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As curas do feng shui, explicadas pelo princípio

A cor no feng shui

Tinta é a única cura desta lista capaz de mudar a leitura de um cômodo inteiro de uma vez só, e por menos que uma luminária razoável. O princípio é de escala: nenhum objeto pequeno compete com a área de quatro paredes, então cor é a ferramenta mais barata e mais poderosa que você tem à mão. Na escola do Chapéu Negro, que orienta o baguá pela porta de entrada, cada uma das nove áreas tem as suas cores, e cada cor pertence a um dos cinco elementos chineses. Não existe cor proibida no feng shui; existe cor demais.
Tinta se compra por litro e se mede em parede inteira. Nenhum outro item da casa tem essa conta.

O princípio, e não a receita

Pense naquela sala em que ninguém consegue ficar mais que meia hora, ou naquele quarto que parece frio mesmo em janeiro. Quase sempre a pessoa culpa o sofá, a falta de tapete, o tamanho do cômodo. Faça a conta antes de acreditar em mim: um galão de quatro litros de acrílica fosca cobre um quarto inteiro em duas demãos e sai por menos que um vaso decorativo de loja de departamento. Nenhuma outra cura tem essa relação entre o que custa e o quanto do campo de visão ela ocupa, porque quando você pinta uma parede muda cem por cento do que o olho lê ao entrar, e não vinte centímetros de canto. É por isso que ela vem no topo da lista de quem tem pouco dinheiro e quer diferença de verdade.

Na leitura chinesa, cor não é gosto: é material. Cada família de elemento tem as suas, e a lista é curta o bastante para decorar em um minuto. Verde e azul esverdeado são Madeira, o que cresce. Vermelho, laranja e magenta são Fogo, o que ativa. Amarelo terroso, marrom, bege e ocre são Terra, o que assenta. Branco, cinza, prateado e dourado são Metal, o que define. Preto e azul escuro são Água, o que corre. Pintar uma parede de verde, portanto, não é a mesma decisão que pintar de terracota: você acrescentou um material ao cômodo. E materiais se alimentam em ciclo, a Madeira acende o Fogo, o Fogo vira cinza e faz Terra, a Terra dá o Metal, o Metal condensa a Água, a Água rega a Madeira. É por isso que parede bege com objetos brancos e dourados combina de verdade, e o olho registra a lógica muito antes de você saber o nome dela.

E aí entra o baguá. Pare do lado de fora da porta principal, entre, e divida o que você vê em nove. O canto mais distante à sua esquerda é a Prosperidade, com roxo, verde e dourado. A faixa central do fundo, de frente para a porta, é o Reconhecimento, com vermelho e laranja. O canto mais distante à direita é o Amor, com rosa, vermelho e branco. O meio da parede da esquerda é a Família, com verde e azul. As cores de cada casa saem do trigrama, e nisso a escola tradicional concorda com a do Chapéu Negro; o que muda entre as duas é onde cada casa cai na sua planta, porque a tradicional usa a bússola e esta usa a porta. Este portal segue a da porta e avisa sempre que a diferença importa.

Onde usar

Comece pela parede que você olha, não pela que você mostra para visita. Na maioria das casas são duas: a primeira que aparece quando se entra e a que fica de frente para onde você senta. Se você trabalha em casa, some a parede atrás do monitor, que é a que você encara oito horas por dia sem perceber que encara. Pintar essas e deixar o resto neutro custa um galão e muda a leitura do lugar inteiro, o que é uma barganha difícil de encontrar em qualquer outra área da vida doméstica.

Pelo baguá, dois casos bem concretos. Quarto de casal: o canto mais distante à direita quando você entra é o Amor, e a paleta da casa é rosa, vermelho e branco, o que na prática quer dizer rosa empoeirado, terracota claro ou branco quente numa parede, e não pink de propaganda. Sala de quem quer ser visto no que faz: a parede do fundo, aquela que todo mundo enxerga da porta, é o Reconhecimento, casa de Fogo, e ali um laranja queimado funciona muito melhor que um vermelho puro. Não precisa pintar tudo. Às vezes a cor entra no forro de dentro da estante, numa faixa de meia parede ou na porta de um armário, e o efeito é quase o mesmo pela metade do trabalho.

Por função do cômodo, vale usar os ciclos a seu favor. Cozinha já tem Fogo por definição, que é o fogão, então parede vermelha ali soma ao que já sobra; branco quente, bege e verde de tempero fazem mais sentido, ainda mais em cozinha americana, onde a parede da cozinha é também a parede da sala. Banheiro é o cômodo da Água indo embora, e o que a escola pede ali é o contrário do azul escuro que todo mundo escolhe: verde claro, que é a Madeira que bebe a Água, e bege, que é a Terra que a segura. Corredor escuro pede claridade antes de conceito, e uma parede fosca cor de areia devolve mais luz que qualquer cor da moda.

Onde não usar

A parede inteira de vermelho num quarto é o exemplo clássico, e o argumento é de dose, não de superstição. Vermelho é Fogo, o elemento da ativação, e Fogo demais tem uma descrição bem específica na tradição: o cômodo cansa em vinte minutos, discussão pega fogo rápido e ninguém dorme direito ali. Some a isso a parte física, fácil de conferir com o celular: uma parede grande de vermelho saturado devolve luz avermelhada no rosto de todo mundo, e a pele fica com um tom que ninguém acha bom em si mesmo. Se você ama vermelho, e é uma cor linda, ponha onde dá para tirar: uma almofada, um quadro, o forro de dentro do armário, a cúpula do abajur.

O excesso contrário também é erro, e no Brasil ele virou epidemia: a casa inteira em branco gelo com cinza. Branco e cinza são Metal, e Metal demais fica frio e cortante, bonito de foto e desconfortável de ficar, que é a descrição exata de muita sala de apartamento novo. Na mesma linha, preto e azul marinho fechando um quarto pequeno sem janela somam Água num lugar que já é caverna, e Água em excesso vira dispersão, aquele cômodo em que você entra para pegar uma coisa e sai vinte minutos depois sem ela. E existe o erro de método, que estraga mais que todos os outros: pintar a casa inteira num fim de semana por causa de um texto de internet, sem testar nada. Uma parede por vez, com algumas semanas entre elas.

Como escolher e instalar

A versão de graça é a que quase ninguém tenta: junte o que já existe. Troque a colcha de lugar, leve a almofada terracota do sofá para o quarto, feche a porta do armário que tem a cor errada aparecendo. Você vai descobrir o que gosta antes de comprar um galão. Quando for pintar, compre a amostra antes, sempre. Quase toda loja vende lata de duzentos e cinquenta mililitros ou faz o teste na hora: pinte um retângulo de cinquenta por cinquenta na parede de destino e olhe de manhã, à tarde e com a luz acesa à noite, porque cor muda de personalidade conforme a temperatura da lâmpada, e o bege que era quente na loja fica esverdeado embaixo de um LED frio. Sobre acabamento, fosco esconde imperfeição de parede e não devolve brilho, acetinado limpa melhor e é o que serve para cozinha e corredor de casa com criança. Duas demãos, rolo de espuma baixa, fita crepe retirada com a tinta ainda úmida para o corte sair reto.

Em imóvel alugado o resultado é quase o mesmo sem uma gota de tinta, porque o que conta aqui é área e não técnica. A campeã disparada é a cortina do teto ao chão, que ocupa mais campo de visão que a maioria das paredes pintadas e se resolve numa tarde. Depois vêm a colcha da cama, o tapete grande, o painel de tecido esticado numa moldura barata, o papel adesivo que descola sem estragar reboco e o forro de dentro das prateleiras. E existe uma regra de dose que salva qualquer combinação, inclusive as arriscadas: cor forte em no máximo um terço do que se vê, neutro no resto, e um único ponto de contraste. Vale para parede, para tecido e para a estante inteira.

Você sabia?

A tabela de cores que a loja brasileira vende como cores do feng shui é a mesma que, na China imperial, organizava muito mais coisa que decoração: os cinco elementos classificavam ponto cardeal, estação do ano, sabor, órgão do corpo e até a legitimidade de uma dinastia. O amarelo era Terra e centro, e por isso virou cor de imperador, com regra de vestuário proibindo gente comum de usar certos tons; os telhados da Cidade Proibida são amarelos por causa disso, e não por escolha estética de arquiteto. O vermelho das portas e das colunas de templo vinha de um pigmento mineral caro e difícil de obter, o cinábrio, o que fazia da cor um sinal de importância antes de ser sinal de festa. Quando alguém diz que a sua parede precisa ser verde porque aquele canto é a casa da Família, está usando um pedacinho de um sistema que um dia tentou classificar o mundo inteiro, e é uma pena que a loja não conte essa parte.

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Perguntas frequentes

Existe cor proibida em feng shui?
Não existe, e quem disser que existe está simplificando até quebrar. O sistema dos cinco elementos trabalha com proporção, não com proibição: cada cor traz um material para o ambiente, e o problema aparece quando um material domina tudo. Vermelho num quarto inteiro cansa, vermelho numa almofada anima. A pergunta certa nunca é se pode, é quanto e onde.
Preciso pintar a parede da cor da área do baguá?
Não precisa, e na maior parte das casas nem seria a melhor ideia, porque as nove áreas caem dentro de cômodos que já têm função e paleta. Cor entra igualmente bem por objeto, tecido, quadro e luz: uma manta rosa na poltrona do canto do Amor cumpre o mesmo papel de uma parede rosa, e sai de cena quando você enjoar. Pinte quando a parede já ia ser pintada mesmo. No resto do tempo, mova o que você tem.
Por que este site orienta o baguá pela porta e não pela bússola?
Porque são duas escolas diferentes e nós adotamos uma, em vez de fingir que só existe um feng shui. A escola tradicional, mais antiga, orienta pela bússola e trabalha com direções fixas. A escola do Chapéu Negro, que se organizou no Ocidente na segunda metade do século 20, orienta pela porta de entrada, partindo de um princípio próprio: o que define um espaço é por onde a vida entra nele. Foi essa a versão que chegou ao Brasil pelos livros dos anos 1990 e é a que quase todo brasileiro conhece, então é a que usamos, sempre dizendo quando a outra discordaria.
Cor muda alguma coisa de verdade ou é só estética?
Muda coisas mensuráveis e não muda nada sobrenatural, e separar as duas é o que dá honestidade a esta página. Cor altera quanto de luz uma parede devolve ao cômodo, altera a percepção de tamanho e de temperatura do ambiente e altera o tom da pele de quem está ali, e nada disso é opinião. O que ela não faz é mexer no que acontece com você fora de casa, e nenhuma escola séria diz que faz. O feng shui só organiza a escolha, para você não pintar por acaso.

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