalhos de conservação de patrimônio chegaram a registrar efeito estabilizador na temperatura do muro. Sobre parede pintada, rebocada ou já rachada, ela entra nas fissuras que já existiam e, na hora de arrancar, leva pintura e reboco. Em apartamento, principalmente alugado, a regra prática é uma só: hera vive em vaso, descendo de prateleira, e não colada na parede.
Minha hera está secando e cheia de pontinhos. O que é?
Quase certamente ácaro-rajado, a praga clássica dela no Brasil, favorecida por calor e ar seco. Os sinais são folha pontilhada de amarelo, aspecto empoeirado e fios finíssimos de teia entre as hastes, visíveis contra a luz. O tratamento começa de graça: banho de água com pressão na folha, insistindo na parte de baixo, a cada três dias por duas semanas, mais mudança para um lugar mais fresco e ventilado. Ácaro odeia umidade e vento, e prospera em varanda fechada quente e parada.
Posso ter hera no quarto?
Pode, com uma condição de posição que vale a pena respeitar. Parte da tradição desaconselha folhagem pendente exatamente sobre a cabeceira, pela mesma leitura desconfortável de algo suspenso acima de quem dorme, e a solução é pôr o vaso numa prateleira lateral em vez do teto sobre a cama. A condição maior é o gato: se ele dorme no quarto, a planta sai do cômodo, porque a folha é tóxica e o ramo pendurado é irresistível para ele.
Dá para tirar muda de hera?
Dá, e é das mais fáceis. Corte uma ponta com quatro ou cinco folhas logo abaixo de um nó, tire as folhas de baixo e ponha num copo com água num lugar claro, trocando a água a cada três dias. Em duas ou três semanas aparecem raízes brancas, e aí é só plantar em terra. Use luva ao podar, porque a seiva provoca dermatite em pele sensível. E não descarte a poda em terreno baldio nem em borda de mata: a espécie tem comportamento invasor registrado no Brasil, e o lugar do descarte é o lixo comum.

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