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As curas do feng shui, explicadas pelo princípio

A água corrente no feng shui

Fonte de mesa, cascata de pedra, aquário: a escola lê tudo isso como o mesmo material, a Água em movimento. O princípio tem duas partes verificáveis, movimento e som, e uma terceira que precisa vir antes das outras duas, porque a manutenção faz parte da cura e não é detalhe. Na escola do Chapéu Negro, que orienta o baguá pela porta de entrada, essa é a cura mais indicada e a mais abandonada de todas. A regra honesta, que quase nenhuma loja diz: se você não vai trocar a água toda semana, não instale.
Fonte que ninguém limpa para de ser fonte. Vira um copo esquecido em cima da estante, só que com motor.

O princípio, e não a receita

Repare no canto da sala em que nada acontece, aquele que já teve três destinos e hoje só tem um cesto de roupa. Duas coisas fazem uma fonte trabalhar num lugar desses, e nenhuma delas é sobrenatural. A primeira é que ela se mexe. Todo o resto do cômodo está imóvel: o sofá, a estante, o quadro, o vaso. Uma superfície de água correndo é o único ponto do ambiente que muda de desenho o tempo todo, e por isso o olho volta nela sem ser chamado, do mesmo jeito que ninguém consegue não olhar para fogueira e para mar. Num canto que a casa tinha desistido de usar, isso já é bastante.

A segunda é o som, e aqui a coisa é medida. Água caindo produz um ruído contínuo e espalhado por muitas frequências, exatamente o tipo capaz de cobrir outros sons sem chamar atenção para si mesmo. Uma fonte pequena numa sala de rua movimentada apaga o miolo do barulho do trânsito, e o efeito tem nome, mascaramento acústico, e é a mesma razão de existirem aplicativos de som de chuva com milhões de downloads. A tradição chinesa não usava essa palavra, mas colocava água onde o ambiente precisava de continuidade, e o ouvido nunca discordou.

Na tabela dos cinco elementos, a Água é o que corre e o que contorna. Ela nasce do Metal e alimenta a Madeira, é segurada pela Terra e apaga o Fogo, e desses quatro fatos saem quase todas as instruções da tradição: fonte encostada no fogão é conflito, fonte com pedra e vaso de cerâmica ganha estrutura, fonte perto de planta faz sentido duplo. Água em excesso vira dispersão, o cômodo em que você entra para fazer uma coisa e sai duas horas depois sem ter feito. E é preciso dizer o que ela não faz: nenhuma fonte aumenta o salário de ninguém, e quem promete isso mudou de assunto sem avisar. O que ela entrega é movimento e som num canto parado.

Onde usar

A entrada é o endereço mais citado da tradição, e tem lógica de baguá por trás: a faixa central da parede da porta é a casa da Carreira, e o elemento dela é justamente a Água. Uma fonte pequena num aparador ao lado da porta cumpre isso sem ocupar chão. Igualmente clássico é o canto mais distante à sua esquerda quando você entra na sala, que é a casa da Prosperidade e é de Madeira: pela lógica do ciclo, a Água rega a Madeira, e é daí que sai a indicação, não de um poder do objeto. A escola tradicional, que orienta pela bússola, colocaria essas casas em outro ponto da planta; este portal segue a escola da porta e avisa quando as duas divergem.

Varanda e jardim são onde ela vive melhor, porque ali respingo não é problema e limpeza é mangueira. Se o modelo tiver direção de fluxo visível, a tradição pede que a água corra para dentro da casa e não em direção à porta de saída, e a leitura é simbólica, declarada como tal. No escritório, atenção ao som durante reunião, porque o que relaxa numa tarde de sábado atrapalha qualquer microfone. E existe um caso em que essa é a melhor resposta possível: o apartamento de rua barulhenta, andar baixo, janela que não veda, em que a pessoa já tentou de tudo e não quer dormir de fone.

Se manutenção semanal não cabe na sua vida, e para muita gente não cabe mesmo, a escola aceita a Água em outros materiais sem nenhuma perda de coerência: preto e azul escuro na parede ou no tecido, espelho, vidro, superfície brilhante, uma linha ondulada num quadro. A tradição prefere imagem de água calma, rio largo ou lago, e evita mar revolto e cachoeira violenta. O argumento é bem terreno: essa imagem vai ficar cinco anos na sua parede, e você vai olhar para ela nos dias ruins também.

Onde não usar

Aqui está o item que faz esta página existir. Fonte com água esverdeada, aquário de vidro embaçado e bebedouro de bicho com limo no fundo são, para a escola, piores que canto nenhum, e o motivo não é castigo: é que você olha para aquilo todos os dias e sabe, todos os dias, que está assim. Some um argumento que no Brasil vem antes de qualquer tradição chinesa: água parada em prato de vaso, em vasilha e em fonte desligada é criadouro de mosquito da dengue, e isso é conversa de saúde pública, não de ambiente. A condição de entrada é uma só, portanto: se a rotina de trocar a água e escovar a bomba toda semana não vai acontecer, fique com a cor e economize o dinheiro.

O segundo bloco é de lugar. Quarto não combina com fonte nem com aquário grande, e o argumento é verificável: o motor zumbe baixinho a noite inteira, a luz do aquário fica piscando e a umidade sobe num cômodo que já costuma ter pouca ventilação. Na cabeceira, é a versão molhada do sino na cabeceira, e o resultado é o mesmo, sono picado sem que a pessoa descubra o porquê. Na cozinha, evite encostar no fogão, porque a Água apaga o Fogo e a tradição lê a vizinhança dos dois como conflito, coisa que uma bancada de distância resolve. E o banheiro é o único cômodo em que a escola pede o contrário do que se espera: ele já é a saída de água da casa, então o que falta ali é Terra, cerâmica, pedra e tapete grosso, e não mais azul.

Como escolher e instalar

Antes de comprar, teste de graça se é disso mesmo que a sua casa precisa: deixe um aplicativo de som de água tocando baixinho naquele canto por uma semana e veja se a sensação melhora. Se melhorar, siga. Na escolha, prefira queda baixa e larga a queda alta e fina, porque a alta respinga, deixa mancha branca de calcário e produz um chiado agudo que cansa em uma hora, enquanto a baixa dá aquele som de veio de rio, contínuo e sem pico. Tamanho pede proporção com o cômodo, e trinta centímetros já bastam para uma sala comum. Bomba submersa de três a cinco watts dá conta, e vale conferir se o modelo desliga sozinho quando o nível cai, porque bomba funcionando a seco queima numa noite. Apoie em superfície firme, longe de tomada e de tapete, com um prato embaixo, e use água filtrada ou fervida e fria para reduzir a crosta branca.

Marque a manutenção no mesmo dia da rega das plantas, porque duas rotinas juntas sobrevivem melhor que duas rotinas soltas. A troca da água é semanal, a escovação da bomba com escova de dente velha é mensal e o nível pede correção a cada dois dias, já que fonte pequena evapora rápido em apartamento com ventilador ligado. Antes de viajar, desligue e esvazie, sem exceção. E uma palavra sobre aquário, que muita gente trata como equivalente: peixe é bicho, e a decisão passa por responsabilidade animal antes de passar por ambiente. Se a vontade é só de ver água se movendo, a fonte sem morador é a mais honesta das duas escolhas.

Você sabia?

O nome da disciplina inteira sai daqui. Feng shui quer dizer, ao pé da letra, vento e água, e a expressão vem de um trecho do Livro dos Sepultamentos, atribuído a Guo Pu no século 4: o chi cavalga o vento e se dispersa, mas para quando encontra a água. Antes de ser assunto de sala de apartamento, portanto, a escola era um método para decidir onde colocar túmulo e vilarejo em relação a rio e montanha, e água ali era literalmente o rio que passava no vale. A fonte de mesa com bomba elétrica é uma adaptação urbana de poucas décadas, o que não a torna falsa, e sim recente, e é bom que quem compra saiba. A ironia fica por conta da comparação: a versão milenar não precisava de manutenção nenhuma, e a moderna não sobrevive duas semanas sem alguém com uma escova na mão.

O elemento por trás desta cura

Elemento

Água

Cores

preto e azul-escuro

Formas

linha ondulada, contorno irregular, tudo que não tem canto

Materiais

espelho, vidro, fonte, aquário, tecido brilhante

Grátis, sem cadastro

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

A fonte precisa ficar ligada o dia inteiro?
Não precisa, e na maioria das casas é melhor que não fique. Ligue nos períodos em que você está no cômodo e desligue à noite, o que poupa a bomba, reduz a evaporação e evita aquele zumbido baixo que ninguém escuta de dia e todo mundo escuta às duas da manhã. A tradição não estabelece horário, e quem estabelece está inventando. Se o objetivo principal for cobrir barulho de rua, o critério é simples: ligue no horário do barulho.
Aquário substitui a fonte?
Do ponto de vista do ambiente, cumpre as mesmas duas funções e ainda acrescenta movimento vivo, que prende mais o olho. Do ponto de vista prático, é um compromisso bem maior: filtro, temperatura, alimentação, ciclagem da água e um bicho dependendo de você todo dia. A tradição chinesa gosta de aquário e existe toda uma conversa sobre número e cor de peixe, que é folclore de comércio na maior parte das vezes. Se a vontade é ver água correndo, a fonte entrega isso com uma fração da responsabilidade.
Posso deixar uma tigela de água parada em vez de fonte?
É a única recomendação desta página que vira um não firme. O princípio inteiro está no movimento e no som, e água parada não tem nenhum dos dois. Pior: numa tigela esquecida ela junta poeira, cria película e, em boa parte do Brasil, vira criadouro de mosquito em poucos dias. Se a ideia era ter Água no cômodo sem instalar nada, use a cor, o espelho ou o vidro, que fazem a leitura de elemento sem cobrar nada de você.
Fonte de mesa atrai dinheiro?
Não, e vale ser direto: nenhum objeto muda a sua renda, e todo texto que promete isso está vendendo outra coisa. O que a tradição diz é que água em movimento marca com som e com movimento um canto que estava parado, e o que se pode verificar é que canto assim deixa de ser depósito. Se junto com a fonte você organizou o aparador da entrada e passou a olhar para aquele pedaço da casa, alguma coisa mudou de verdade, e não foi a bomba de cinco watts. Feng shui, aqui, é organizar o ambiente e a intenção, e ambiente organizado muda como a pessoa se sente e age dentro dele.

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