As pedras lidas como material de ambiente
Calcita no feng shui
Uma gota de vinagre faz ela borbulhar, e é assim que o geólogo a identifica em campo.
O que essa pedra é de verdade
É carbonato de cálcio, o mineral mais espalhado da superfície da Terra. A mesma fórmula aparece no mármore de Carrara, no giz de lousa, no calcário que vira cimento, na casca do ovo do café da manhã, na concha da praia e nas estalactites das grutas de Minas Gerais. Quando esse material cristaliza devagar em condições certas, ele forma os blocos transparentes ou coloridos que chegam à loja de cristais, e o preço baixo se explica por essa abundância, não por qualidade inferior.
O teste de identificação é o mais divertido da mineralogia e qualquer um faz em casa: uma gota de vinagre numa parte escondida da peça produz efervescência visível, aquelas bolhinhas soltando. É a reação do ácido com o carbonato, liberando gás carbônico. Ela é definitiva, nenhuma outra pedra comum da estante faz isso. E é também o resumo do problema: se vinagre de cozinha faz a pedra borbulhar, imagine o que faz um limpador multiuso.
A cor tem origem variada. A laranja e a amarela, que são as mais vendidas no Brasil, vêm de traços de ferro; a azul e a verde vêm de outros elementos; a branca e a transparente são a forma pura. Existe uma variedade transparente chamada espato da Islândia com uma propriedade ótica notável, a birrefringência: uma linha escrita no papel aparece dobrada quando você olha através da pedra, porque o cristal separa a luz em dois raios. Se a sua peça é transparente, faça o teste hoje mesmo com uma folha escrita.
O que a tradição faz com ela
Esta pedra não vem do repertório clássico chinês, como quase nenhuma da prateleira de cristais, e a leitura dela no sistema se faz pelo caminho de sempre, o da cor e o do material. O que vale registrar aqui é que essa é uma das poucas pedras em que o material tem peso simbólico próprio dentro da tradição chinesa, ainda que por outra porta: o calcário é a matéria da pedra de jardim, aquelas rochas furadas e retorcidas dos jardins clássicos chineses, que eram objeto de coleção e de contemplação entre letrados.
No baguá orientado pela porta, o laranja e o vermelho são a paleta do Fogo, e o Fogo ocupa a casa do Reconhecimento, no meio da parede mais distante da entrada. É a casa ligada a como você é visto, a reputação e ao que leva o seu nome. Uma peça laranja ali é cor conversando com a casa. Como toda pedra também é Terra pelo material, e Fogo gera Terra no ciclo produtivo dos cinco elementos, ela funciona bem também nas casas de Terra, que são a da Saúde, no centro, e a do Conhecimento, no canto esquerdo da parede da porta.
O que a pedra não faz continua sendo o mais importante da página. Nenhuma peça de carbonato de cálcio muda reputação, acelera reconhecimento ou mexe em quem fala de você. O que um objeto escolhido de propósito faz é ficar visível no lugar em que você decidiu alguma coisa, e num canto ligado a reputação isso costuma valer mais como lembrete de manter a palavra do que como qualquer outra coisa.
Onde ela vai na sua casa
Comece pela casa do Reconhecimento. De pé do lado de fora da porta principal, entre olhando para dentro e divida o que você vê em nove partes, três por três. O meio da parede mais distante da porta é ela. Em apartamento pequeno esse ponto costuma cair na parede da TV ou na parede do fundo da sala, e a primeira providência ali quase nunca é comprar pedra: é reparar no que está pendurado naquela parede, porque é o que a casa mostra de você.
O centro do cômodo, a casa da Saúde, é o segundo endereço, e ali ela entra pelo material, Terra somando Terra. Vale a mesma observação prática de sempre: em planta brasileira, o centro da casa costuma ser corredor ou mesa de jantar, e objeto no meio da mesa de jantar tem vida curta.
Sobre o formato e o lugar físico, aqui existe uma regra que vale mais do que a escolha do canto: longe da cozinha e longe do banheiro. Essa é a pedra que menos tolera o ambiente onde as pessoas costumam apoiar pedra bonita. Prateleira de sala, estante de livro e mesa de escritório são endereços seguros, com uma condição: longe do produto de limpeza e longe do copo de suco. E se você tem a variedade transparente, ponha sobre uma folha escrita e deixe assim, porque o efeito da imagem dobrada é o melhor argumento de conversa que essa pedra tem.
Onde ela não vai
A cozinha inteira está fora, e essa é a proibição mais dura desta página. Vinagre, limão, suco de laranja, refrigerante, molho de tomate, desengordurante: qualquer um deles, respingado na peça, come a superfície e apaga o polimento em pontos irrecuperáveis. E o pior é que a reação é rápida, não é dano de anos. Uma peça de calcita apoiada perto da pia da cozinha tem prazo de validade.
Banheiro está fora pelo mesmo motivo, com dois agravantes. O primeiro é o produto de limpeza de vaso e de box, que costuma ser bem mais ácido que qualquer coisa da cozinha. O segundo é que a peça é macia, dureza 3, e a bancada de banheiro é o lugar da casa onde mais coisa dura cai em cima de outra: chaveiro, secador, frasco de vidro.
Janela pede cautela nas variedades coloridas, porque o laranja, o azul e o rosa desbotam na luz forte, e a branca e a transparente aguentam bem. E fica a proibição que precisa ser dita: calcita não vai para dentro de água que alguém vai beber. Não é conselho de saúde, é o básico, ela reage com ácido e o suco gástrico é ácido, além de que muita peça tem tinta e resina. Sobre dose, a regra da escola continua: laranja em quantidade é Fogo em quantidade, e Fogo demais deixa o ambiente agitado, com discussão fácil e sono ruim.
Como cuidar sem estragar
Pano seco de microfibra, e só. Esta é a pedra em que a instrução mais simples é a única correta, porque tudo o que se usa para limpar em casa é inimigo dela. Poeira sai com pincel macio de maquiagem, e peça bruta agradece o pincel muito mais que qualquer pano.
Água está proibida, e vale entender por quê, porque parece exagero para quem sabe que mármore existe em banheiro no mundo inteiro. Carbonato de cálcio é levemente solúvel em água pura e bem mais solúvel em água ácida, e a água da chuva e a de muitas torneiras é levemente ácida. Em escala de bancada de mármore isso demora anos e aparece como perda de brilho; em escala de uma peça pequena, com superfície polida em todos os lados, aparece bem mais rápido. É o mesmo processo que forma caverna, só que na sua estante.
Sal está fora sem discussão, tanto pela umidade que ele segura contra a peça quanto porque a mistura de sal com umidade forma exatamente o tipo de ambiente químico que corrói carbonato. Sol vale a ressalva da cor, prefira prateleira interna se a sua peça é laranja, azul ou rosa. E se a superfície já perdeu o brilho por causa de um respingo, não existe conserto caseiro: repolimento é serviço de lapidário e quase nunca compensa numa pedra dessa faixa de preço. A boa notícia é que a peça continua servindo como material de ambiente, com aspecto fosco.
Você sabia?
A variedade transparente desta pedra teve um papel possível na navegação viking, e a história é boa demais para não contar. O espato da Islândia divide a luz em dois raios, e um cristal desses, girado contra o céu, permite localizar a posição do sol mesmo com nuvem fechada ou com o sol já abaixo do horizonte, porque o padrão de polarização da luz do céu muda de forma previsível. As sagas nórdicas mencionam uma sólarsteinn, pedra do sol, usada exatamente para isso. Por muito tempo a coisa ficou no campo da lenda, até que em 2013 pesquisadores franceses publicaram a análise de um cristal desses encontrado no naufrágio de um navio elisabetano de 1592, no Canal da Mancha, reforçando que a bússola ótica não era invenção de saga. Ou seja, a mesma pedra de três reais na feira de minerais pode ter atravessado o Atlântico Norte antes da bússola magnética chegar à Europa.
Água, sal e sol, com o motivo mineral
Água
Não
Sal
Não
Sol
Com ressalva
Reage com qualquer coisa ácida, e vinagre, limão, refrigerante e produto de limpeza comum já bastam para corroer a superfície e apagar o polimento. As variedades coloridas ainda desbotam na luz forte.
Ver a tabela com as 23 pedrasA ficha da pedra
Composição
carbonato de cálcio, a mesma matéria do mármore e da casca de ovo
Dureza (escala Mohs)
3, risca com a unha de uma moeda de cobre
Cor
laranja-mel, a variedade mais vendida no Brasil
Elemento pelo material
Terra, como toda pedra
Elemento pela cor
Fogo
Materiais da mesma família
vela, lâmpada quente, couro, lã, imagem de bicho ou de gente
O elemento Fogo nos dois ciclos
Elemento da cor
火 Fogo
Quem alimenta
Madeira alimenta Fogo
Quem ele alimenta
Fogo alimenta Terra
Quem segura
Água segura Fogo
Quem ele segura
Fogo segura Metal
Sinal de excesso
o cômodo cansa em vinte minutos, discussão pega fogo rápido e ninguém dorme direito ali
As áreas do baguá em que ela se encaixa
Se você não achou esta pedra
Cornalina
Laranja na mesma casa do baguá, com dureza 7 e nenhuma reação a ácido. É a escolha certa para quem quer a cor do Fogo numa peça que aguenta cozinha e mão.
Citrino
Amarelo-mel puxando para a Terra em vez do Fogo, também quartzo e também dureza 7. Aguenta água sem problema, e a única restrição séria dele é o sol.
Uma peça de cerâmica laranja que você já tem
Cerâmica é Terra e a cor é Fogo, exatamente a mesma leitura dupla da calcita, com a vantagem de aguentar tudo e de você provavelmente já ter uma no armário.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Calcita pode molhar?
Como saber se a minha pedra é calcita mesmo?
Onde a calcita laranja vai na casa?
Minha calcita ficou fosca. Tem conserto?
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