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A planta lida pelo formato da folha, antes da espécie

Comigo-ninguém-pode no feng shui: o costume da entrada e o aviso que a loja não dá

Nenhuma planta ornamental brasileira acumula tanto costume e tanto acidente quanto esta. O nome já é um recado, o vaso costuma aparecer na entrada de casa com uma fita vermelha amarrada, e a folha grande, malhada de verde e creme, é de fato uma das mais bonitas que se cultiva em vaso. Ao mesmo tempo, ela é a espécie que mais aparece em registro de intoxicação com criança pequena no país. Esta página trata das duas coisas na mesma altura: o que a tradição faz com ela, onde ela vai pelo baguá orientado pela porta de entrada, e por que a decisão sobre o lugar dela começa pela seiva e não pelo canto.
Ela não é planta ruim. É planta que não pode ficar na altura da boca de ninguém.

O que ela é de verdade

É uma arácea americana, parente próxima do antúrio, do lírio da paz e da costela-de-adão, nativa das matas úmidas da América tropical, e várias espécies do gênero ocorrem no Brasil, inclusive na Amazônia. No chão da mata ela vive à meia-luz, sob o dossel das árvores, o que já explica por que ela vai bem no corredor e na sala interna e por que sol direto na varanda queima a folha em manchas brancas. O caule é grosso e suculento, cheio de água, e é dele que sai o nome inglês da planta.

A defesa química dela merece ser entendida, porque explica todo o resto. Espalhadas pelos tecidos existem células especializadas, os idioblastos, cheias de feixes de agulhas microscópicas de oxalato de cálcio, os rafídeos. Ao serem mordidas, essas células funcionam como pequenas seringas de pressão e disparam as agulhas nos tecidos moles da boca. Como se não bastasse, a seiva traz enzimas que digerem proteína e ampliam a reação. É por isso que a dor é imediata e desproporcional ao tamanho da mordida, e é por isso que lavar não resolve na hora: as agulhas já estão cravadas.

O gênero foi batizado em homenagem a Joseph Dieffenbach, jardineiro-chefe dos jardins do palácio de Schönbrunn, em Viena, no século 19. Em inglês a planta é chamada de dumb cane, cana muda, exatamente pelo efeito de inchaço que dificulta a fala por horas. O nome brasileiro veio por outro caminho, o da devoção popular, e conta uma história diferente da mesma planta.

O que a tradição faz com ela

O costume brasileiro é o mais forte e o mais fácil de observar: o vaso na entrada, no hall do prédio, no batente da porta ou perto do portão, muitas vezes com uma fita vermelha amarrada no caule, e em algumas casas com um pequeno espelho ou um objeto de metal enfiado na terra. É um costume vivo, de raiz popular e sincrética, e este portal registra como costume, sem transformar em promessa. O nome da planta é o próprio enunciado do que se espera dela, e o efeito honesto de um objeto posto de propósito é ser visto todo dia no lugar em que alguém tomou uma decisão.

A leitura do feng shui é outra e chega ao mesmo endereço por outra razão. A escola do Chapéu Negro, que orienta o baguá pela porta de entrada e é a que este portal adota, lê o formato da folha antes da espécie: aqui a folha é grande, larga e cheia, com a ponta terminando em bico, o que faz dela uma leitura intermediária, massa que ocupa e preenche, com uma direção no fim. Isso serve bem a soleira, hall e entrada, que é lugar de passagem e de anúncio, e serve mal a mesa de refeição e cabeceira, que são lugares de permanência.

Nos cinco elementos ela é Madeira, e as folhas malhadas de creme trazem uma segunda leitura de cor, porque branco e tons claros pertencem ao Metal na mesma tabela que o baguá usa. Metal corta Madeira no ciclo de controle, e é uma daquelas plantas que carregam o próprio contraponto na folha. Na prática isso não muda nada de urgente, mas explica por que ela nunca parece exuberante como um verde puro: o desenho já traz um freio dentro.

Onde ela vai na sua casa

Antes do baguá, uma medida com a mão. A regra desta espécie é de altura e de alcance: a folha mais baixa precisa ficar acima da linha de alcance de criança pequena e de cachorro, e fora de qualquer superfície que o gato use como caminho. Isso costuma significar um vaso alto no chão em cômodo de passagem, um pedestal, ou, melhor de tudo, o lado de fora, no hall, na varanda fechada com vidro, na área de serviço, no corredor externo do prédio.

Definido o alcance, use o baguá. Fique do lado de fora da porta principal, entre olhando para dentro e reparta o cômodo em nove partes: a faixa central da parede da porta é a casa da Carreira, o canto da direita nessa mesma parede é a dos Amigos protetores. Nessa faixa toda a planta cumpre bem o papel que o costume brasileiro já lhe dá, o de estar na chegada. Em apartamento de quarenta e cinco metros isso quase sempre é o metro quadrado entre a porta e o sapateiro, onde a luz é fraca e a planta não se importa.

Existe ainda um uso geométrico que ela faz melhor que quase todas: apagar a linha reta entre a porta de entrada e a porta do banheiro, situação comuníssima em planta de apartamento compacto. Um vaso alto de folha larga posto de lado, sem bloquear a passagem, quebra a corrida do olhar de uma porta à outra e faz o serviço de um biombo por uma fração do preço. Se a sua casa tem esse alinhamento e você já tem a planta, essa é a mudança de dez minutos e custo zero desta página.

Onde ela não vai

Mesa de jantar, bancada de cozinha e mesinha de centro estão fora, e a razão é de segurança antes de ser de tradição. São as três superfícies onde a mão vai sem pensar, onde criança alcança e onde folha e comida acabam próximas. Some a isso o hábito de aparar folha seca com a unha e depois esfregar o olho: a seiva nos olhos causa dor intensa e é um dos acidentes mais comuns com esta planta entre adultos.

Quarto de criança, berçário e qualquer cômodo em que um bebê engatinha estão fora sem exceção. A dose que causa problema é pequena, o gosto não avisa de imediato e a criança de dois anos não larga o que está mastigando por causa de um alerta. A mesma coisa vale para casa com filhote de cachorro em fase de morder tudo e para casa com gato, lembrando que prateleira alta não é obstáculo para gato, é atalho.

E tem um cuidado de horta que precisa estar escrito nesta página. A folha grande e o caule suculento lembram os da taioba, que é hortaliça e vai à panela em vários estados do Brasil, e confusão entre arácea ornamental e arácea comestível é um clássico dos registros de intoxicação. Ninguém colhe folha de vaso de sala por engano, mas em casa com quintal, em que uma coisa e outra crescem na mesma faixa de terra, vale marcar o canteiro e avisar quem cozinha. Se houver qualquer dúvida sobre o que é o quê, não vai à panela.

Como manter viva, que é o que decide tudo

Use luva ou saco plástico na mão sempre que for podar, transplantar ou tirar folha velha, e lave a tesoura e as mãos depois. É o cuidado mais barato desta página inteira e resolve o acidente doméstico mais comum com a espécie, que é o adulto mexendo na planta e depois tocando o rosto. Se pingar seiva na pele, lave com água e sabão; se atingir o olho, lave com bastante água corrente por vários minutos.

A planta em si é fácil. Claridade indireta é o ponto ideal, e ela aceita bastante sombra, ficando só mais espaçada entre uma folha e outra. Terra levemente úmida o tempo todo, sem encharcar, o que na prática dá uma rega por semana no calor e uma a cada dez ou quinze dias no frio. Ela gosta de ar úmido, então o banheiro com janela e a área de serviço são bons cômodos, desde que a altura resolva o problema de alcance. Passe um pano úmido nas folhas grandes uma vez por mês, sempre com luva.

Com o tempo ela perde as folhas de baixo e vira um caule longo com um tufo no alto, o que assusta quem acha que estragou alguma coisa. É o crescimento normal da espécie, e a solução é podar: corte o caule na altura que quiser, com luva e faca limpa, que ela rebrota abaixo do corte, e o pedaço decepado enraíza em água ou em terra úmida, virando planta nova. E guarde o número do Disque Intoxicação da Anvisa, 0800 722 6001, na geladeira, junto com o do veterinário: em caso de mordida, enxágue a boca com água, ofereça algo gelado para beber, não provoque vômito e ligue.

Você sabia?

O mecanismo de defesa dela é uma das engenhocas mais impressionantes do reino vegetal e cabe em uma frase: a planta tem células que funcionam como seringas. Espalhados pelos tecidos há idioblastos, células isoladas cheias de feixes de agulhas de oxalato de cálcio sob pressão. Quando alguma coisa morde, a célula rompe e as agulhas são disparadas para dentro do tecido mole que a mordeu, e uma segunda substância presente na seiva, uma enzima que digere proteína, entra pelos furos e amplia a inflamação. É defesa em duas etapas, agulha e química, evoluída contra herbívoros. O nome inglês da planta, dumb cane, cana muda, é a descrição do resultado: o inchaço da língua deixa a vítima sem conseguir falar direito por algumas horas. Sabendo disso, aquele arranjo bonito na mesa de centro passa a parecer o que ele é, uma planta armada, e o simples fato de mudar o vaso de altura vira uma decisão bem informada.

A ficha da planta

Tóxica se ingerida

É a planta ornamental mais perigosa desta lista, e não é opinião: a ASPCA a lista como tóxica para gato e cachorro, e ela está entre as espécies mais registradas nos centros de informação toxicológica brasileiros em casos com crianças. A seiva tem cristais de oxalato de cálcio disparados por células especializadas, mais enzimas que agravam a reação, e o resultado imediato é ardência forte, inchaço de língua e lábios, salivação e dificuldade de falar. Raramente é grave, mas é sempre assustador e sempre dolorido. Se houver criança pequena ou pet que morde, esta planta mora fora de casa.

Nome científico

Dieffenbachia seguine

Também chamada de

dieffenbachia, aninga-do-pará, cana-muda e comigo-ninguém-pode-malhada

Folha

alongada, que conduz, puxa o olhar para cima

Elemento

木 Madeira

Luz

Meia-sombra e claridade indireta. Sol direto queima a folha em manchas esbranquiçadas que não se recuperam.

Rega

Terra levemente úmida o tempo todo, sem encharcar. No calor costuma dar uma vez por semana; no frio, a cada dez ou quinze dias.

Se você não achar esta, servem também

Pacová (Philodendron martianum)

Folha larga e brilhante, mesma tolerância a pouca luz, mesmo volume num canto de entrada. Também é arácea e também tem oxalato, então serve para trocar o visual, não para resolver a toxicidade.

Palmeira-areca

Se o objetivo é volume verde na entrada com segurança, essa é a troca certa: é atóxica para gato e cachorro pela ASPCA e ocupa muito mais espaço visual pelo mesmo dinheiro.

Peperômia de folha grande

Muito menor, mas atóxica e de folha arredondada, indicada para quem quer manter alguma planta acessível em casa com criança pequena.

As áreas do baguá que esta planta toca

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Comigo-ninguém-pode é venenosa mesmo ou é lenda?
É real e bem documentada. A seiva contém feixes de cristais de oxalato de cálcio disparados por células especializadas, somados a enzimas que digerem proteína, e o resultado da mordida é ardência imediata, inchaço de língua e lábios, salivação intensa e dificuldade de falar por horas. A ASPCA a lista como tóxica para gato e cachorro, e ela aparece com frequência nos registros brasileiros de intoxicação com crianças. Casos graves, com comprometimento de respiração, são raros, mas o quadro comum já é doloroso o bastante para decidir onde a planta fica.
Posso ter comigo-ninguém-pode com criança pequena em casa?
Enquanto houver criança que ainda leva coisas à boca, a recomendação honesta é manter a planta fora da área interna: hall, varanda fechada, área de serviço, corredor externo. Não é preciso descartar nada, é preciso mudar de endereço. Quando a criança já entende e respeita o combinado, a planta pode voltar para dentro num vaso alto, longe de mesa e de bancada. E vale ensinar a regra em vez de só esconder, porque essa mesma planta está na casa da avó, na recepção do dentista e na entrada do prédio.
Meu gato mordeu a folha. O que eu faço?
Retire o pedaço que estiver na boca, ofereça água ou algo gelado para beber, não provoque vômito e ligue para o veterinário descrevendo a planta pelo nome científico, Dieffenbachia. Os sinais típicos são salivação excessiva, patada na boca, dificuldade de engolir e recusa de comida. Para gente, o telefone é o Disque Intoxicação da Anvisa, 0800 722 6001, que atende o país inteiro. Guardar esses dois números onde todo mundo vê vale mais do que qualquer regra de decoração desta página.
Precisa amarrar a fita vermelha?
É costume popular brasileiro, não regra de feng shui chinês, e este portal prefere dizer isso a fingir que os dois são a mesma coisa. Quem gosta, amarra, e a fita tem um efeito colateral simpático dentro da lógica dos cinco elementos: o vermelho é a cor do Fogo, e Madeira alimenta Fogo no ciclo de geração, então a combinação é coerente. O que não existe é obrigação nem consequência por não amarrar. Se você quiser um gesto com mais efeito prático, ponha o vaso numa altura em que ninguém alcança a folha por acidente.
As folhas de baixo estão amarelando e caindo. Está morrendo?
Provavelmente não. A espécie perde naturalmente as folhas de baixo à medida que cresce e vira um caule alto com um tufo no topo, o que é aparência de planta velha e não de planta doente. Se o amarelo aparecer também nas folhas de cima e a terra estiver sempre encharcada, aí sim é excesso de água, e a correção é esperar a superfície secar antes de molhar. Para recuperar o formato, pode o caule na altura que quiser, sempre com luva: ela rebrota abaixo do corte e o pedaço cortado enraíza em água.

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