A escola que o Brasil pratica, dita pelo nome
BTB: a sigla que ninguém explica
Todo mundo diz o primeiro nome, feng shui, e quase ninguém diz o sobrenome. A sigla é justamente o sobrenome.
O que é, do zero
Vamos por partes, porque cada palavra carrega uma informação. Black Sect, a seita negra, é referência aos chapéus negros de uma tradição tibetana antiga, anterior à chegada do budismo ao Tibete, e é daí que vem a tradução brasileira para chapéu negro ou chapéu preto. Tantric, tântrico, aponta para o ramo do budismo que trabalha com gesto das mãos, som recitado e visualização, os três canais que essa escola chama de três segredos. Buddhism, budismo, é a declaração mais direta de todas: a linha nunca escondeu que tem raiz religiosa, ela a colocou dentro do próprio nome.
O nome completo usado pela escola acrescenta ainda uma expressão que quase não sobrevive nas traduções: o quarto estágio. A linha se descreve como o quarto momento de uma tradição em movimento, e conta essa história em quatro etapas. O primeiro estágio seria a tradição tibetana anterior ao budismo. O segundo, o encontro dela com o budismo tibetano. O terceiro, a passagem para a China, onde ela se misturou ao taoismo, à medicina tradicional, à teoria do yin e do yang e às crenças populares. O quarto é o contemporâneo, ocidental, adaptado às cidades e aos apartamentos, e assumidamente aberto a incorporar conhecimento moderno. Repare no que isso significa: a escola declara, no próprio nome, que é uma versão atualizada, e não uma relíquia intacta.
O que a sigla não é também precisa ser dito. Ela não certifica ninguém, não indica nível de formação e não garante qualidade de consultoria: existe gente excelente e gente ruim usando as mesmas três letras. Ela também não é o nome de uma pessoa, e volta e meia aparece por aí a ideia de que BTB seria a inicial de algum mestre. E ela não cobre tudo o que se vende sob o nome feng shui no Brasil: boa parte do que circula em vídeo curto é acréscimo comercial que a escola nunca ensinou.
De onde isso veio
A escola foi organizada no Ocidente pelo professor Lin Yun, que passou a ensinar nos Estados Unidos a partir do fim dos anos 1970 e fundou em 1986 o templo da linha em Berkeley, na Califórnia. Foi nesse contexto que a designação em inglês se firmou, e é por isso que a sigla é inglesa mesmo em países que não falam inglês: ela nasceu no material americano e viajou junto com ele. No Brasil, ela chegou colada aos livros traduzidos dos anos 1990 e às formações que copiaram a bibliografia americana.
O motivo de ela aparecer sem explicação tem a ver com esse percurso. Nos Estados Unidos, a sigla servia para distinguir essa linha das escolas tradicionais chinesas que também atuavam por lá, ou seja, era uma marca de diferenciação num mercado em que as duas coisas conviviam. No Brasil, como praticamente só chegou essa linha, a sigla perdeu a função de distinguir e virou enfeite de material de divulgação: aparece porque estava no original, e não porque alguém precisava dela para dizer alguma coisa.
Vale registrar uma consequência engraçada e um pouco triste dessa importação. Muitos cursos brasileiros ensinam BTB do começo ao fim sem usar a sigla nenhuma vez, e alguns materiais usam a sigla sem ensinar nada do que ela nomeia. Os dois casos vêm do mesmo lugar: uma tradição que atravessou dois idiomas e uma prateleira de decoração, perdendo pelo caminho o pedaço que explicava de onde ela vinha.
O que muda na sua casa hoje
O uso mais imediato desta página é de identificação, e ele leva dez segundos. Pegue o curso, o livro ou o perfil do consultor e procure a referência que ele usa para localizar as áreas. Se fala em canto do fundo à direita contando da porta de entrada, é BTB, mesmo que a sigla não apareça. Se fala em Sudoeste, em graus, em fachada e em ano de construção, é escola tradicional, e aí você vai encontrar outros nomes: Ba Zhai, ou Oito Mansões, que é a das direções pessoais e do Número Kua; Xuan Kong, ou Estrela Voadora, que é a das camadas de tempo; San He e San Yuan, que são famílias clássicas de leitura de terreno.
Saber disso muda decisões concretas. Se você vai contratar consultoria, pergunte a escola antes do preço, porque o que você vai receber é bem diferente em cada caso: a linha tradicional costuma pedir medição de fachada, ano do imóvel e data de nascimento dos moradores, e a do chapéu preto costuma trabalhar sobre a planta, a porta e o que está visível. Se você vai comprar um livro, confira na introdução se ele declara a linha, e desconfie do que não declara nada, porque em geral quem não declara é quem não sabe que existe mais de uma.
E tem a parte que dá para fazer hoje, sem gastar. Vá até a sua estante ou até a pasta de PDFs do curso que você fez e classifique o material que você já tem: isto é BTB, isto é bússola, isto não dá para saber. Só isso costuma explicar por que instruções que você seguiu no passado pareciam se contradizer. Vale ainda separar o que essa escola cobre do que ela não cobre: o feng shui, em qualquer linha, lê o espaço, enquanto a leitura chinesa da pessoa, o mapa chinês dos quatro pilares, parte de data, hora e lugar de nascimento e fala de quem habita o espaço. Nenhum dos dois responde pelo outro.
Onde as duas escolas divergem
A diferença que a sigla anuncia é justamente a que mais separa as duas famílias: a palavra Buddhism no meio do nome. As escolas tradicionais chinesas não se apresentam como religiosas, e sim como técnicas de leitura de espaço e de tempo, ligadas ao pensamento clássico chinês, ao yin e yang e aos cinco elementos, mas sem contexto devocional. A BTB, ao contrário, nasceu dentro de uma linhagem religiosa e mantém no ensino original mantras, gestos rituais e a noção de que a intenção de quem faz a correção é parte da correção.
Daí nasce a crítica mais comum de um lado ao outro, e ela é razoável nos dois sentidos. Um consultor tradicional dirá que a BTB acrescentou religião a um corpo técnico e abriu mão da precisão da bússola. Um praticante da BTB dirá que a linha tradicional trata o morador como se ele não estivesse ali, e que método que ninguém consegue aplicar sozinho não serve para quem mora de aluguel. Este portal segue a escola do chapéu negro, declara isso em toda página, e usa apenas a camada de organização do espaço e de intenção declarada, deixando de fora a parte devocional, que é assunto de quem escolhe praticá-la.
O conselho prático permanece o mesmo de sempre e é o que mais economiza tempo: escolha uma escola e vá até o fim com ela. Um curso BTB e um curso de Estrela Voadora, feitos ao mesmo tempo, produzem duas casas diferentes na sua cabeça e nenhuma instrução na sua mão. Se quiser conhecer os dois, conheça em sequência, e aplique um de cada vez.
O erro mais comum
O engano mais frequente é tratar a sigla como diploma. Ela não é: não existe autoridade única que a conceda no Brasil, e qualquer pessoa pode escrever as três letras num material de divulgação. Isso não quer dizer que quem as usa esteja mentindo, quer dizer que a sigla informa a linha e não a competência. Para avaliar competência, olhe o que a pessoa pergunta antes de responder: consultor bom pede planta, pergunta da porta, pergunta do que está quebrado e pergunta o que você quer para aquela casa. Quem já chega com uma lista de objetos para comprar está vendendo objeto.
O segundo é achar que tibetano quer dizer importado do Tibete hoje. A escola situa a raiz dela numa tradição tibetana antiga, mas o que existe é uma linha reorganizada no Ocidente no século 20, em inglês, para casas ocidentais. Comprar objeto tibetano, incenso tibetano ou tigela tibetana não aproxima ninguém da escola, e nada disso está na lista de nove recursos que ela de fato organizou.
O terceiro é o inverso e é o mais injusto: descartar a escola inteira ao descobrir que ela tem raiz religiosa e data recente. A parte prática dela é limpa, barata e verificável de pé no meio da sala: porta que abre inteira, luz suficiente, caminho livre, nada quebrado, um mapa de nove áreas que qualquer pessoa desenha num papel de rascunho. Nada disso pede fé, e nada disso deixa de funcionar porque a escola tem sobrenome.
Você sabia?
O nome completo da escola tem uma expressão que quase nunca sobrevive à tradução: quarto estágio. A linha se apresenta como o quarto momento de uma tradição que teria começado no Tibete antes do budismo, encontrado depois o budismo tibetano, passado em seguida para a China, onde se misturou ao taoismo e às crenças populares, e chegado por fim ao Ocidente contemporâneo, onde se adaptou a apartamentos, edifícios e cidades. O detalhe extraordinário é esse último ponto: a própria escola declara, no nome que escolheu para si, que é uma versão atualizada e aberta a incorporar conhecimento novo. É o oposto exato do que o comércio vende, que é a fórmula secreta transmitida intacta desde sempre. Da próxima vez que alguém te oferecer feng shui de cinco mil anos, você pode contar que a escola mais praticada no Brasil se autodenomina, com todas as letras, o quarto estágio de uma coisa que continua mudando.
Para fazer hoje, na ordem
- 1Pegue o material de feng shui que você já tem e classifique: fala em canto contado da porta, é BTB; fala em graus e Sudoeste, é escola tradicional.
- 2Se você fez algum curso, procure na ementa se a escola está declarada. Muita formação brasileira ensina BTB sem nunca dizer o nome.
- 3Antes de contratar consultoria, pergunte a escola antes de perguntar o preço. O que você vai receber muda bastante conforme a resposta.
- 4Guarde as quatro palavras que identificam a família tradicional: Ba Zhai, Xuan Kong, San He, San Yuan. Se aparecerem, não é chapéu negro.
- 5Escolha uma escola só para os próximos meses e reescreva num papel a leitura da sua casa por ela, do zero.
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Veja onde cai cada uma das nove áreas na planta da sua casa
A grade das nove áreas se encaixa na sua planta a partir da porta de entrada, e cada cruzamento vem com a leitura pelos cinco elementos e o que dá para fazer hoje.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
O que significa BTB no feng shui?
BTB é uma certificação ou um diploma?
O feng shui BTB é budista? Preciso ser budista para praticar?
Como sei se o curso que eu quero fazer é BTB ou tradicional?
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Cada uma abre a leitura completa, do mesmo tamanho desta.