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As curas do feng shui, explicadas pelo princípio

O sino de vento no feng shui

O sino de vento é o objeto mais vendido e o menos explicado do feng shui brasileiro. O princípio é acústico e tem duas partes: som num ponto em que o ar corre rápido demais, e um aviso de que alguém chegou. O elemento é o Metal, a família do aço, do bronze e de tudo o que é redondo e definido. E existe uma condição que metade das lojas não conta: se naquele ponto não passa ar, você não comprou um sino, comprou um enfeite.
Ele é o único objeto da casa que só abre a boca quando o ar muda de ideia.

O princípio, e não a receita

Existe um pedaço da sua casa que você nunca ocupa, só atravessa. Quase sempre é o corredor, aquele de um metro e vinte de largura que liga a sala aos quartos e que em apartamento pequeno ainda por cima é escuro. Ninguém para ali, ninguém decora aquilo direito, e em seis meses o lugar acumula bicicleta encostada e sacola. A escola olha para esse tipo de ponto e diz que o chi acelera e não fica, e a versão que qualquer um confere é a mesma frase em português comum: caminho reto e comprido é onde as pessoas e o ar passam rápido e não param. Porta de entrada alinhada com a janela da sala, aquele desenho de planta estreita em que o vento entra por uma e sai pela outra sem visitar nada, é a mesma coisa em escala maior.

Um objeto que soa nesse ponto faz uma coisa muito concreta: interrompe. O tilintar obriga um instante de atenção e o corpo desacelera sem pedir sua opinião, do mesmo jeito que a sineta da porta faz a dona da padaria levantar a cabeça do caixa. Metade da função está aí e não tem nada de místico nela. Quem mora sozinho, trabalha de fone e leva susto toda vez que alguém entra em casa sabe exatamente quanto custa não ter esse aviso, e quem já cozinhou de costas para a porta da cozinha também sabe.

O material muda o trabalho, e por isso vale escolher com o ouvido e não com o olho. Tubo oco de alumínio ou de bronze dá nota limpa e definida, que é a assinatura do Metal nos cinco elementos, o elemento do contorno e da precisão. Bambu dá som seco e curto, mais discreto, e conta como Madeira. Concha e miçanga fazem chocalho fosco, sem nota, e servem para outra coisa. Sobre a regra dos seis ou oito tubos, que aparece em toda loja: ela sai da numerologia do quadrado Lo Shu, onde os números de Metal são o seis e o sete, e é convenção declarada, não acústica. Acústica de verdade é isto: tubo oco soa, tubo maciço quase não soa.

Onde usar

O corredor comprido é o caso clássico e o mais fácil de acertar. Pendure mais ou menos no meio do trajeto, não na ponta, para que o som pegue você no meio do caminho e não quando já chegou. Logo depois vem o desenho mais comum de apartamento estreito, a porta de entrada em linha reta com a janela da sala: o ar entra por uma e sai pela outra sem passar por lugar nenhum. Ali a escola pede alguma coisa que quebre o eixo, e o sino é a versão que não ocupa um centímetro de chão, o que importa muito quando a sala inteira tem doze metros quadrados e não cabe biombo nem estante.

Varanda que pega vento de fim de tarde é onde ele soa sem nenhum esforço, e é o endereço que eu daria a quem só quer o som. Pela lógica do baguá orientado pela porta, o Metal tem duas casas: o canto da direita na mesma parede da entrada, que é a dos Amigos protetores e das viagens, e o meio da parede da direita, que é a da Criatividade. A primeira coincide quase sempre com o hall de entrada, onde o ar já se mexe todo dia por conta própria, e é por isso que a colocação mais repetida da escola é também a mais prática de todas. A escola tradicional, que usa a bússola e não a porta, poria essas casas no Noroeste e no Oeste; quando as duas divergem, este portal segue a da porta e diz que está seguindo.

Tem ainda um uso pequeno e muito bom: a porta de serviço ou a porta da cozinha de quem passa o dia de costas para ela. Um sino leve preso na própria folha da porta avisa que alguém entrou, e resolve por vinte reais o mesmo problema que o espelho acima do fogão resolve por outro caminho. Duas curas diferentes para o mesmo desconforto, e você escolhe a que couber na sua parede.

Onde não usar

Cabeceira de cama é o pior endereço possível para um objeto que toca sozinho, e não é preciso teoria nenhuma para entender: basta uma janela entreaberta às três da manhã, uma corrente de ar e um tilintar a cinquenta centímetros da sua orelha. Você acorda, não entende, dorme mal e não liga uma coisa à outra na manhã seguinte. A escola quer o quarto como o ponto mais lento da casa, e sino faz o oposto do que quarto pede. Se você gosta do som para dormir, pendure do lado de fora, na varanda ou na janela da sala, longe da cabeceira e com a porta do quarto fechada.

O erro oposto é ainda mais comum: a peça pendurada num canto de sala fechada, onde não passa ar nenhum, virando enfeite de parede que só junta poeira. A escola não usa isso como amuleto, usa como instrumento, e um teste simples encerra a dúvida. Se você precisa bater nele com o dedo para ouvir alguma coisa, ele está no lugar errado. Existe também o extremo contrário, que ninguém comenta: em corrente de ar forte demais ele toca o dia inteiro, deixa de avisar qualquer coisa e vira ruído de fundo. Cura que irrita quem mora na casa está desregulada como qualquer outro objeto, e a saída é trocar por um menor, subir o ponto de fixação ou mudar de material.

Como escolher e instalar

A versão de graça vem primeiro, como sempre nesta vertical: antes de comprar, resolva o corredor que motivou a compra. Tire a bicicleta e as caixas do caminho, troque a lâmpada queimada e veja se o problema não era só isso. Se ainda quiser o som, o critério é o ouvido e não a foto do anúncio, então peça para tocar antes de levar. Tubo oco de alumínio de quinze a trinta centímetros dá nota limpa e decaimento curto, que é o que avisa sem cansar, e quanto mais comprido o tubo, mais grave e mais longa a nota. Bambu é a escolha de quem tem sono leve ou vizinho colado. Deixe os de concha e miçanga para a decoração, porque eles fazem barulho e não fazem nota. Tamanho pede proporção: corredor largo aguenta um médio, hall de apartamento pede um pequeno.

Pendure acima da linha da cabeça, por volta de dois metros e dez do chão, e a uns quarenta centímetros da parede para os tubos não baterem nela. Sem furar teto servem gancho adesivo, conferindo o limite de peso da embalagem, que costuma ficar entre um e dois quilos, suporte de tensão no vão da porta e o próprio trilho da cortina. Deixe três dias em teste, preso com fita, antes de fixar de vez, porque a corrente de ar da sua casa nunca é a que você imagina. Uma vez por ano, desamarre, passe pano úmido nos tubos e troque o fio, que resseca e arrebenta sempre no dia em que ninguém está olhando.

Você sabia?

O sino de tubos de alumínio afinado numa escala musical, esse que se acha em qualquer loja de decoração, é invenção ocidental do século 20, e a afinação é escolha de fabricante, não de tradição. O objeto chinês original chama fengling, o sino de beiral pendurado nas quinas dos telhados de pagode e de templo, feito para soar com o vento que sobe pela encosta. E antes dele existia coisa ainda melhor de contar: uma peça de bambu e metal que camponeses penduravam para ler a direção e a força do vento no meio da lavoura, e que de quebra espantava passarinho da plantação. Ou seja, o item nasceu instrumento de leitura do ar e terminou enfeite de sacada. A sílaba feng, de fengling, é a mesma feng de feng shui e quer dizer vento, o que prova que o objeto está no assunto certo desde o começo, mesmo quando a loja não sabe explicar por quê.

O elemento por trás desta cura

Elemento

Metal

Cores

branco, cinza, prateado e dourado

Formas

círculo, arco, cúpula, tudo que é redondo e fechado

Materiais

aço, alumínio, cobre, mármore claro, sino, moeda

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Sino de vento fica dentro ou fora de casa?
Depende do que você quer dele. Fora, na varanda ou na janela, ele toca muito mais e serve para quem gosta do som, com a ressalva óbvia do vizinho. Dentro, ele quase nunca toca sozinho e passa a funcionar como aviso: soa quando a porta abre, quando a corrente muda, quando alguém atravessa o corredor. A escola usa mais o segundo caso, e é o que rende no apartamento brasileiro, onde vento constante é raro e porta abrindo é o evento do dia.
Quantos tubos ele precisa ter?
A regra de seis ou oito tubos circula como se fosse lei e é convenção, não física. Ela vem da numerologia chinesa, em que seis e sete são números associados ao Metal, e não tem nenhum efeito sobre o som. O que muda o som de verdade é o material, o comprimento e o fato de o tubo ser oco. Se você gosta do simbolismo do número, use, não custa nada; só não deixe de tocar o objeto antes de comprar, porque é o ouvido que vai conviver com ele.
O barulho está incomodando o vizinho. E agora?
Tire ou troque, sem drama. Cura que gera conflito com quem mora do lado deixou de ser cura no primeiro dia, e a escola não tem nenhum apego a objeto. As saídas na ordem: mude para um ponto com menos corrente, troque alumínio por bambu, que soa bem mais baixo, ou recolha à noite. Em prédio, vale lembrar que som repetitivo em horário de descanso é assunto de convenção de condomínio antes de ser assunto de feng shui.
Não acredito que um sino mude alguma coisa na minha vida.
E não muda mesmo, se a expectativa for essa. Nenhum objeto pendurado altera o que acontece com você, e quem promete isso está vendendo outra coisa. O que ele faz é bem menor e bem mais real: coloca um sinal sonoro num ponto que você atravessava no automático, e ponto atravessado no automático é exatamente o que vira depósito de caixa e sacola em seis meses. Se depois de um mês você não reparou nele uma única vez, tire. A escola não pede fé, pede observação.

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