A escola que o Brasil pratica, dita pelo nome
Feng shui e religião: a pergunta honesta
Dá para morar no térreo de um prédio a vida inteira sem nunca subir ao último andar. Ninguém é obrigado a usar a escada.
O que é, do zero
Pense no assunto como um prédio de três andares. No térreo mora a organização do espaço, e ela não pede crença nenhuma: porta que abre inteira, luz suficiente, caminho livre, nada quebrado, ar circulando, cama com parede sólida atrás da cabeceira, cadeira que não fica de costas para quem entra. Qualquer pessoa de qualquer fé, e qualquer pessoa sem fé nenhuma, pode fazer tudo isso hoje à tarde. É onde mora a maior parte do resultado prático, e é onde este portal passa a maior parte do tempo.
No andar do meio mora o vocabulário simbólico: o mapa das nove áreas, os cinco elementos, as cores associadas a cada trigrama, a ideia de que um canto pesado pede material de Terra e um canto parado pede movimento. Isso não é religião, é convenção, uma gramática herdada do pensamento clássico chinês, do mesmo modo que ler uma planta em nove quadrados é uma convenção. Você não precisa acreditar que o vermelho é Fogo para reconhecer que uma parede vermelha muda o clima de uma sala, e ninguém está sendo convidado a adorar coisa alguma ao pôr um vaso de barro num canto.
No último andar mora a camada devocional, e ela existe mesmo: mantras recitados, gestos rituais de mão, bênçãos de casa, transmissão de professor para aluno, o templo da linha em Berkeley fundado em 1986. Isso é prática religiosa budista, e quem quiser praticá-la deve procurá-la onde ela é ensinada de verdade, com um professor, por escolha própria. Este portal não ensina essa camada, não a recomenda e não a desaconselha: apenas informa que ela existe, porque esconder isso seria enganar quem pergunta.
De onde isso veio
O feng shui nasceu dentro da cosmologia chinesa clássica, aquele conjunto de ideias sobre yin e yang, cinco elementos e ciclos de tempo que atravessa a medicina, o calendário, a estratégia e a arquitetura daquela cultura. Não é escritura de nenhuma religião e nunca teve clero próprio: foi praticado ao longo dos séculos por gente confucionista, taoista, budista e por quem não se declarava nada, do mesmo jeito que a medicina tradicional. Chamá-lo de religião chinesa é um equívoco de categoria.
A escola do chapéu preto é o caso particular em que uma linha específica se formou dentro de um contexto religioso. Ela foi organizada no Ocidente pelo professor Lin Yun, que vinha de formação budista tântrica, e trouxe para dentro do método um alicerce dessa tradição: a prática dos três canais, corpo, palavra e mente, alinhados no mesmo instante. É por isso que o nome inclui a palavra budismo, e é por isso que a linha, ao contrário das escolas tradicionais chinesas, tem templo. Nada disso foi escondido em momento algum pela escola: quem escondeu, sem querer, foi a tradução comercial que chegou ao Brasil nos anos 1990 pela prateleira de decoração.
Vale registrar também que a relação do feng shui com as instituições nunca foi simples, nem na própria China. Em determinados períodos do século 20, a prática foi oficialmente classificada como superstição e desencorajada na China continental, enquanto seguia funcionando normalmente em Hong Kong, em Taiwan e entre chineses espalhados pelo mundo. Ou seja, a acusação de superstição não é invenção ocidental nem preconceito religioso brasileiro: é uma discussão antiga, feita em chinês, dentro da própria cultura de origem.
O que muda na sua casa hoje
Se você tem uma fé e quer usar o método sem tocar em nada que atrapalhe isso, o caminho é limpo e é largo. Faça o térreo inteiro: abra a porta até o fim e tire o que a trava, troque as lâmpadas queimadas, libere o caminho da entrada até a cozinha, conserte a torneira que pinga, esvazie o canto que virou depósito, abra a janela do cômodo que nunca se abre. Use o mapa das nove áreas como o que ele é, uma maneira de organizar uma planta em nove assuntos, e use as cores e os materiais como escolha de decoração com critério. Nada disso pede fé, nada disso é culto e nada disso concorre com oração nenhuma.
Se quiser, pule sem culpa tudo o que é da camada de cima. Não recite mantra, não faça gesto ritual, não compre imagem religiosa de tradição nenhuma, não siga instrução de data ou de horário para pendurar objeto, não trate objeto como coisa que precisa ser ativada. A escola do chapéu negro, na versão praticada por este portal, continua inteira sem nada disso, porque o que sustenta uma cura aqui é a intenção declarada de quem a faz, dita nas palavras da própria pessoa, em português, sobre uma função concreta do espaço. Se a sua fé tem uma forma própria de pedir e de agradecer, ela cabe perfeitamente nesse lugar, e a escolha é sua.
Um cuidado que vale para todo mundo, inclusive para quem não tem religião: imagem religiosa não é enfeite. A estatueta de buda que se vende em loja de decoração é, para milhões de pessoas, imagem sagrada, e ela não pertence à lista das nove curas da escola. Se você tem uma em casa por gosto estético, trate com o cuidado que daria a qualquer objeto que outra pessoa considera sagrado: fora do chão, fora do banheiro, limpa e não usada como suporte de coisa nenhuma. É pouco, é de graça e resolve a questão inteira.
Onde as duas escolas divergem
As escolas tradicionais chinesas, as da bússola, apresentam-se como técnicas e não como práticas religiosas. Elas medem, calculam, diagnosticam e corrigem, e não pedem estado interior nenhum de quem executa. Um consultor de linha clássica trata a leitura de um imóvel mais ou menos como um engenheiro trata um laudo: com tabelas, ciclos e regras. Se o que te preocupa é justamente a presença de religião no método, é honesto dizer que a linha tradicional tem menos disso, embora esteja igualmente enraizada na cosmologia chinesa.
A escola do chapéu preto é a que tem a camada devocional declarada, e é também a que o Brasil pratica. Este portal adota o método dela e deixa a camada devocional de fora, o que é uma escolha nossa e precisa ser dita como escolha, não como se fosse a escola inteira. Um praticante BTB religioso diria que estamos usando metade, e ele teria razão. A nossa resposta é que a metade que usamos é a que pode ser transmitida por escrito, para qualquer leitor, sem pisar na crença de ninguém.
Vale ainda separar duas coisas que chegam juntas ao Brasil e são frequentemente confundidas. O feng shui lê o espaço, com qualquer das escolas. A leitura chinesa da pessoa, o mapa chinês dos quatro pilares, parte de data, hora e lugar de nascimento e fala de quem mora ali. Nenhuma das duas é culto, nenhuma pede fé e nenhuma responde pela outra: uma cuida da casa, a outra de quem habita a casa.
O erro mais comum
O engano mais comum é achar que usar o mapa das nove áreas equivale a adotar uma crença. Não equivale, do mesmo jeito que usar o calendário chinês para saber em que ano do dragão você nasceu não faz de ninguém taoista, e que aprender ioga na academia não converte ninguém. Desenhar uma planta em nove quadrados é uma convenção de leitura. Se você reconhece isso e ainda assim se sente desconfortável, esse desconforto é legítimo e não precisa de argumento: ninguém deve nada a método nenhum.
O segundo é o inverso: transformar feng shui em fé substituta. Aparece quando a arrumação da casa vira a explicação de tudo o que acontece na vida, quando cada dificuldade é atribuída a um canto errado e cada acerto a um objeto bem colocado. Isso não é o que a escola sustenta e é o oposto do que este portal escreve em toda página. Casa organizada é casa organizada, e é bastante. Nenhum canto responde por casamento, por emprego, por doença ou por sorte.
O terceiro é onde mora o atrito real com qualquer fé, e curiosamente não tem nada a ver com budismo: é a promessa. Quando alguém diz que um objeto atrai dinheiro, que uma cura protege a família ou que um ritual garante retorno, está vendendo troca sobrenatural, e é contra isso que praticamente todas as religiões, cada uma do seu jeito, sempre se posicionaram. Se você quer um critério único para separar o que é seguro do que é problemático em tudo o que vai ler sobre o assunto, use este: instrução que organiza o ambiente é uma coisa, promessa de resultado em troca de objeto é outra. A primeira é o método, a segunda é a loja.
Você sabia?
Durante boa parte do século 20, o feng shui foi tratado como superstição e desencorajado oficialmente na China continental, chegando a ser alvo de campanhas contra o que se chamava de crenças feudais. Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, em Hong Kong, a mesma prática seguia funcionando com tal normalidade que grandes construções e obras públicas contavam com consultas de geomantes como parte do processo, e o assunto aparecia na imprensa local sem escândalo nenhum. Duas Chinas, no mesmo século, tratando a mesma tradição como coisas opostas: crendice a ser combatida de um lado da fronteira, serviço profissional do outro. A conclusão que fica é útil para quem chegou nesta página com a pergunta da fé: a discussão sobre se isso é superstição, técnica ou tradição cultural não começou no Brasil nem em igreja brasileira. Ela é antiga, foi feita em chinês, dentro da própria cultura que criou o método, e continua aberta lá também.
Para fazer hoje, na ordem
- 1Faça hoje só a camada que não pede crença nenhuma: abrir a porta inteira, trocar lâmpada queimada, liberar o caminho principal, consertar o que pinga.
- 2Use o mapa das nove áreas como o que ele é, uma divisão da planta em nove assuntos, e não como objeto de devoção.
- 3Se preferir, pule sem culpa mantra, gesto ritual, data certa para pendurar e qualquer instrução de ativar objeto. O método continua inteiro.
- 4Declare a intenção com as suas próprias palavras, na sua língua e no seu estilo. Se a sua fé tem uma forma própria de pedir, ela cabe aí.
- 5Se você tem imagem religiosa de qualquer tradição em casa, confira se ela está fora do chão, fora do banheiro, limpa e sem servir de suporte para nada.
- 6Adote um critério para tudo o que ler por aí: organizar o ambiente é método, prometer resultado em troca de objeto é comércio.
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Veja onde cai cada uma das nove áreas na planta da sua casa
A grade das nove áreas se encaixa na sua planta a partir da porta de entrada, e cada cruzamento vem com a leitura pelos cinco elementos e o que dá para fazer hoje.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Feng shui é religião?
Preciso ser budista para fazer feng shui?
Sou cristão. Feng shui conflita com a minha fé?
Posso fazer feng shui sem colocar buda nem objeto oriental nenhum?
Feng shui é superstição?
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Cada uma abre a leitura completa, do mesmo tamanho desta.