A cor escolhida pelo cômodo, não pela paleta
Que cor usar na cozinha pelo feng shui
Na bancada de qualquer apartamento pequeno, dois elementos que se anulam moram como vizinhos de porta. A cor é o que faz eles conversarem.
O que decide a cor deste cômodo
A função manda primeiro, e a função aqui é trabalho. Cozinha é o cômodo de mais movimento e mais sujeira da casa, com gordura em suspensão, vapor, respingo e pano passando na parede toda semana. Isso decide uma coisa antes da cor: o acabamento. Tinta fosca comum em parede de cozinha não sobrevive a um ano de pano úmido, então a conversa realista é acetinado, semibrilho ou tinta lavável, e esse detalhe muda a cor que você vai ver, porque brilho satura o pigmento. O mesmo verde parece dois tons mais forte no acetinado do que no fosco.
Depois vem a luz, e a cozinha brasileira tem um padrão bem definido: janela pequena sobre a pia, quando tem, e uma lâmpada no teto que fica exatamente atrás de quem cozinha, jogando a sombra do próprio corpo na bancada. Cor escura em armário e parede numa cozinha assim é somar escuridão a um lugar onde você manuseia faca e fogo. Se você ama armário preto ou verde escuro, resolva a luz antes: uma fita de LED embaixo do armário superior custa pouco e é a melhoria mais sentida da cozinha inteira, com ou sem feng shui.
O tempo de permanência é o terceiro fator, e ele mudou muito nos últimos vinte anos. Na cozinha fechada tradicional, ninguém ficava, se trabalhava. Na cozinha americana, a mesma parede também é a parede da sala, e alguém está sentado olhando para ela a noite inteira. Cor que aguenta vinte minutos de preparo nem sempre aguenta três horas de convívio, e é por isso que a cozinha integrada pede a paleta mais calma das duas. E sobre o elemento nativo: como o Fogo já está posto, a tabela sugere trabalhar com o que o alimenta e com o que ele produz, ou seja, Madeira, que o alimenta, e Terra, que nasce dele. Metal e Água entram com mais cuidado, porque o Fogo derrete um e é apagado pelo outro.
As que pedem cautela aqui
O azul encostado no fogão é o caso que mais aparece, e ele é Água em cima de Fogo, o par que a escola cita como conflito direto. Isso não significa jogar fora o azulejo azul que veio com o apartamento. Significa saber o que fazer: pôr Madeira entre os dois, o que na prática é um vaso de manjericão na janela, uma tábua de madeira em pé encostada na parede, um pano de prato verde pendurado entre a boca do fogão e a cuba. Se a cozinha for pintada de azul por escolha, prefira a parede oposta ao fogão e escolha o azul esverdeado, que pela tabela pertence à Madeira e não à Água.
Vermelho puro tem cautela oposta e igualmente honesta. Ele não conflita com nada aqui, ele reforça: é Fogo somando Fogo no cômodo que já tem a maior dose da casa. A tradição descreve o excesso desse elemento como o ambiente que cansa rápido e em que a discussão pega fogo em dois minutos, e cozinha é justamente onde a família se cruza com pressa. Uma parede inteira vermelha numa cozinha americana costuma ser demais para quem passa a noite olhando para ela da sala. Em detalhe, na panela, no pano, na cadeira da banqueta, ele é ótimo.
Preto virou moda em armário planejado e merece uma nota prática antes de qualquer leitura simbólica. Pela tabela é Água, o que já pede atenção perto do fogão, mas o problema maior é de manutenção: laca preta brilhante mostra digital, respingo de gordura e poeira melhor do que qualquer superfície da casa, e cozinha é o cômodo que menos perdoa isso. Se for de preto mesmo, escolha acabamento fosco de boa qualidade, mantenha a bancada clara e ilumine embaixo dos armários, porque preto numa cozinha mal iluminada apaga o cômodo de verdade, não só na leitura da escola.
Sem pintar parede nenhuma
A cozinha é o único cômodo em que a cura de cor mais eficiente é comestível e já está na sua casa. Um vaso de manjericão, cebolinha ou alecrim na janela acrescenta Madeira pela cor e pelo material ao mesmo tempo, custa menos que um lanche, fica exatamente onde a escola pede e ainda vai para o molho. Se a sua janela não tem sol, a versão de custo zero é um galho num copo de água na bancada, que enraíza em duas semanas.
Depois vem o têxtil, que em cozinha é pequeno e frequente: pano de prato, luva, jogo americano, capa de banqueta, cortina da janela e cortininha de pia. Como as peças são pequenas, aqui vale a regra contrária à da sala: em superfície pequena, cor forte funciona melhor do que tom quebrado, porque tom quebrado em peça pequena simplesmente some. E vale a caça de dez minutos pelo armário, porque cozinha é o lugar da casa que mais acumula cor guardada: a louça herdada, a travessa de barro, a caneca boa, a garrafa de vidro âmbar. Tire da prateleira de cima e ponha à vista.
Tem ainda o caminho do material, que dispensa pigmento. A tabela classifica cerâmica, barro e pedra como Terra, madeira crua e planta viva como Madeira, aço e alumínio como Metal. Isso quer dizer que uma tábua de madeira apoiada na parede, um pote de barro com o sal grosso e um cesto de palha com as frutas acrescentam dois elementos à cozinha sem tinta nenhuma, e resolvem o caso de quem mora de aluguel e não pode nem trocar o azulejo. A fruteira, aliás, é a peça de cor mais barata que existe neste cômodo, porque a cor vem de dentro e se renova toda semana.
E se este cômodo cair em cada área do baguá
Pela regra da porta de entrada, a cozinha costuma cair em uma ou duas casas do baguá, e três cruzamentos são frequentes o suficiente para merecer nome. Cozinha no canto mais distante à esquerda, que é a Prosperidade, é o endereço que a tradição gosta, porque o fogão é lido como o ponto do sustento da casa: ali a instrução prática é simples e gratuita, mantenha a boca do fogão limpa e use todas as bocas de vez em quando, em vez de cozinhar sempre na mesma. A paleta da área é roxo, verde e dourado, e o verde é o que combina com o que a cozinha já pedia.
Cozinha no meio da parede do fundo cai no Reconhecimento, casa de Fogo, e é a soma mais intensa possível, porque o elemento do cômodo e o da área são o mesmo. Aqui a instrução é conter em vez de reforçar: nada de vermelho em parede, e a Terra entra como amortecedor, no amarelo terroso, na cerâmica, no piso. Cozinha no meio da parede da direita cai na Criatividade, casa de Metal, com branco e tons pastel na paleta, e o Fogo derrete o Metal pela tabela, o que faz do branco quebrado uma escolha melhor do que o inox por toda parte.
Quando a cozinha cai no miolo da planta, que é a Saúde e é casa de Terra, a leitura é boa: o Fogo alimenta a Terra no ciclo de geração, então o cômodo sustenta a área. É o caso mais comum na cozinha americana de apartamento compacto, em que a bancada fica quase no centro geométrico da casa. Vale a divisão que este portal mantém: o feng shui olha o espaço, e quem lê a pessoa que cozinha ali é o mapa chinês, o BaZi, montado com data, hora e lugar de nascimento.
Você sabia?
Terracota quer dizer terra cozida, em italiano, e o nome descreve exatamente o que aconteceu com o material: barro cru moldado e levado ao forno. O que quase ninguém sabe é de onde vem o alaranjado. Ele não é tinta nem esmalte, é ferro. A argila comum tem óxido de ferro na composição, e quando a peça é queimada num forno com oxigênio, esse ferro se oxida e assume o tom que a gente chama de cor de telha, de tijolo ou de vaso de barro. Se a mesma argila for queimada com pouco oxigênio, e essa técnica tem nome, atmosfera redutora, a peça sai cinza ou quase preta, com o mesmo barro. Ou seja, a cor mais quente da paleta de cozinha do mundo inteiro é um acidente químico controlado, e é a mesma reação que deixa a ferrugem laranja no portão. Como o pigmento de óxido de ferro é um dos mais estáveis que existem, esse tom atravessou milênios sem desbotar: os potes de terracota de dois mil anos que saem de escavação continuam com a cor do dia em que saíram do forno.
As cores que funcionam aqui, e o porquê de cada uma
verde-sálvia #7E9B6B
É a resposta clássica da escola para este cômodo. Madeira é o elemento que a Água alimenta e que por sua vez alimenta o Fogo, ou seja, ela transforma a vizinhança do fogão com a pia em sequência em vez de choque. Verde acinzentado ainda tem a vantagem de não deixar a comida com cor estranha na hora da foto.
branco-quente #F4EFE6
Devolve o máximo de luz numa cozinha de janela pequena e é o padrão nacional por um motivo bom: mostra a sujeira, e cozinha limpa é a primeira coisa que a tradição chinesa cobra neste cômodo. Prefira o branco quebrado, com creme, ao branco azulado, que endurece o ambiente sob lâmpada fria.
amarelo-palha #EBD9A8
Terra é o elemento que nasce do Fogo, então o amarelo terroso é o jeito mais coerente de aproveitar o calor do cômodo sem somar mais chama. Funciona especialmente bem em cozinha sem janela, porque devolve luz com temperatura quente.
terracota #B0603D
Para quem quer cor cheia, é a mais afinada com a cozinha: laranja queimado tem barro na mistura, então entrega o quente do Fogo já apoiado na Terra. Ótimo em uma faixa de azulejo, num nicho ou na parede da bancada, e pesado nas quatro paredes.
As áreas do baguá que este cômodo costuma ocupar
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