A escola que o Brasil pratica, dita pelo nome
As nove curas básicas da escola do chapéu negro
A lista não é de nove objetos. É de nove verbos: iluminar, soar, viver, mover, pesar, ligar, sustentar, tingir e marcar.
O que é, do zero
Pense na lista como um conjunto de nove maneiras de mexer num ambiente, e não como nove coisas para comprar. Luz é a primeira e a mais poderosa: lâmpada, luminária, vela, espelho, cristal facetado, qualquer coisa que acrescente claridade ou que a devolva para dentro do cômodo. Som é a segunda: sino de vento, sineta na porta, música tocando. Seres vivos é a terceira: planta, flor, aquário. Objetos que se movem é a quarta: móbile, cata-vento, ventilador girando, cortina leve numa janela aberta, fonte de água. Objetos pesados é a quinta: pedra, cerâmica grande, escultura, móvel maciço.
As quatro últimas fecham o repertório. Objetos ligados na tomada é a sexta, e ela existe porque a linha se organizou no século 20 e não teve pudor de incluir a eletricidade: ventilador, ar-condicionado, aparelho de som, televisão, abajur. Bambu é a sétima, quase sempre na forma de flauta de bambu pendurada, e ela merece explicação porque é a mais estranha da lista para olhos brasileiros. Cor é a oitava, e provavelmente a de melhor relação entre custo e efeito de todas. E a nona é a categoria aberta, chamada de outros, que abriga a fita vermelha, as contas, os objetos de significado pessoal e as soluções que não couberam em nenhuma gaveta anterior.
Uma distinção da própria escola ajuda a usar a lista sem cair em superstição. A linha do chapéu preto separa as soluções em dois tipos: as que qualquer pessoa entende olhando, chamadas de rushi, algo como dentro do mundo, e as simbólicas, chamadas de chushi, algo como fora do mundo, que só fazem sentido dentro do repertório da escola. Um espelho que devolve a passagem ao seu campo de visão porque a mesa está de costas para a porta é rushi: funciona por óptica, e você confere na hora. Uma fita vermelha amarrada num cano é chushi: não muda nada de físico, é uma marcação. As duas são legítimas dentro da escola, e a diferença é que a primeira você pode explicar para qualquer pessoa e a segunda só faz sentido para quem aceitou o vocabulário.
De onde isso veio
O repertório clássico chinês de correções é muito mais antigo e muito mais amarrado à teoria dos cinco elementos: para excesso de Metal, acrescenta-se Água, e não uma flauta; para uma configuração de tempo desfavorável, usa-se um objeto de metal de peso específico. É um sistema técnico, ligado às camadas de bússola e de tempo, e ele continua sendo usado assim pelos consultores da linha tradicional.
A lista de nove foi organizada dentro da escola do chapéu negro, no Ocidente, a partir do ensino do professor Lin Yun, e o critério de seleção fica evidente quando você olha o conjunto: são coisas que existem em qualquer casa urbana, custam pouco e não exigem obra nem instrumento. Um morador de apartamento alugado em qualquer cidade do mundo consegue executar as nove sem pedir licença a ninguém, o que não se pode dizer do repertório clássico, que às vezes pede mudança de porta.
A sétima entrada da lista, o bambu, é a que mais espanta o brasileiro, e a explicação é linguística. O caule do bambu cresce por segmentos separados por nós, e em chinês existe uma expressão muito conhecida que usa esses nós como imagem de subir na vida, um segmento de cada vez, sempre para cima. A flauta de bambu, além disso, é oca, tem furos e é feita para o ar passar por dentro, o que a escola lê como um objeto que faz o sopro circular em vez de travar. Somando as duas coisas, uma imagem de ascensão e um objeto pelo qual o ar passa, a flauta virou a cura clássica para viga aparente sobre a cama e para corredor apertado. Vale saber que boa parte do sentido dela vem de um trocadilho que não existe em português: a peça é bonita, e o argumento dela é chinês.
O que muda na sua casa hoje
Comece pelas três que qualquer pessoa aplica em dez minutos, sem gastar nada. Luz: acenda todas as lâmpadas da casa, anote as queimadas, abra a cortina que vive fechada e lave o vidro da janela mais suja. Ser vivo: leve para o canto mais apagado da casa uma planta que já está em outro cômodo, e se não houver planta, um vaso com água e um galho serve para hoje. Cor: procure no armário um objeto grande na cor do elemento daquela área, uma manta bege num canto de Terra, uma toalha verde num canto de Madeira, e ponha à vista. Três curas, custo zero, tudo feito antes do café esfriar.
Depois vem a leitura por problema, que é como a escola de fato trabalha. Canto morto, daqueles que ninguém olha e onde a poeira mora: luz, ser vivo ou movimento. Corredor de um metro e vinte por onde tudo passa rápido e nada para: som ou algo que se mova, que obriga um instante de atenção. Área que parece leve demais, sem âncora, como uma sala de apartamento novo com móvel baixo e nada nas paredes: peso, uma peça de cerâmica, uma pedra, um vaso grosso. Ambiente que ninguém usa e que virou depósito, comum na varanda fechada com vidro: objeto elétrico, porque ligar alguma coisa ali é a maneira mais rápida de o cômodo voltar a existir na rotina da casa.
E tem a nona categoria, a dos outros, que é onde entra a marcação pessoal. Uma fita vermelha no cano, uma pedra que você trouxe de uma viagem, uma foto, um objeto herdado. Aqui a escola não promete nada e este portal muito menos: o que esses objetos fazem é marcar uma decisão num ponto do espaço, e o valor deles depende inteiramente da intenção declarada de quem os pôs ali. Objeto escolhido de propósito é lembrete. Objeto comprado às pressas é decoração, e decoração é uma coisa perfeitamente boa, só não é cura.
Onde as duas escolas divergem
A linha tradicional discordaria da lista inteira, e por um motivo bem específico: para ela, cura sem diagnóstico é chute. Um consultor da bússola primeiro determina o que está acontecendo naquele setor, considerando direção, ano de construção e ciclo de tempo, e só então escolhe o material que corrige aquilo, quase sempre pela lógica dos cinco elementos. Pendurar um sino de vento porque o corredor é comprido, sem essa etapa, seria para ele um remédio tomado sem exame.
A escola do chapéu preto responde com uma prioridade diferente: prefere um repertório que qualquer pessoa aplica sozinha, hoje, e aceita perder precisão em troca de alcance. É uma escolha de projeto, e ela tem uma consequência boa e outra ruim. A boa é que ninguém depende de consultor para começar. A ruim é que a lista, solta na internet, virou receita sem contexto: sino de vento em toda porta, cristal em toda janela, espelho em toda parede. A lista foi feita para ser escolhida, não aplicada inteira.
Este portal segue a escola do chapéu negro e adota uma regra de dose que vale para todas as nove: uma cura por problema, e o problema precisa ser dito antes. Se você não consegue formular em uma frase qual é o problema daquele canto, não é hora de pendurar nada. Vale também a hierarquia da própria escola, que muita gente ignora: primeiro o que está quebrado, depois a luz, depois o caminho, e só então os outros seis recursos da lista.
O erro mais comum
Comprar as nove é o engano clássico, e ele nasce de uma leitura apressada: a lista parece um kit e não é. Ela é um cardápio de nove maneiras de agir, e a maior parte das casas precisa de duas ou três. Casa com as nove aplicadas ao mesmo tempo fica com sino em cada porta, cristal em cada janela, planta em cada canto, e o resultado é o oposto do que a escola procura, porque não sobra nenhum ponto de repouso para o olho.
O segundo é o ser vivo mal escolhido, e é o mais visível de todos. Planta é a única cura da lista que devolve um sinal, porque ela murcha quando ninguém cuida, e planta morrendo num canto faz mais estrago do que canto vazio. O mesmo vale para aquário sem manutenção e para fonte de água que ninguém troca. A regra honesta é simples: se você não vai cuidar toda semana, escolha outra das nove, que tem oito.
O terceiro é o excesso de peso em apartamento pequeno, e ele passa despercebido porque parece elegante. Num apartamento de quarenta e cinco metros quadrados com piso de cerâmica, parede bege, tapete grosso, cesto de palha e três peças de pedra na estante, o elemento Terra já está em dose alta, e mais uma escultura pesada não acrescenta, satura. A tradição descreve o excesso de Terra como uma sensação bem reconhecível: tudo fica lento, dá preguiça de sair, as decisões arrastam. Quando estiver na dúvida sobre qual das nove usar, escolha a que está faltando naquele cômodo, e não a que você mais gosta.
Você sabia?
A nona cura da lista chama-se, literalmente, outros. Depois de enumerar luz, som, seres vivos, movimento, peso, eletricidade, bambu e cor, a escola do chapéu negro fecha o repertório com uma categoria aberta, que abriga fita, conta, objeto de significado pessoal e qualquer solução que não coube nas oito anteriores. É uma honestidade de arquitetura rara em tradição de qualquer tipo: a lista já nasceu declarando que não estava completa. Repare no que isso diz sobre a linha inteira. Uma escola que se organizou no Ocidente, no século 20, para servir a apartamentos que ninguém tinha imaginado quando o método foi criado, e que deixou de propósito uma gaveta vazia no fim da lista para o que ainda estivesse por vir. Da próxima vez que alguém apresentar as nove curas como dogma antigo e fechado, você pode lembrar que a nona delas é, ao pé da letra, e mais coisas.
Para fazer hoje, na ordem
- 1Acenda todas as lâmpadas da casa e anote as queimadas. Luz é a primeira das nove e a que rende mais por menos.
- 2Leve para o canto mais apagado da casa uma planta que já existe em outro cômodo. Ser vivo é a terceira cura e não precisa ser comprada.
- 3Procure no armário um objeto grande na cor do elemento daquela área e ponha à vista. Cor é a oitava e é a mais barata de todas.
- 4Escolha um cômodo e formule em uma frase qual é o problema dele antes de pendurar qualquer coisa. Sem a frase, nenhuma das nove se aplica.
- 5Confira se alguma planta, aquário ou fonte da sua casa está sendo mal cuidada. Ser vivo abandonado é a única cura desta lista que trabalha contra você.
- 6Conte quantas peças pesadas de pedra e cerâmica existem na sua sala. Se passar de três num apartamento pequeno, a próxima cura deveria ser de outro tipo.
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Tira-dúvidas
Perguntas frequentes
Quais são as nove curas do feng shui?
Preciso comprar objeto para fazer feng shui?
Para que serve a flauta de bambu pendurada?
Posso usar mais de uma cura no mesmo cômodo?
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