Checklist por cômodo
Feng shui na sala
Sala boa não é a mais bonita. É aquela em que a visita esquece a hora de ir embora.
Por que este cômodo importa tanto
Existe um tipo de sala que ninguém usa. A casa tem sofá, tem televisão, tem almofada combinando, e mesmo assim todo mundo acaba no quarto ou encostado na bancada da cozinha. Não é falta de gosto nem falta de dinheiro: é quase sempre um problema de posição e de luz, e os dois se corrigem numa tarde. Quando as cadeiras se olham, quando existe uma parede firme atrás de quem senta e quando a luz não vem só de cima, as pessoas ficam mais tempo sem saber explicar por quê.
Na lógica do baguá da escola do Chapéu Negro, a sala costuma ser o cômodo mais estratégico da casa porque frequentemente contém a porta de entrada e, com ela, boa parte do mapa das nove áreas: a Carreira na faixa da porta, os Amigos protetores no canto direito de quem entra, o Reconhecimento na parede do fundo, bem de frente para quem chega. Não é preciso decorar essa geografia para usar a página. Basta saber que a sala concentra decisões que os outros cômodos não concentram, e que ela é o único lugar da casa desenhado para a convivência.
A regra de ouro
Sente onde você mais senta e responda duas perguntas: tem parede atrás de você, e dá para ver quem entra sem torcer o pescoço? Se as duas respostas forem sim, a estrutura do cômodo está de pé e o resto é ajuste. Se alguma for não, comece por ela, porque nenhuma almofada compensa sentar de costas para o movimento da casa.
A tradição descreve o lugar ideal com uma imagem que se entende na hora: a poltrona. Uma montanha firme atrás das costas, dois braços de terreno mais baixos nas laterais, e à frente um espaço aberto com vista. Traduzindo para a sua sala, o sofá encostado na parede é o encosto, as poltronas ou a estante nas laterais são os braços, e a mesa de centro baixa com o caminho livre à frente é a vista. Toda vez que um móvel te obriga a sentar sem encosto e sem vista, ele está desmontando essa poltrona.
O checklist, na ordem de impacto
1Libere o caminho de quem atravessa
Ande da porta de entrada até a cozinha sem desviar de nada. Se você precisou contornar a mesa de centro, pisar num carregador ou empurrar uma cadeira, esse é o primeiro conserto, e a lista está em ordem de impacto justamente porque este item muda mais do que todos os enfeites do cômodo somados. O corpo aprende o desvio e para de reclamar, mas continua gastando um pouquinho de atenção em cada volta, dez vezes por dia.
2Encoste o sofá numa parede inteira
Sofá flutuando no meio da sala é bonito em foto de apartamento decorado e desconfortável em apartamento de verdade, porque quem senta fica com as costas expostas ao corredor. Empurre até a parede cheia, de preferência aquela que permite ver a porta. Se o seu sofá precisa ficar solto por causa da planta, ponha um aparador estreito ou uma mesa lateral atrás dele: a escola quer a sensação de apoio, e um móvel na altura do encosto já entrega isso.
3Sente vendo quem chega
Quem senta de costas para a porta de entrada passa a noite inteira sendo surpreendido, e em casa com criança ou com muita gente isso cansa de verdade. O ideal é o assento principal ficar na diagonal em relação à porta, vendo a entrada de canto de olho. Quando não dá para girar nada, uma poltrona pequena virada para a porta resolve o cômodo para as visitas e para você, e ela pode ser aquela cadeira que já está sobrando no quarto.
4Tire a televisão do comando
Não é a televisão que atrapalha, é o fato de ela ser a única coisa para a qual todos os assentos apontam: todo mundo olha para a mesma parede e ninguém olha para ninguém. Gire o sofá alguns graus ou acrescente uma poltrona em ângulo, e o cômodo passa a ter duas configurações, a de assistir e a de conversar. Existe também o efeito mensurável: televisão ligada sem ninguém assistindo obriga a casa toda a falar mais alto o tempo inteiro, e você só percebe quando desliga.
5Troque a luz do teto por camadas
A lâmpada única no meio do forro é o padrão brasileiro e o motivo pelo qual muita sala parece sala de espera às nove da noite. Duas fontes baixas mudam o cômodo mais do que uma pintura nova: um abajur em cima do aparador e uma luminária de chão ao lado do sofá, ambos com lâmpada de luz quente. Se não quiser gastar nada agora, comece transferindo o abajur que está no quarto e vendo o resultado hoje à noite.
6Tire um móvel da sala
Escolha um só, o que menos serve, e leve para outro cômodo ou para a doação. Em sala pequena, cada móvel a mais rouba caminho e obriga o corpo a se espremer sem que ninguém repare que está fazendo isso. A escola fala em circulação do chi; a régua doméstica é mais simples, duas pessoas precisam conseguir se cruzar na sala sem que uma pare para a outra passar.
7Abra o canto que virou depósito
Toda sala brasileira tem um: a pilha atrás da porta, a caixa da compra online que ninguém desmontou, a bicicleta ergométrica com roupa pendurada, a sacola de material de escola. É o canto que você evita olhar, e evitar custa mais atenção do que resolver. Marque uma hora no fim de semana e comece pelo menor deles, porque o menor devolve a coragem para o próximo.
8Aproxime as cadeiras da conversa
Sofá e poltrona a três metros de distância obrigam as pessoas a levantar a voz, e ninguém se abre falando alto. Reúna os assentos em volta da mesa de centro, com um metro e meio no máximo entre quem conversa, e use um tapete para marcar essa ilha. Se não tiver tapete, o próprio arranjo já funciona: o que ancora a roda é a distância, não o tecido.
9Encerre o expediente da sala-escritório
Em muita casa a sala virou escritório em 2020 e nunca mais deixou de ser, com o notebook morando na mesa de centro e o monitor em cima do aparador. Se é o seu caso, crie o gesto de fim de dia: fecha o notebook, guarda na gaveta ou numa caixa bonita, e um pano cobre o que não dá para guardar. Trinta segundos separam o cômodo de trabalhar do cômodo de estar, e a diferença aparece na hora em que você senta para descansar.
10Ponha algo vivo em dois cantos
Planta na sala faz um trabalho de forma antes de fazer qualquer outro: amacia canto reto, preenche vão morto entre móveis e dá ao olho onde pousar. Comece pelos cantos vazios, que são os que mais pedem. A versão de custo zero continua sendo a muda no vidro de conserva, e uma jiboia enraizada em duas semanas resolve dois cantos por o preço de zero real.
11Escolha o que fica de frente para a porta
A parede do fundo, aquela que a pessoa encara ao entrar, é a área do Reconhecimento no baguá da escola do Chapéu Negro, e é o lugar mais visto e menos pensado da casa. Pendure ali uma foto de que você gosta, um quadro barato, um pano bonito esticado. É o último item da lista porque é o mais decorativo, e decoração em sala com caminho entupido não conserta nada.
O erro que quase todo mundo comete
Encostar todos os móveis nas paredes é o reflexo automático de quem quer ganhar espaço, e ele funciona ao contrário do esperado. A sala fica com um buracão no meio, as pessoas se sentam longe umas das outras, a conversa exige volume e o cômodo passa a parecer sala de espera de consultório. A escola prefere o oposto: uma ilha de assentos próximos, com a circulação passando por fora dela. Experimente puxar a poltrona vinte centímetros para dentro e ver como muda a sensação de estar ali.
O segundo tropeço é comprar antes de mudar de lugar. É muito mais tentador escolher uma almofada nova do que empurrar um sofá de dois metros, mas o efeito das duas coisas não se compara. Faça primeiro tudo o que é grátis, more uma semana com a sala nova e só depois decida se ainda falta comprar alguma coisa. Na maioria das vezes, não falta.
Você sabia?
Vale saber por que o Brasil aprendeu o feng shui da porta e não o da bússola. A escola do Chapéu Negro, ou BTB, foi levada ao Ocidente a partir do fim dos anos 1970 pelo mestre Lin Yun, que ensinava nos Estados Unidos e adaptou a tradição para casas ocidentais, onde ninguém sabia para onde a fachada estava virada e quase ninguém podia mudar isso. Ele propôs orientar o baguá pela porta de entrada, o que resolvia o problema de aplicação sem exigir bússola. Foi essa versão que chegou aqui pelos livros traduzidos do inglês nos anos 1990, e é por isso que a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar da escola tradicional, que continua ativa na Ásia e trabalha com graus da bússola. As duas são coerentes por dentro; misturar as duas na mesma casa é que não funciona.
As áreas do baguá que tocam este assunto
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Minha sala é conjugada com a cozinha e é a sala de jantar também. Como aplico?
E se meu sofá só cabe de costas para a porta?
Preciso de tapete, cortina e planta para a sala ter feng shui?
Mudar móvel de lugar muda alguma coisa de verdade?
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