A cor escolhida pelo cômodo, não pela paleta
Que cor usar na entrada pelo feng shui
Todo mundo decora o fundo da casa e ignora os dois metros que decidem a primeira impressão dela.
O que decide a cor deste cômodo
Comece pelo que este espaço faz, que é transição. Ninguém mora na entrada: passa-se por ela oito, dez vezes por dia, por vinte segundos de cada vez, quase sempre com a mão ocupada. Cômodo de passagem aguenta cor forte melhor do que cômodo de permanência, e é por isso que hall de entrada é, no mundo inteiro, o lugar em que se ousa. A regra prática que sai daí é a inversa da regra da sala: aqui você pode usar a cor que não teria coragem de usar num lugar em que fica três horas.
A luz decide o segundo movimento, e no Brasil ela é quase sempre ruim neste ponto. O hall de apartamento costuma ser um trecho sem janela nenhuma, iluminado pela luz que vem da sala, e a porta em si é opaca. Cor escura ali soma escuridão a um lugar já escuro, e isso é ótica e não simbologia: o pigmento escuro devolve pouca luz e o cômodo depende inteiramente da lâmpada. Se a sua entrada é assim, a primeira melhoria não é tinta, é luz: um ponto aceso no começo da noite muda mais aquele metro quadrado do que qualquer cor. A escola diz a mesma coisa por outro caminho, chamando de canto que ninguém ilumina o canto que ninguém confere.
O terceiro fator é o elemento, e aqui ele não vem do cômodo, vem da área. A entrada não tem elemento nativo como a cozinha e o banheiro têm, mas ela é, por definição, a faixa da Carreira, casa de Água, cuja paleta é preto e azul-escuro. Os cantos vizinhos completam o desenho: à esquerda de quem entra fica o Conhecimento, casa de Terra, com azul-marinho, verde-escuro e bege; à direita, os Amigos protetores, casa de Metal, com cinza, branco e prateado. Ou seja, a parede da porta inteira é fria por tabela, e é isso que explica por que tanta entrada bonita parece impessoal. Um toque de quente ali é escolha de autor, não erro.
As que pedem cautela aqui
O excesso de frio é a cautela principal, e ela é contraintuitiva porque cada peça isolada está certa. A faixa da porta é de Água por tabela, e as duas casas vizinhas são de Terra e de Metal, então a paleta correta do conjunto já é fria: marinho, cinza, branco, prateado. Se você seguir a tabela ao pé da letra, com aparador cinza, espelho, marinho na parede e piso porcelanato, terá uma entrada tecnicamente impecável e visualmente gelada. O conserto não exige mudar o plano: uma luz amarelada, uma cerâmica, uma peça de madeira crua ou uma planta devolvem o calor sem quebrar a lógica.
Vermelho pede cautela pelo motivo oposto, que é dose e localização. A tradição chinesa usa muito o vermelho na porta, e a leitura da escola é que ele marca o ponto de passagem, não o corredor inteiro. Vermelho na porta é um gesto; vermelho na porta, na parede, no capacho e no vaso é um alarme. Se a sua entrada abre direto na sala, o que é o desenho de quase todo apartamento de dois quartos, lembre que essa parede vermelha também vai estar na sala pela noite inteira, e a conta muda.
Existe ainda a cautela de acabamento, que ninguém antecipa e todo mundo descobre em seis meses. A parede da entrada é a que mais encosto de mão, de bolsa, de guarda-chuva molhado e de sacola de compra recebe na casa inteira. Tinta fosca comum ali suja e não aceita pano úmido sem clarear a cor. Use acetinado ou tinta lavável no primeiro metro e meio, e lembre que o brilho satura o pigmento: o mesmo marinho parece mais escuro e mais profundo no acetinado do que no fosco, então desça meio tom se você escolheu pelo leque fosco.
Sem pintar parede nenhuma
A entrada é o cômodo em que a mudança sem tinta chega mais perto de ser a mudança inteira, porque a área é pequena e a atenção é alta. Comece pelo capacho, que é a única peça de decoração que todo visitante pisa e que custa o preço de um lanche. Depois o que estiver na parede: um quadro grande, um espelho com moldura de cor, uma prateleira estreita. Como o campo de visão é curto, uma peça só resolve, e a escola prefere isso a três: deixe visível da porta uma coisa que você goste de olhar, e só uma.
Pelo material, a entrada tem uma lista curta e muito eficiente. Espelho e vidro são Água pela tabela, o que combina com a casa da Carreira, e um espelho na parede lateral do hall ainda resolve o problema prático de um corredor estreito. Cerâmica, barro e pedra são Terra e dão peso a um lugar de passagem. Planta viva de folha arredondada é Madeira e é a peça que mais muda a leitura da entrada, com a ressalva honesta de que planta em hall sem luz nenhuma não sobrevive: se aquele canto não tem claridade, ele não pede planta, pede outra coisa.
E tem a cura de dez minutos que vem antes de qualquer cor, e é a mais repetida deste portal. Abra a porta até o fim e veja se ela bate em alguma coisa: sapato, cesto, o pé do aparador, a bicicleta. Tire o que impede os últimos centímetros hoje. Depois olhe para o que está pendurado atrás da porta e para a pilha de correspondência que ninguém abre. Nenhum azul-marinho conserta uma porta que só abre setenta por cento.
E se este cômodo cair em cada área do baguá
A entrada é o único cômodo desta série cuja posição no baguá não varia, porque ela é o próprio ponto de partida do mapa. Parado na porta principal, olhando para dentro, a faixa central da parede em que você está é a Carreira, casa de Água, que rege trabalho, rumo e a pergunta sobre o que fazer da vida. Isso faz do primeiro metro e meio depois do batente o endereço mais coerente para preto, azul-escuro, espelho e vidro, e para as chaves, a bolsa e o que sai de casa com você.
À sua esquerda, no mesmo alinhamento da porta, fica o Conhecimento, casa de Terra, que rege estudo, silêncio e a decisão que só se toma sozinho. A paleta traz azul-marinho, verde-escuro e bege, e é um bom lugar para uma prateleira de livros ou para o banquinho em que você senta para calçar o sapato. À sua direita ficam os Amigos protetores, casa de Metal, com cinza, branco e prateado, que rege quem aparece quando você precisa e as viagens. Uma bandeja de metal para as chaves ou uma moldura prateada ali é material sobre material, e custa quase nada.
Quando a porta abre direto na sala, que é o desenho mais comum do apartamento brasileiro, essas três casas ficam sobrepostas ao ambiente social, e a leitura continua valendo para o primeiro metro e meio. Se a sua porta abre para um corredorzinho, o baguá da casa inteira começa ali mesmo, e vale um segundo baguá, o do próprio corredor, com o mesmo desenho. Nada disso pede reforma. E vale a distinção que este portal repete: o feng shui trata do espaço por onde você entra, e quem descreve quem entra é o mapa chinês, o BaZi, calculado a partir de data, hora e lugar de nascimento.
Você sabia?
As portas vermelhas dos palácios chineses têm fileiras de tachas douradas cravadas na madeira, e a quantidade delas nunca foi decoração: era hierarquia escrita em bronze. Na Cidade Proibida, os portões imperiais trazem nove fileiras de nove tachas, oitenta e uma no total, porque o nove era o número associado ao imperador e o ímpar mais alto de um dígito. Príncipes tinham direito a menos, funcionários de escalão inferior a menos ainda, e uma casa comum não podia usar nenhuma. Havia até regra sobre a cor da porta permitida a cada posição social. Ou seja, quem passasse na rua sabia exatamente com quem estava lidando antes de bater, e a fachada funcionava como um documento público. O costume tinha origem prática, porque as tachas eram as cabeças dos pregos que prendiam as tábuas da porta umas às outras e foram ficando maiores e ornamentadas com o tempo. Sobrou disso uma ideia que atravessou séculos e chegou até o seu apartamento: a porta é a parte da casa que fala com a rua, e ela diz alguma coisa quer você tenha escolhido ou não.
As cores que funcionam aqui, e o porquê de cada uma
azul-marinho #1F3A5F
Água pura, material sobre material na faixa da Carreira. É a cor com melhor lastro para o aparador, para a parede das chaves e para a porta vista por dentro. Como devolve pouca luz, funciona melhor em detalhe ou em uma parede, com o resto claro.
vermelho-porta #A62B23
A porta vermelha é o gesto mais antigo e mais reconhecível da tradição chinesa, e ele existe justamente aqui e não no meio da casa. Fogo em dose pequena e concentrada, na folha da porta ou por dentro dela, aquece uma parede que a tabela deixou fria.
branco-quente #F2ECE2
Metal, o elemento da casa dos Amigos protetores, que é o canto à direita de quem entra. Devolve o máximo de luz num hall sem janela e deixa a cor do que estiver ali, um quadro, um vaso, o capacho, aparecer sem concorrência.
verde folha #4A7C59
Madeira é o elemento que a Água alimenta, e uma planta viva de folha arredondada na entrada é a cura de custo mais baixo e maior efeito deste cômodo. Como pigmento, o verde escuro cabe bem na porta, na moldura ou no aparador.
preto #1C1C1C
Também é Água, e é a cor que a entrada usa melhor em pequenas doses: puxador, moldura de espelho, base do aparador, marcenaria estreita. Em parede inteira, num hall sem janela, ele apaga o único ponto da casa que precisa dar boas-vindas.
As áreas do baguá que este cômodo costuma ocupar
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Perguntas frequentes
Porta vermelha dá sorte mesmo?
Minha porta abre direto na sala. Como marco a entrada?
Que cor de tapete de entrada usar?
Espelho na entrada pode?
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