Checklist por cômodo
Feng shui na cozinha
A cozinha é o único cômodo da casa onde alguma coisa se transforma todo dia. Ela merece bancada vazia.
Por que este cômodo importa tanto
Repare numa coisa que acontece em toda festa: a cozinha enche sozinha. Ninguém convida, ninguém combina, e ainda assim é ali que as pessoas se encostam na bancada e ficam até o fim. Na leitura chinesa clássica isso tem nome, porque o fogão é o objeto mais importante do imóvel, à frente até da cama, já que dele sai o alimento que sustenta as pessoas que moram ali. Não é uma metáfora bonita inventada depois: em manuais antigos, escolher o lugar do fogão vinha antes de escolher o lugar do quarto. A tradução para a vida de hoje é direta, é aqui que a casa cuida de quem mora nela, e um cômodo que cuida não pode ser o mais bagunçado de todos.
Tem ainda o argumento que qualquer pessoa que cozinha reconhece na hora. A cozinha é o cômodo com mais decisões por metro quadrado: fogo aceso, faca na mão, criança entrando, panela fervendo, celular tocando. Bancada entulhada e luz fraca em um lugar assim não são detalhe estético, são atrito real na única tarefa da casa que envolve lâmina e chama ao mesmo tempo.
A regra de ouro
Duas coisas mandam aqui. A primeira: quem está cozinhando enxerga quem entra, sem susto e sem precisar virar o corpo. A segunda: o fogão está limpo, com todas as bocas acendendo, porque a escola trata o fogão como o termômetro do cuidado da casa inteira.
A escola tradicional, que orienta pela bússola, coloca a coisa de outro jeito: para ela o que importa é a direção para onde aponta a boca do fogão, ou seja, de onde vem o gás ou a energia do aparelho. É um cálculo bonito e quase impossível de aplicar num apartamento alugado com um ponto de gás só. A nossa ordem, na escola do Chapéu Negro, é olhar para onde o corpo de quem cozinha está voltado. Quando as duas divergem, seguimos a pessoa, não o cano.
O checklist, na ordem de impacto
1Veja quem entra enquanto cozinha
Se você fica de costas para a porta no fogão, e essa é a planta de nove em cada dez cozinhas brasileiras, o corpo passa o preparo inteiro levando pequenos sustos. A correção não custa nada: encoste na parede acima do fogão qualquer superfície que reflita, uma bandeja de inox, a lateral polida de uma travessa, um azulejo brilhante já limpo. A lista está em ordem de impacto, e este é o item que mais gente sente na primeira semana.
2Deixe o fogão limpo e inteiro
Boca que não acende, botão que caiu, forno que ninguém usa há dois anos: a escola lê o fogão como o retrato do sustento da casa, e um fogão pela metade é uma frase sobre o cuidado que se está tendo consigo. O motivo prático dispensa simbolismo, gordura acumulada perto de chama é risco, e queimador entupido gasta mais gás para o mesmo cozimento. Meia hora com esponja e água quente e o cômodo vira outro.
3Use todas as bocas por rodízio
A tradição conta as bocas do fogão como fontes de sustento e recomenda que nenhuma fique parada, e a versão prática dessa regra é ainda mais convincente: o queimador que nunca acende é justamente o que vai falhar na ceia de Natal, quando você precisar dos quatro. Faça o rodízio sem cerimônia, hoje a de trás, amanhã a da frente. Você descobre o defeito num dia comum, e não com a casa cheia.
4Ponha madeira entre o fogo e a água
Fogão colado na pia ou de frente para a geladeira é o conflito mais citado da cozinha, porque junta os dois elementos que se anulam. A cura clássica é acrescentar madeira no meio, já que a madeira é o que transforma a água em fogo em vez de deixar os dois brigando: uma tábua de corte em pé, um vaso de manjericão ou de cebolinha, um pano verde dobrado sobre a bancada. Se houver espaço para vinte centímetros de bancada livre entre eles, melhor ainda, e isso é grátis.
5Esvazie a bancada até o fim
Na cozinha americana do apartamento de dois quartos, a bancada é ao mesmo tempo divisória da sala, mesa de refeição, escrivaninha, carregador de celular e depósito de chave. É a superfície mais disputada da casa brasileira, e o resultado é que ninguém consegue cozinhar sem antes empurrar coisas para o lado. Escolha um pedaço, meio metro que seja, e defenda ele vazio como se fosse cômodo separado.
6Guarde as facas fora da vista
Faca à mostra na barra magnética ou espetada no bloco em cima da bancada é o que a escola chama de flecha, uma ponta permanentemente apontada para quem está ali. Vale a leitura fria também: lâmina na altura da mão de criança é o motivo pelo qual pediatra e feng shui concordam sem nunca terem se falado. Uma gaveta com protetor de papelão dobrado resolve por zero real; se não há gaveta livre, guarde o bloco dentro do armário de baixo.
7Tampe o lixo e esvazie todo dia
Lixo aberto embaixo da pia é o ponto que mais rápido estraga a sensação de uma cozinha limpa, e é o mais barato de corrigir. Tampa fechada, saco trocado antes de encher e uma limpeza semanal do balde por dentro, que é a parte que quase ninguém faz. A tradição pede que o que sai da casa saia discreto; o nariz de quem chega concorda sem precisar de escola nenhuma.
8Descarregue a geladeira por fora e por dentro
A porta da geladeira virou o mural da casa brasileira, e vale olhar o que está pendurado ali: se for só conta, lembrete de consulta e ímã de viagem de 2014, esse é o painel que a família consulta dez vezes por dia. Deixe três coisas boas de olhar e guarde o resto numa pasta. Em cima da geladeira, tire as caixas empilhadas, porque o motor precisa de folga para dissipar calor e a conta de luz responde a isso.
9Resolva o ralo e o pano molhado
Pia entupindo devagar, cheiro voltando pelo ralo, esponja encharcada há três dias e pano de prato úmido pendurado desde ontem formam o conjunto que mais compromete uma cozinha em ordem. A escola vê água parada onde a água devia correr. A vida real vê bactéria e mau cheiro. Troque a esponja, pendure o pano aberto para secar e jogue água fervente com bicarbonato no ralo hoje.
10Ilumine o lugar onde você corta
A lâmpada única no meio do teto deixa a sua própria sombra em cima da tábua exatamente na hora de picar alguma coisa, e essa é a iluminação padrão da cozinha brasileira. Uma luminária de tomada presa embaixo do armário aéreo custa pouco, e a versão de custo zero é mudar o lugar onde você corta para o ponto mais claro da bancada. Cozinha bem iluminada é cozinha que a pessoa usa; cozinha escura vira lugar de esquentar marmita.
11Traga algo vivo para a bancada
Um vaso de manjericão, um dente de alho brotando num copo, um galho de alecrim na água: além de servir para cozinhar, cumprem o papel da madeira na cozinha, que é o elemento que a escola usa para amaciar o encontro do fogo com a água. É o último item da lista de propósito, porque é o mais gostoso e o menos determinante. Planta em cozinha bagunçada é enfeite; planta em bancada limpa é convite.
O erro que quase todo mundo comete
Transformar a cozinha no escritório da casa é o deslize que quase ninguém percebe como deslize. A conta a pagar fica no balcão, o carregador do notebook mora na tomada da pia, o caderno da escola das crianças dorme ao lado do açucareiro, e a bancada onde deveria acontecer a única transformação diária da casa passa a ser administrada por pendências. Não é preguiça, é falta de outro lugar: em apartamento pequeno, a bancada é a maior superfície plana disponível. Vale escolher, então, um outro ponto para as pendências, mesmo que seja uma caixa em cima da estante da sala.
O segundo tropeço é achar que resolver a cozinha depende de reforma. Não depende. Ninguém precisa mudar o fogão de parede nem trocar armário para cumprir esta lista: as três curas mais fortes daqui são enxergar quem entra, limpar o fogão e liberar a bancada, e as três se fazem com pano, esponja e meia hora.
Você sabia?
A tradição chinesa tem um personagem que mora na cozinha o ano inteiro: Zao Jun, o Deus do Fogão, cuja imagem ficava colada na parede logo acima da chama. Ele observava tudo o que acontecia na casa e, na virada do ano lunar, subia ao céu para relatar o comportamento da família. Por isso existia o costume de passar mel ou uma pasta doce nos lábios da imagem antes da viagem, para que ele chegasse lá em cima só conseguindo falar coisa doce. É a explicação mais bem-humorada de por que a cozinha nunca foi um cômodo qualquer nessa cultura: era o único lugar da casa com uma testemunha fixa, e ninguém queria ser mal falado no céu por causa de um fogão sujo.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
E se o meu fogão fica colado na pia e não tem como mudar?
Minha cozinha é americana e dá direto para a sala. Isso é ruim?
Preciso ter cristal, sino ou moeda vermelha na cozinha?
Isso funciona mesmo ou é só uma cozinha organizada com nome chinês?
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