A escola que o Brasil pratica, dita pelo nome
O baguá contado pela porta de entrada
O mapa não gira para caber na sua casa. Ele estica, como uma toalha de nove quadrados puxada até cobrir a mesa inteira.
O que é, do zero
O baguá é um mapa de nove casas que a tradição chinesa usa para repartir um espaço em assuntos: dinheiro, amor, trabalho, família, saúde, reputação, estudo, criatividade e as pessoas que ajudam. O nome vem do chinês e quer dizer oito símbolos, porque são oito trigramas em volta de um centro. Na versão clássica o desenho é um octógono, aquele formato de oito lados que você já viu em espelho de bazar. Na aplicação prática ele vira um retângulo dividido em três por três, e a razão é banal: planta de casa é retangular, octógono não encaixa em canto de parede.
O que a escola do chapéu preto acrescentou foi a regra de alinhamento, e é só isso que a diferencia neste ponto. Em vez de descobrir para onde a casa está virada e girar o mapa até o Norte bater com o Norte, você encosta a fileira de baixo do mapa na parede em que está a porta principal e estica o resto até cobrir a planta toda. Pense numa toalha xadrez de nove quadrados posta sobre uma mesa: você não gira a toalha procurando o alinhamento certo, você puxa as pontas até ela cobrir a mesa. Se a mesa for comprida, os nove quadrados ficam compridos; se for quase quadrada, eles ficam quase quadrados. O mapa se deforma junto com a planta, e isso é intencional.
A consequência mais útil dessa regra é a escala. Como a referência é uma porta e não o planeta, o mesmo desenho serve para qualquer recorte que tenha uma entrada: a casa inteira contada da porta principal, um quarto contado da porta do quarto, uma sala contada da porta da sala, uma mesa de trabalho contada da borda em que você senta. Quem mora em quarto alugado ou divide apartamento não fica de fora da leitura, e essa foi uma das razões práticas de a linha ter pegado no Ocidente urbano, onde quase ninguém manda na fachada do prédio.
De onde isso veio
A repartição de um espaço em nove partes é muito mais velha que qualquer escola moderna. O arranjo de três por três aparece na cultura chinesa desde a antiguidade, ligado ao quadrado de nove casas em que toda linha soma quinze, e os oito trigramas em volta de um centro vêm do arranjo chamado Céu Posterior, a sequência que o feng shui usa até hoje para dizer qual assunto mora em cada casa. Nada disso é invenção do século 20: é herança comum às duas escolas, e nesse ponto a tradicional e a do chapéu negro concordam integralmente.
A divergência entra só no alinhamento, e ela tem data e motivo. Quando o professor Lin Yun passou a ensinar nos Estados Unidos, a partir do fim dos anos 1970, encontrou um público que não sabia para onde a própria casa estava virada, morava de aluguel, não podia mudar porta nem fachada e não tinha o menor interesse em comprar instrumento. A solução que ele propôs foi trocar a referência: usar a porta, que toda casa tem e que todo mundo sabe onde fica. Foi essa versão que atravessou para o inglês nos livros dos anos 1980, e do inglês para o português nos anos 1990.
Vale dizer o que essa mudança custou e o que ela comprou, porque a troca não foi gratuita. Custou o refinamento das camadas ligadas à direção real do imóvel, que a linha tradicional continua usando. Comprou aplicabilidade: um método que qualquer pessoa executa sozinha, num apartamento alugado de quarenta e cinco metros quadrados, sem discutir com o síndico e sem gastar. Este portal segue a escola do chapéu preto e diz isso em toda página, inclusive quando a outra linha discordaria do endereço apontado.
O que muda na sua casa hoje
Comece pelo desenho, e ele não precisa ser bonito. Num papel qualquer, desenhe o contorno da casa vista de cima, parede por parede, sem escala e sem capricho. Se você tem a planta do imóvel em algum arquivo do financiamento ou do anúncio, melhor ainda. Depois trace por fora o menor retângulo que envolve tudo. Esse retângulo é a sua área de leitura, e é ele que vai ser dividido em nove partes iguais, três colunas por três fileiras. Marque de que lado está a porta principal e vire o papel de modo que essa parede fique embaixo, na sua direção. Pronto, o mapa está posto.
Agora a distribuição, que é fixa e vale a pena decorar. A fileira de baixo, a da parede da porta, tem três casas: Conhecimento na esquerda, Carreira no centro, Amigos protetores na direita. A fileira do meio tem Família na esquerda, Saúde no miolo e Criatividade na direita. A fileira de cima, a do fundo, tem Prosperidade na esquerda, Reconhecimento no centro e Amor na direita. Como a porta está sempre na fileira de baixo, existem apenas três entradas possíveis no mundo inteiro segundo essa escola: a porta que abre pelo Conhecimento, a que abre pela Carreira e a que abre pelos Amigos protetores. Confira a sua agora, é a informação mais rápida desta página.
Faltam as decisões de borda, que é onde todo mundo trava. Conte como porta principal aquela que o projeto do imóvel chama de entrada, mesmo que a sua família entre pela cozinha ou pela área de serviço todo dia. Varanda fechada com vidro conta como parte da casa quando ela virou cômodo de fato, com piso contínuo e uso diário; se ainda está no contorno original da planta como área externa, deixe fora e anote a decisão. Garagem coberta e quintal ficam fora. Se a planta é um L, e no Brasil metade é, meça o pedaço que avança: até um terço da parede de onde ele sai, leia como extensão da casa; acima disso, o retângulo de referência passa a ser o maior e o vão que sobra vira uma área ausente, assunto que tem página própria. E se você mora num quarto só, repita tudo isso da porta do quarto para dentro: o mapa é o mesmo, muda só o tamanho da mesa em que a toalha foi posta.
Onde as duas escolas divergem
Para a linha tradicional, o passo que você acabou de fazer está incompleto. Ela pediria a bússola antes do papel: medir a direção da fachada em graus, descobrir para onde a casa está sentada e para onde ela olha, e só então distribuir as nove casas, que ali têm endereço fixo no espaço. Amor é sempre Sudoeste, Carreira é sempre Norte, Reconhecimento é sempre Sul, e a porta de entrada não altera nada disso. Nessa leitura, dois apartamentos idênticos em andares diferentes do mesmo prédio têm o mesmo mapa, o que não acontece na escola do chapéu negro se as portas estiverem em paredes distintas.
Existe ainda uma divergência dentro da própria linha do chapéu preto, e é honesto declarar. Alguns professores contam pela porta arquitetônica, a que o projeto define como entrada, e outros contam pela porta que a pessoa mais usa no dia a dia. Isso muda o mapa inteiro de quem sempre entra pela garagem ou pela cozinha. Este portal adota a porta arquitetônica em todas as páginas, por dois motivos práticos: é a que não muda quando a rotina da família muda, e é a que dá o mesmo resultado para todo mundo que mora na casa.
O conselho que fecha o assunto é sempre o mesmo, e ele vale mais que a escolha em si. Não some as duas leituras. Se você já mediu com bússola e chegou a um canto, e agora acabou de chegar a outro pela porta, escolha um dos dois papéis e rasgue o outro. Duas casas concorrentes na cabeça não produzem instrução, produzem paralisia, e ninguém arruma um canto que tem duas localizações ao mesmo tempo.
O erro mais comum
Girar o mapa é o engano número um. Muita gente desenha os nove quadrados, lembra que existe um Norte em algum lugar e tenta encaixar as duas coisas, girando a grade até o canto do dinheiro cair onde a intuição pede. O mapa desta escola não gira: a fileira de baixo mora na parede da porta e ponto final. Se ele girar, você deixou de praticar chapéu negro e passou a praticar uma terceira coisa, que não tem coerência interna nenhuma.
O segundo é usar a porta errada. Porta de quarto, porta da varanda, portão do prédio e porta do elevador não servem para contar o mapa da casa. A porta do prédio serve para o mapa do prédio, que não é assunto seu, e a do elevador não é porta de casa nenhuma. Um caso especial merece nota, porque é comum em apartamento pequeno: quando a porta de entrada abre direto na sala e a cozinha americana é a primeira coisa que se vê, muita gente conta o mapa do balcão para dentro. Não é isso. O contorno é o do imóvel inteiro, incluindo a cozinha, os quartos e o banheiro.
O terceiro é o excesso de precisão, e ele custa mais tempo do que rende. Não é preciso trena, escala nem software: a diferença entre um desenho a mão e uma planta técnica quase nunca muda de casa o objeto que você vai mexer. Se o canto ficou na fronteira entre duas áreas, trate as duas, o que costuma significar limpar um pedaço um pouco maior, o que nunca fez mal a ninguém. E se a sua planta tem um recorte esquisito que não se decide entre extensão e falta, use o critério do terço, anote qual você adotou e siga em frente. Declarar o critério vale mais do que acertar o critério.
Você sabia?
A palavra baguá é a mesma que hoje, no chinês falado, quer dizer fofoca. Ba gua significa oito trigramas, os oito desenhos de três linhas que ficam em volta do centro do mapa, e é assim que ela aparece nos textos antigos. Só que em algum momento do século 20, pelo caminho da imprensa popular de Hong Kong, a expressão virou gíria para mexerico: revista de fofoca é revista bagua, e chamar alguém de bagua é chamar de fofoqueiro. As explicações que circulam para a virada são várias e nenhuma é definitiva, indo do formato octogonal das antigas capas de tabloide ao sentido de ficar adivinhando a vida dos outros, que é literalmente o que os trigramas faziam na adivinhação. Fica o fato divertido: você está desenhando na sua planta, com toda a seriedade, um mapa cujo nome, na China de hoje, é a palavra que se usa para dizer que a vizinha vive sabendo da vida alheia.
Para fazer hoje, na ordem
- 1Desenhe o contorno da sua casa num papel qualquer e trace por fora o menor retângulo que envolve tudo. Cinco minutos, sem escala e sem capricho.
- 2Vire o papel de modo que a parede da porta principal fique embaixo, na sua direção, e divida o retângulo em nove partes iguais.
- 3Descubra por qual das três casas a sua porta abre: Conhecimento na esquerda, Carreira no centro, Amigos protetores na direita.
- 4Escreva no papel o nome das nove áreas e circule aquela em que caiu o cômodo que hoje está mais bagunçado. É por ela que começa o trabalho.
- 5Decida hoje se a varanda fechada com vidro entra ou não no contorno, anote a decisão no próprio papel e não mude mais de ideia no meio da leitura.
- 6Repita a mesma conta na porta de um cômodo só, o quarto ou o escritório, e veja o mapa pequeno aparecer dentro do grande.
Grátis, sem cadastro
Veja onde cai cada uma das nove áreas na planta da sua casa
A grade das nove áreas se encaixa na sua planta a partir da porta de entrada, e cada cruzamento vem com a leitura pelos cinco elementos e o que dá para fazer hoje.
Você informa: por onde a porta abre e o que ocupa cada canto. O resultado aparece na hora.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Conto pela porta da frente ou pela que eu uso todo dia?
A varanda fechada com vidro entra no baguá?
Preciso de bússola para fazer o baguá?
Minha casa é em L e um canto fica de fora. E agora?
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