As pedras lidas como material de ambiente
Ametista no feng shui
Um verão inteiro no parapeito da janela e o roxo virou lavanda, sem que ninguém tenha visto acontecer.
O que essa pedra é de verdade
Por baixo da cor, é quartzo comum, o mesmo mineral do vidro de janela e da areia de praia. O que muda tudo é um traço de ferro preso na estrutura mais a irradiação natural que a rocha em volta emite ao longo de milhões de anos. A combinação dos dois produz o que a mineralogia chama de centro de cor, uma pequena alteração no arranjo dos átomos que passa a absorver parte da luz e devolver roxo. Guarde essa palavra, porque ela explica tanto a beleza quanto o defeito da pedra: o que se formou por causa de radiação também se desfaz por causa dela, e a radiação do sol chega de graça na sua janela todo dia.
A geoda, aquela pedra fechada por fora e cheia de pontas por dentro, nasceu de uma bolha de gás presa na lava. O sul do Brasil está sobre um dos maiores derrames de basalto do planeta, e dentro daquelas bolhas circulou por milhões de anos uma água rica em sílica que foi depositando camada sobre camada. Por isso a casca é de ágata, cinzenta ou esverdeada, e o miolo é de cristal. A cidade de Ametista do Sul, no Rio Grande do Sul, vive disso, com túneis abertos na rocha e peças que chegam a ultrapassar um metro e meio.
Um detalhe prático para a hora da compra: a cor quase nunca é uniforme. Ela se concentra nas pontas dos cristais e clareia na direção da base, e isso é característica do mineral, não defeito. Peça inteira de roxo escuro e parelho, vendida barato, merece desconfiança, porque quartzo tingido existe e é comum. Dureza 7 quer dizer que ela risca vidro e não é riscada por aço, então a peça que você comprar hoje vai continuar inteira daqui a trinta anos, desde que ninguém a deixe na janela.
O que a tradição faz com ela
Comece pela parte que a vitrine não conta: esta pedra não aparece no repertório clássico chinês. Os manuais antigos trabalham com jade, espelho de bronze, moeda furada, sino de beiral. Ametista entrou no assunto pelo comércio ocidental de cristais, que se organizou na segunda metade do século 20 e é uma tradição respeitável naquilo que ela é, desde que ninguém a apresente como se fosse milenar. Dito isso, a pedra se encaixa no sistema sem nenhuma ginástica, e vale entender por qual porta.
O roxo é uma cor carregada na cultura chinesa, e por um motivo astronômico. O caractere zi aparece no nome da Cidade Proibida, Zijincheng, que quer dizer algo como cidade proibida púrpura, e a púrpura ali não é a da parede: é a do recinto celeste de Ziwei, a região do céu em volta do polo norte celeste, onde a astronomia imperial situava a morada do imperador do céu. O palácio na terra foi batizado com o nome do palácio no céu. É por isso que roxo, naquela cultura, lê como raro e alto, e não como cor de decoração.
No baguá orientado pela porta, que é a escola do Chapéu Negro e a que este portal adota, roxo é uma das três cores da casa da Prosperidade, junto com verde e dourado, e essa casa é de Madeira. Existe uma linha que prefere ler roxo como um vermelho escurecido, portanto Fogo; nós seguimos a paleta do baguá pela porta, e dizemos isso em voz alta em vez de fingir que só existe uma leitura. E fica registrado o que a pedra não faz: ela não decide nada por você, não muda contrato, não mexe em conta bancária. O que um objeto escolhido de propósito faz é ficar visível no lugar em que você combinou alguma coisa consigo mesmo, e isso já é bastante.
Onde ela vai na sua casa
Faça o exercício de pé, hoje. Saia para o lado de fora da sua porta principal, entre olhando para dentro e divida o que você vê em nove partes, três por três. O canto mais distante à sua esquerda é a Prosperidade. Como a paleta daquela casa inclui o roxo e o elemento dela é Madeira, uma peça de ametista ali é cor conversando com a casa, e não enfeite sorteado. Em apartamento de quarenta e cinco metros esse canto costuma ser exatamente o ponto atrás do sofá em que moram o cesto de roupa e a caixa da compra que ninguém desmontou, o que já diz qual é a primeira providência, e ela não custa nada.
O segundo endereço é o canto da esquerda na mesma parede da porta, a casa do Conhecimento, que é de Terra e tem verde escuro e bege na paleta. Ali a pedra trabalha pelo material, Terra somando Terra, e é o canto que a escola associa a estudo, silêncio e decisão tomada sozinho. Uma peça pequena na prateleira em que você estuda cumpre melhor esse papel que uma geoda enorme, porque o que importa naquele canto é a concentração e não a presença. O miolo do cômodo, a casa da Saúde, também é de Terra e recebe bem.
O tamanho manda mais do que o lugar. Geoda grande é objeto de chão, pesa dezenas de quilos, precisa de canto firme e de base com feltro por baixo, e fica linda encostada na parede do fundo com uma luz baixa apontada para ela. Drusa achatada é objeto de prateleira. Peça rolada é objeto de mesa. E aqui está a solução para o desejo legítimo de exibir a pedra sem fritá-la no sol: em vez da janela, escolha um canto interno e ponha uma luminária de mesa quente a meio metro. Você ganha o brilho todas as noites e a cor continua ali daqui a dez anos. Em imóvel alugado nada disso exige furar parede.
Onde ela não vai
A janela é o erro número um do Brasil inteiro, e é justamente o lugar em que quase todo mundo põe a peça, porque é onde ela brilha. O ultravioleta desfaz o centro de cor que levou milhões de anos para se formar, e o processo é lento o bastante para ninguém perceber: você compara com a foto do dia da compra dois anos depois e leva um susto. Vidro comum de janela corta boa parte de um tipo de ultravioleta e deixa passar o outro, então varanda fechada com vidro não é abrigo, é estufa com filtro parcial. Se a sua peça já está na janela, mude ela de lugar hoje, que é a providência de dez segundos desta página.
Cabeceira de cama pede cautela por outro motivo. Drusa e geoda bruta têm centenas de pontas vivas, e a escola desconfia de aresta na altura do corpo em ponto de passagem, aquilo que a tradição chama de flecha secreta. A trinta centímetros da orelha de quem dorme, uma placa cheia de pontas é um objeto pesado com quinas em cima de alguém deitado, e isso não pede teoria nenhuma para incomodar. Se quiser ametista no quarto, escolha peça rolada ou de superfície lisa e ponha na cômoda, do outro lado do cômodo.
Sobram dois lugares ruins e um erro de dose. Chão de corredor é convite a chute, principalmente naquele corredor de um metro e vinte que liga a sala aos quartos, e geoda usada como calço de porta é a maneira mais brasileira de destruir uma peça de museu. E vale a mesma regra que vale para tudo nesta escola: uma peça é presença, seis espalhadas pela mesma sala somam Terra demais, e Terra demais tem descrição própria na tradição, tudo fica pesado e lento, dá preguiça de sair, as decisões arrastam. Se a sua estante já tem cerâmica, tijolo aparente e tapete grosso, a ametista não é o que está faltando ali.
Como cuidar sem estragar
Lavar pode, e é bom saber disso porque metade da internet manda evitar. Quartzo tem dureza 7 e não é solúvel, então água morna corrente com pano macio resolve gordura de cozinha e marca de dedo sem nenhum risco. O que não pode é choque de temperatura: água fervendo numa peça fria racha ponta fina, e o mesmo vale para tirar a geoda do carro quente e pôr embaixo da torneira. Detergente concentrado, água sanitária e produto de limpeza pesado também estão fora, não pela pedra, mas pela cola e pela base de madeira em que muitas peças vêm montadas.
Poeira é o que mais rouba brilho, e ninguém percebe porque o processo é lento. Pincel macio de maquiagem tira o pó de dentro das pontas melhor que qualquer pano. Para geoda grande existe um truque de museu que funciona em casa: prenda uma meia fina com elástico no bocal do aspirador e passe por cima. A meia deixa o ar passar, retém a sujeira e impede que qualquer lasca solta suma dentro do aparelho. Uma vez por mês encerra o assunto.
O sal fica fora por três razões concretas, e nenhuma delas é espiritual. Ele puxa umidade do ar e mantém a peça molhada por muito mais tempo do que uma lavada rápida; ele cristaliza dentro das microfissuras da drusa e faz força de dentro para fora, que é o mesmo processo que descasca pedra de calçadão de orla; e ele ataca a cola, a base e qualquer metal que esteja segurando a peça. Se a sua ametista já clareou, não existe conserto caseiro, e vale saber: a cor que sumiu sumiu. A peça pálida continua servindo como material de ambiente, só perdeu a metade da razão pela qual você pagou por ela.
Você sabia?
O nome vem do grego amethystos, que significa não embriagado, e os gregos levavam isso a sério a ponto de beber em taças lavradas na pedra e de segurar um pedaço na boca durante o banquete. Até aí é história documentada. A parte que quase todo site brasileiro conta errado é a lenda: aquela do deus do vinho perseguindo a jovem Ametiste, que teria sido transformada em pedra branca e tingida de roxo pelo vinho derramado como oferenda, não é mito grego coisa nenhuma. Ela foi inventada em 1576 pelo poeta francês Rémy Belleau, num livro de poemas sobre pedras preciosas, e de tanto ser repetida acabou promovida a mito antigo. Ou seja, a pedra que os gregos usavam contra a bebedeira ganhou, dois mil anos depois, uma lenda grega escrita por um francês do Renascimento. Vale contar essa numa mesa de bar, de preferência com a taça na mão.
Água, sal e sol, com o motivo mineral
Água
Pode
Sal
Com ressalva
Sol
Não
Água morna não faz mal nenhum, porque quartzo é duro e não é solúvel. Sol faz: o roxo vem de um defeito minúsculo na estrutura que o ultravioleta desmancha, e a peça clareia até quase incolor. Sal, só com ressalva, por causa das fissuras da drusa e da cola da base.
Ver a tabela com as 23 pedrasA ficha da pedra
Composição
quartzo, dióxido de silício, com traço de ferro
Dureza (escala Mohs)
7, risca vidro
Cor
roxo, do lilás claro ao uva escuro
Elemento pelo material
Terra, como toda pedra
Elemento pela cor
Madeira
Materiais da mesma família
planta viva, madeira crua, algodão, linho, papel
O elemento Madeira nos dois ciclos
Elemento da cor
木 Madeira
Quem alimenta
Água alimenta Madeira
Quem ele alimenta
Madeira alimenta Fogo
Quem segura
Metal segura Madeira
Quem ele segura
Madeira segura Terra
Sinal de excesso
a casa parece uma selva e ninguém consegue terminar nada, porque tudo está sempre começando
As áreas do baguá em que ela se encaixa
Se você não achou esta pedra
Fluorita roxa
Custa bem menos e tem roxo mais vibrante, com duas ressalvas grandes: é mole, dureza 4, e se parte em planos com pouca pancada, além de desbotar na luz ainda mais rápido que a ametista.
Lepidolita
Lilás acinzentado, formada por lâminas empilhadas que descolam com facilidade. Não pode molhar e esfarela nas bordas, então serve para prateleira alta, longe de mão e de circulação.
Um tecido roxo que você já tem
Almofada, manta ou o forro de dentro da estante entregam a mesma cor na mesma casa do baguá, ocupam muito mais campo de visão que qualquer pedra e não custam nada.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Ametista pode tomar sol?
Posso lavar a minha ametista ou deixar no sal grosso?
Ametista serve para o canto do dinheiro?
Minha ametista clareou. Tem conserto?
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