As pedras lidas como material de ambiente
Fluorita no feng shui
Ela deu nome à fluorescência, e mesmo assim é a primeira a apagar quando fica no sol.
O que essa pedra é de verdade
É fluoreto de cálcio, um mineral que a indústria consome aos milhões de toneladas e que a maioria das pessoas nunca associaria a uma pedra de estante. Ela é a matéria-prima do ácido fluorídrico, entra como fundente na siderurgia, e é dela que vem o flúor da pasta de dente. A palavra fundente, aliás, é a origem do nome: do latim fluere, fluir, porque adicionada ao forno ela faz o minério derreter a temperatura mais baixa.
A cor é o assunto mais interessante e o mais mal explicado nas lojas. Fluorita pura é incolor; todo o verde, roxo, azul, amarelo e rosa que aparecem vêm de defeitos minúsculos na estrutura cristalina, causados por irradiação natural ou por traços de outros elementos. É o mesmo mecanismo da ametista, e traz o mesmo problema: o que se formou por radiação se desfaz por radiação, e a do sol chega de graça na sua janela todos os dias. A peça de faixas verdes e roxas, tão comum no Brasil, é literalmente um registro das mudanças químicas da água que circulou por ali ao longo de milhares de anos.
A fragilidade tem nome técnico e consequência prática. Clivagem perfeita em quatro direções significa que existem quatro planos internos por onde o cristal se separa limpo, como se fosse cortado. Não é preciso força: uma queda de trinta centímetros na mesa, ou tirar a peça de um ambiente com ar-condicionado e levar para a varanda quente, já pode abrir um plano. Dureza 4 completa o quadro, ela risca com aço comum, e a chave dentro da mesma gaveta é inimiga suficiente.
O que a tradição faz com ela
Como quase toda pedra da prateleira de cristais, esta não vem do repertório clássico chinês, e vale dizer antes de seguir. Ela entrou no assunto pelo comércio ocidental do século 20, e o que a encaixa no sistema é a mesma coisa que encaixa qualquer objeto, a cor e o material, lidos pela tabela que o baguá já usa.
O verde é a cor mais direta da Madeira, o elemento do que cresce devagar, e ele ocupa duas casas no baguá orientado pela porta: a da Família, no meio da parede da esquerda, e a da Prosperidade, no canto esquerdo mais distante da entrada. O roxo da mesma peça também é Madeira na paleta do baguá pela porta, o que faz da fluorita verde e roxa um caso raro de pedra em que as duas cores apontam para a mesma casa. Quando isso acontece, a leitura fica simples e não precisa de escolha.
A tradição ocidental costuma ligar essa pedra a estudo e a organização mental, e isso aqui fica como associação de costume, sem promessa. O que sustenta a colocação dela numa mesa de estudo não é efeito nenhum sobre a cabeça de quem senta ali: é que ela é bonita, é colorida, e um objeto escolhido de propósito num lugar de estudo funciona como lembrete do que aquela mesa é. Colocar uma peça na mesa e continuar usando a mesa para dobrar roupa desfaz o combinado no mesmo dia.
Onde ela vai na sua casa
Localize as casas de Madeira. De pé fora da porta principal, entre olhando para dentro e divida o que vê em nove partes, três por três. O meio da parede da esquerda é a Família, ligada a raiz, saúde dos seus e ao que veio antes de você. O canto esquerdo mais distante da porta é a Prosperidade. Uma peça verde e roxa em qualquer uma das duas é cor conversando com a casa, e não enfeite sorteado.
A prateleira interna é o lugar físico ideal, e a razão é defensiva: longe da janela por causa da cor, longe da borda por causa da clivagem, longe do chão por causa do chute. Se você tem uma estante fechada com vidro, é ali que essa pedra fica melhor do que qualquer outra da coleção, porque ela é a que mais precisa de proteção e a que mais recompensa quem olha de perto.
A mesa de estudo aceita bem, com uma condição de bom senso: peça pequena, apoiada em base estável, longe da beirada e longe da caneca de café. E existe um detalhe de iluminação que vale mais que a escolha do canto. Fluorita fica espetacular sob luz quente de luminária a meio metro, e uma boa parte das peças ainda exibe fluorescência azulada sob luz ultravioleta de lanterna, o que é um truque de mostrar para visita sem submeter a pedra a sol nenhum.
Onde ela não vai
Janela está fora, e é o erro mais comum com esta pedra justamente porque é onde ela brilha. O ultravioleta desfaz os centros de cor que dão o verde e o roxo, e o processo é lento o suficiente para ninguém perceber até comparar com uma foto antiga. Varanda fechada com vidro não é abrigo: vidro comum corta parte do ultravioleta e deixa passar o resto, então continua sendo estufa com filtro parcial.
Beira de mesa, prateleira de banheiro e qualquer lugar a menos de um palmo de uma quina de passagem estão fora pelo motivo mecânico. Não é fragilidade de pedra delicada em geral, é clivagem: quando abre um plano, a peça se parte lisa e inteira, e não tem conserto. Vale dizer também que essa não é pedra para ficar dentro da mesma gaveta que chave e moeda, porque dureza 4 perde para aço e a peça sai riscada.
E fica a proibição que a internet brasileira quase nunca faz: fluorita não deve ir para dentro de água que alguém vai beber, e nem para banho. É fluoreto de cálcio, muita peça vem com resina, e não existe razão nenhuma para pôr pedra em copo. Sobre dose, a regra geral desta escola continua valendo: uma peça é presença. Se a sua sala já tem plantas grandes, móvel de madeira crua e parede verde, o elemento Madeira já está bem servido, e a fluorita ali é repetição e não acréscimo.
Como cuidar sem estragar
Pano seco e macio, sempre, e essa é a instrução principal. Para o pó que se acumula em peça bruta, pincel macio de maquiagem. Se a superfície pegou gordura, um pano levemente úmido em água pura, passado rápido, e secagem imediata resolvem, mas mesmo isso já é mais do que a peça precisa na maior parte das vezes.
A água entra como ressalva por dois motivos que se somam. O primeiro é térmico: a diferença entre a temperatura da peça e a da torneira já basta para abrir um plano de clivagem, e o estrago aparece na hora ou dias depois. O segundo é que muita peça polida sai da fábrica com uma camada fina de óleo ou de cera para realçar a cor, e a água morna com sabão leva essa camada embora, deixando a pedra com aspecto opaco e leitoso. Nunca use água quente, nunca deixe de molho, nunca leve a limpador ultrassônico de joalheria.
Sal está fora, sem ressalva. Ele segura umidade contra a peça, entra nas microfissuras e faz força de dentro para fora, que é exatamente o pior tratamento possível para um mineral que já se parte em planos. Sol está fora pela cor. E existe uma precaução esquecida que estraga muita peça no Brasil: guardar a pedra em cima do gabinete da geladeira ou perto do fogão. A variação de temperatura ao longo do dia naquele ponto é maior do que parece, e ela trabalha contra a clivagem todos os dias.
Você sabia?
O fenômeno da fluorescência, aquela luz que certos materiais emitem sob luz ultravioleta e que hoje aparece em nota de dinheiro, em roupa de festa e em lâmpada de LED branca, foi batizado em homenagem a esta pedra. Em 1852, o físico irlandês George Gabriel Stokes estudava por que alguns minerais brilhavam com uma cor diferente da luz que recebiam, e usou como exemplo a variedade azulada de fluorita de Weardale, na Inglaterra. Ele cunhou o termo fluorescência a partir do nome do mineral, do mesmo jeito que opalescência veio da opala. Ou seja, todo o vocabulário moderno da luz emitida sob ultravioleta, da lâmpada fluorescente ao marcador de texto, carrega o nome de uma pedra que hoje vale poucos reais na feira de minerais e que, ironicamente, estraga se você deixar no sol.
Água, sal e sol, com o motivo mineral
Água
Com ressalva
Sal
Não
Sol
Não
Tem clivagem perfeita em quatro direções, ou seja, se parte em planos lisos com pouca pancada e com mudança brusca de temperatura. A cor desbota na luz forte, e a peça é macia o bastante para riscar com a unha do polegar apoiada numa chave.
Ver a tabela com as 23 pedrasA ficha da pedra
Composição
fluoreto de cálcio
Dureza (escala Mohs)
4, risca com a ponta de uma faca
Cor
verde e roxo em faixas, a combinação mais comum no Brasil
Elemento pelo material
Terra, como toda pedra
Elemento pela cor
Madeira
Materiais da mesma família
planta viva, madeira crua, algodão, linho, papel
O elemento Madeira nos dois ciclos
Elemento da cor
木 Madeira
Quem alimenta
Água alimenta Madeira
Quem ele alimenta
Madeira alimenta Fogo
Quem segura
Metal segura Madeira
Quem ele segura
Madeira segura Terra
Sinal de excesso
a casa parece uma selva e ninguém consegue terminar nada, porque tudo está sempre começando
As áreas do baguá em que ela se encaixa
Se você não achou esta pedra
Aventurina verde
Verde na mesma casa do baguá, com dureza 7 e nenhum plano de clivagem. Muito mais resistente, aguenta água e é a escolha óbvia para quem tem criança ou gato em casa.
Ametista
Se o que te atraiu foi o roxo, ela entrega o mesmo tom na mesma paleta com dureza 7. Também não pode tomar sol, mas aguenta água sem nenhum problema.
Uma planta viva no mesmo canto
Madeira de verdade, no sentido mais literal da escola. Custa menos que a pedra, ocupa mais espaço na casa e é o objeto que a tradição chinesa realmente usa naquele canto.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Fluorita pode tomar sol?
Posso lavar a minha fluorita?
Por que a minha fluorita rachou sozinha?
Onde a fluorita verde e roxa vai na casa?
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