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Checklist por objetivo

Feng shui para o relacionamento

Olhe agora para o canto mais distante da porta da sua casa: é para lá que vai, sem ninguém combinar, tudo que não tem onde ficar. Antes do roteiro, a parte honesta: nenhuma mudança de móvel resolve uma relação, e nenhuma cura de ambiente traz alguém para a sua vida. O que a área do Amor faz, na escola do Chapéu Negro, é organizar a sua atenção sobre o assunto, e a casa é onde você vê todo dia aquilo que decidiu. Aqui vão o canto do fundo à direita, os dois lados da cama, a regra clássica dos pares e o motivo de a foto da família inteira não ser a melhor escolha para o canto do casal.
O canto não conversa por você. Ele só impede que a conversa vire assunto do mês que vem.

Por que a casa entra nisso

Comecemos pelo que essa área não é. Ela não é pedido, não é encomenda e não tem nada a ver com atrair pessoa. Kun, o trigrama que rege esse canto no baguá da porta, é a terra receptiva, o chão que sustenta, e o que a tradição pôs ali foi a ideia de sustentação, não a de conquista. É por isso que a mesma casa do mapa cobre casamento, amizade profunda e sociedade de negócio: tudo que envolve duas pessoas dividindo o mesmo peso, inclusive quem toca uma loja com o irmão.

A parte que funciona é a mais simples de explicar. Você olha para os mesmos cantos da sua casa milhares de vezes por ano, e o que está neles vira pano de fundo do que você pensa. Um canto do casal ocupado pela caixa de ferramenta, pelo cesto de roupa suja e por uma foto sua de quinze anos atrás não estraga relação nenhuma, mas também não lembra você de nada. Quando a escola pede par no lugar do avulso, ela está escolhendo o lembrete que fica no seu campo de visão, e é só isso que ela promete.

A regra de ouro

Tudo em dois, e acessível dos dois lados. É a regra clássica desse setor e ela vale primeiro para a cama, depois para o canto do fundo à direita, depois para o resto: duas mesas de cabeceira equivalentes, dois abajures, espaço para os dois entrarem e saírem sem passar por cima de ninguém, objetos em par no canto. Não é sobre simetria bonita, é sobre a casa admitir que ali vivem duas pessoas, ou que cabe uma segunda.

Vale para quem está sozinho também, e aí a leitura fica mais interessante. Uma casa arrumada inteirinha para uma pessoa só, com um lado da cama grudado na parede, uma xícara na prateleira e uma cadeira na mesa, é uma casa que já respondeu a pergunta. Deixar o outro lado livre não convoca ninguém, e este portal não vai dizer que convoca. Muda apenas a resposta que a casa dá para você todo dia, e isso é bem menos e bem mais concreto do que a internet costuma prometer.

O checklist, na ordem de impacto

  1. 1Encontre o canto do Amor

    Pare do lado de fora da porta principal, entre olhando para dentro e vá até o ponto mais distante à sua direita. Esse é o setor do Amor na escola do Chapéu Negro, trigrama Kun, elemento Terra, cores rosa, vermelho e branco. A escola tradicional colocaria essa área sempre no Sudoeste da bússola, sem olhar para a porta; as duas são coerentes por dentro e o que não dá é misturar. Aqui seguimos a porta, que é a versão que chegou ao Brasil.

  2. 2Tire dali o objeto solitário

    Olhe o que está nesse canto agora mesmo. Cadeira sozinha, um vaso só, a sua foto sozinha na praia, o violão que ninguém toca: a tradição pede que o setor do par não seja ocupado por imagem de solidão. Guardar é de graça e leva um minuto.

  3. 3Troque os avulsos por pares

    No lugar do que saiu, ponha coisas em dois: dois castiçais, duas almofadas iguais, duas fotos do mesmo tamanho, dois vasos. Não compre nada para isso, toda casa já tem par de alguma coisa. E entenda o motivo antes de executar, senão vira superstição: par no campo de visão é lembrete visual, e lembrete visual é a única coisa que um objeto sabe fazer.

  4. 4Desfaça o lado de dentro e o lado de fora

    Cama encostada na parede cria uma hierarquia silenciosa dentro do quarto: um dorme na beirada e levanta quando quer, o outro fica do lado de dentro e precisa pedir passagem. Ninguém reclama disso em voz alta porque parece pequeno demais para virar assunto, e é exatamente por isso que o arranjo dura anos. Trinta centímetros livres de cada lado desfazem a assimetria, e em quarto apertado essa faixa costuma aparecer só puxando a cama alguns centímetros para o centro da parede.

  5. 5Iguale as duas mesas de cabeceira

    Duas superfícies equivalentes, dois abajures, dois interruptores ao alcance: a escola lê isso como paridade, e a vida real lê como não precisar acordar o outro para apagar a luz. Não precisam ser iguais de loja, e um banquinho de um lado com uma caixa bonita do outro resolve. Repare de quem é o lado que ficou com o carregador, o remédio, o livro e o copo, e de quem é o lado que ficou com nada.

  6. 6Mude a foto de família dali

    Este é o item que mais surpreende: a escola desaconselha foto da família inteira, dos filhos e dos pais no canto do casal, e o motivo não é frieza. Esse canto é o único lugar do mapa dedicado à relação de dois, e a foto de todo mundo devolve ali a versão da casa em que vocês são pai, mãe, filha e avó. Foto de família tem endereço próprio no baguá, o setor da Família, no meio da parede da esquerda. Mude de parede, não jogue fora.

  7. 7Tire o trabalho desse canto

    Notebook, pilha de papel, mala de viagem de trabalho e cesto de roupa suja no canto do casal são o retrato mais comum do apartamento pequeno brasileiro. Se não houver outro lugar, pelo menos feche: uma caixa com tampa, um pano por cima, uma porta de armário. O que a escola pede é que o assunto do canto seja o assunto do canto.

  8. 8Ilumine e limpe esse canto

    Canto escuro é canto que ninguém olha, e o do Amor costuma cair atrás do sofá ou junto do guarda-roupa, onde a luz do teto não chega. Uma luminária que já existe em outro cômodo, uma lâmpada trocada e um pano no pó resolvem a maior parte. Como o elemento aqui é a Terra, cerâmica, argila e tecido grosso combinam melhor do que metal frio.

  9. 9Ponha rosa, vermelho ou branco ali

    São as cores do setor, e a leitura chinesa não é romântica: são as cores da terra receptiva e do calor doméstico. Uma manta, uma almofada, uma toalha dobrada, uma peça de cerâmica que você já tem em outro cômodo. Vale o de sempre: cor não funciona melhor por ser cara, e vaso de barro de feira cumpre o papel de qualquer peça de decoração.

  10. 10Use a mesma área para sociedades

    Se você tem sócio, cliente fixo ou uma parceria de trabalho que anda pedindo cuidado, é este mesmo setor que a tradição indica, porque Kun rege toda relação de dois e não só a amorosa. Na prática isso muda o que você põe ali: dois cadernos, duas canetas, o contrato assinado guardado inteiro em vez de espalhado. Serve para quem divide aluguel de estúdio, para quem toca negócio com um irmão e para quem trabalha com o cônjuge.

  11. 11Marque a conversa que falta

    Terminado o canto, sobra a parte que nenhuma casa faz por você. Se existe assunto pendente com a pessoa, ele continua pendente com o canto arrumado e com a foto trocada de parede. Marque a conversa, escolha uma hora em que os dois não estejam exaustos e diga o que precisa ser dito. Relação se resolve conversando, e a casa no máximo abre espaço para a conversa acontecer sem ninguém tropeçar em caixa de papelão.

O erro que quase todo mundo comete

Muita gente trata esse canto como pedido e não como lembrete. Aí entra o kit inteiro: par de patos de resina, quadro de casal abraçado na praia, cristal rosa, papel dobrado com um nome escrito embaixo do vaso. Não faz mal a ninguém, mas repare no que acontece em seguida: o objeto fica ali cumprindo o expediente, e a pessoa continua sem tocar no assunto com quem interessa. A escola que este portal segue não trabalha com encomenda, trabalha com arranjo, e arranjo é o que você organiza, não o que você espera.

Tem ainda um tropeço mais concreto e mais fácil de corrigir: o canto do Amor virou depósito justamente porque é o ponto mais distante da porta, e é para lá que a gente empurra o que não sabe onde pôr. Repare na coincidência: a lógica da casa e a lógica do mapa apontam para o mesmo metro quadrado, uma para esconder e a outra para cuidar. Ganha quem chegar primeiro.

Você sabia?

O trigrama do setor do Amor é Kun, e ele tem uma particularidade que vale contar numa mesa de bar: dos oito trigramas do I Ching, é o único formado por três linhas partidas, ou seja, inteiramente yin, sem uma única linha cheia. A imagem que a tradição deu a ele não é a rosa, nem a chama, nem o par de pássaros: é o chão. Terra receptiva, aquilo que recebe a semente, aguenta o peso e não cobra crédito por isso. Escolher o chão como símbolo do amor, e não o fogo, diz bastante sobre como aquela cultura enxergava relação de longo prazo, e explica por que a mesma casa do mapa serve para casamento e para sociedade de negócio, duas coisas que só duram quando alguém sustenta a parte chata.

As áreas do baguá que tocam este assunto

Porta de entrada
Fique do lado de fora e entre. A parede que ficou atrás de você é a linha de baixo desta grade, e a de cima é a parede do fundo. Este é o baguá da escola do Chapéu Negro, que orienta pela porta. A escola tradicional orienta pela bússola e chegaria a outro desenho na mesma casa.

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Sou solteiro. Faz sentido mexer nessa área?
Faz, desde que pelo motivo certo. Arrumar o setor não convoca ninguém, e quem diz o contrário está inventando. O que muda é o que a sua casa afirma para você todo dia: uma casa organizada para uma pessoa só, com um lado da cama contra a parede e nenhum lugar livre, é uma casa que já decidiu. Deixar dois lugares acessíveis e tirar dali a imagem de solidão é um gesto pequeno e barato, e o resto da vida continua acontecendo fora de casa, que é onde ela sempre aconteceu.
O canto do Amor da minha casa é o banheiro. E agora?
Acontece com muita gente, sobretudo em apartamento pequeno com banheiro dentro do quarto, e não é sentença. Banheiro é o cômodo feito para levar coisas embora, então a orientação é a de sempre: porta fechada, tampa baixada, ralo limpo, nada pingando, e uma planta se houver alguma luz. Como o baguá se repete dentro de cada cômodo a partir da porta dele, você pode trabalhar o setor do Amor dentro do quarto, que é onde o assunto mora de verdade. As duas leituras não se anulam.
Posso ter foto dos meus filhos no quarto do casal?
Pode, e a escola não tem nada contra filho, tem uma questão de endereço. O quarto do casal é o cômodo dedicado à relação de dois, e a parede em frente à cama é o que vocês olham antes de dormir e ao acordar. Se a foto dos filhos, dos pais e dos avós ocupa esse lugar, o cômodo passa a lembrar a função de pai e mãe, que já ocupa o resto do dia inteiro. Leve as fotos para a sala, para o corredor ou para o setor da Família, no meio da parede da esquerda, e deixe no quarto uma imagem que fale de vocês dois.
Isso ajuda a arrumar um relacionamento?
Não ajuda, e prometer isso seria desrespeitoso com quem chega aqui querendo resolver algo importante. Nenhuma mudança de móvel muda a vida amorosa de ninguém: relação se constrói com conversa, tempo, disponibilidade e, quando é o caso, terapia. O que este roteiro entrega é menor e verdadeiro: um canto da casa que fala do assunto em vez de escondê-lo, um quarto em que duas pessoas cabem sem disputa, e uma foto trocada de parede que faz você lembrar de uma pergunta que vinha evitando. O que se faz com a lembrança é a parte que importa.

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