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As curas do feng shui, explicadas pelo princípio

As plantas no feng shui

Planta é a cura mais barata e mais óbvia do feng shui, e por isso quase ninguém explica o que ela faz de verdade. São duas coisas: ela apaga a quina viva de um canto que o seu olho vigia sem perceber, e é a única cura desta lista que devolve um sinal, porque murcha quando ninguém cuida. O elemento é a Madeira, o que cresce, e a escola do Chapéu Negro (a que orienta o baguá pela porta de entrada, e a que este portal adota) usa isso com bastante liberdade. Daí sai também a regra mais honesta e menos repetida do assunto: planta morrendo faz mais estrago que canto vazio.
Planta boa é a que aguenta a sua rotina, não a que combina com o sofá.

O princípio, e não a receita

Repare nas quinas do lugar em que você mora. Tem a aresta da parede que avança no corredor, a quina da coluna que a construtora deixou no meio da sala, a beirada da bancada da cozinha bem na altura do quadril. A tradição chama essas arestas de flecha secreta, e a tradução doméstica é bastante direta: aresta viva na altura do corpo, num ponto por onde você passa dez vezes por dia, é um objeto que o seu olho monitora de graça o dia inteiro. Um vaso de folha larga plantado na frente dela apaga a linha, e você deixa de ver o canto para ver a folha. Dá para conferir com uma pergunta: quem mora com você não sabe dizer onde ficam as quinas da casa, e mesmo assim desvia de todas elas.

A segunda coisa é sobre manutenção, e é o que separa esta cura de todas as outras. Um espelho pendurado continua igual daqui a cinco anos. Um vaso, não: ele responde. Se o canto está escuro demais, a planta estica e fica magra; se ninguém rega, ela amarela; se a espécie e o lugar estavam certos, ela cresce e o canto ganha dono. A escola gosta desse material justamente porque ele não deixa mentir. Um pé bem tratado informa, sem palavra nenhuma, que aquele pedaço da casa está sendo olhado por alguém.

Existe ainda uma distinção da tradição que vale aprender porque muda a escolha na loja: folha redonda e folha pontuda fazem trabalhos diferentes. Folha arredondada, carnuda e virada para cima, como a da jade, da peperômia, da zamioculca e da costela de adão, é a que a escola põe em lugar de ficar: sala, canto de leitura, quarto de hóspede. Folha em lâmina, rígida e vertical, como a espada de são jorge e a dracena, é presença e altura, e a tradição prefere essa em ponto de passagem, entrada e corredor, onde não se quer que ninguém se instale. Nenhuma das duas é boa ou má. É a mesma diferença que existe entre uma poltrona e um corrimão.

Onde usar

Pelo baguá da escola do Chapéu Negro, os dois melhores lugares aparecem em dez segundos. Pare do lado de fora da porta principal e entre: o meio da parede da sua esquerda é a casa da Família, e o canto mais distante à esquerda é a da Prosperidade. As duas são casas de Madeira e têm verde entre as cores, então planta ali soma material com material. No apartamento brasileiro isso costuma cair no canto do sofá e no canto atrás da poltrona, que são exatamente os dois pontos em que a casa acumula caixa e cesto de roupa. A escola tradicional, que orienta pela bússola em vez de pela porta, colocaria essas casas no Leste e no Sudeste; quando as duas discordam, este portal segue a da porta e avisa que está seguindo.

Depois disso é caso a caso, e todo caso é geométrico. Corredor com quina no meio: um vaso alto de folha larga na frente da aresta. Entrada em que a porta do banheiro é a primeira coisa que se vê da porta de casa: um pé alto quebrando a linha reta, que é a mesma função de um biombo por um décimo do preço. Cozinha americana de apartamento pequeno, em que fogão, pia e geladeira dividem dois metros de bancada: um vaso de tempero, uma manjericona, qualquer verde entre a chama e a água, porque nos cinco elementos a Madeira é o que faz a Água virar Fogo em vez de brigar com ele. E o cômodo que mais agradece e de que ninguém lembra é o banheiro: quente e úmido, condição de estufa, onde uma jiboia numa prateleira alta cresce sem que você faça quase nada.

No quarto e na mesa de trabalho a dose muda. Um vaso só, de folha macia, na altura da vista, faz mais do que seis potinhos disputando espaço na escrivaninha. E se você trabalha em casa de frente para uma parede branca, um verde na diagonal do olhar dá ao pescoço um lugar para descansar a cada meia hora, que é uma coisa que o corpo pede o tempo todo e quase ninguém oferece.

Onde não usar

Cacto e suculenta de espinho não são vilões, mas têm dois endereços errados. O primeiro é a cabeceira da cama: você dorme oito horas a trinta centímetros de uma coisa cheia de pontas viradas na sua direção, e a escola lê isso como uma versão em miniatura da flecha secreta. O segundo é a circulação, ou seja, o corredor e a passagem estreita entre móveis, e aqui o argumento nem precisa ser simbólico. Espinho na altura do braço, num lugar por onde todo mundo passa apressado, machuca de verdade, e é sempre a mesma perna que raspa. Na janela do quarto, na varanda, na estante alta, em qualquer canto que ninguém encoste, cacto é planta como outra qualquer.

A versão artificial é decoração, e a escola não trata como cura, por um motivo que fica claro depois de tudo o que está escrito aí em cima: ela não pede nada, não responde nada e não informa nada. Se você usar, use sabendo disso, e pelo menos tire o pó, porque folha de plástico empoeirada consegue a proeza de ser pior que a ausência dela. Agora a frase mais dura desta página, e é a que quase nenhum site brasileiro escreve: um pé morrendo é pior que canto nenhum. Não porque chame coisa ruim, mas pelo motivo mais óbvio do mundo, que é você olhar todos os dias para algo definhando sob a sua responsabilidade. Se secou, tire hoje. Matar cinco plantas até descobrir qual sobrevive na luz que a sua casa tem não é fracasso, é o método.

Como escolher e instalar

Comece pela luz que a sua casa tem. A espécie da foto que você salvou pode simplesmente não dar conta da sua janela, e isso não é falta de jeito, é escolha errada de planta. Janela virada para poço de ventilação ou para varanda coberta pede jiboia, zamioculca, espada de são jorge e pacová, que aguentam pouca claridade e rega irregular. Sacada com sol da tarde aceita quase tudo, inclusive as de flor. Sobre quantidade, um vaso grande resolve mais canto e dá menos trabalho do que seis pequenos espalhados, e sai mais barato em terra e cachepô. O vaso conta como material: barro e cerâmica são Terra, e uma peça pesada num ponto de passagem ancora o conjunto para o olho e para o pé de quem esbarra, enquanto plástico com cachepô é a escolha de quem muda os móveis de lugar todo mês.

A versão de graça vem antes de qualquer compra: pegue o vaso que hoje enfeita a estante sem função nenhuma e ponha na frente da quina do corredor, e metade do trabalho geométrico já está feita. Depois disso, marque um dia fixo da semana e trate como compromisso, porque a rotina é a cura e o resto é acessório. O teste da rega cabe num gesto: enfie o dedo dois centímetros na terra, se sair seco, molhe, se sair úmido, espere mais dois dias. Passe um pano úmido nas folhas grandes uma vez por mês, já que folha empoeirada faz menos fotossíntese e fica opaca. Para quem não pode furar parede existem três saídas: suporte de chão de três pés, prateleira de tensão apoiada entre o piso e o teto, e gancho adesivo de teto para vaso leve, sempre conferindo o limite de peso escrito na embalagem. E tem a solução mais brasileira de todas, que é o vaso em cima do armário com a jiboia descendo pela lateral: nenhum furo e nenhum centímetro de chão gasto.

Você sabia?

O bambu da sorte, aquele vendido em pote com pedrinha e água em toda floricultura de shopping, não é bambu e não vem da China: é a Dracaena sanderiana, uma dracena de mata africana, batizada com o sobrenome de um comerciante de orquídeas do século 19. Ela virou produto de feng shui nos anos 1990, quando a onda do assunto pegou nos Estados Unidos e a planta se mostrou perfeita para o papel, já que sobrevive dentro de água e cresce torta se você quiser que cresça torta. As tabelas de número de hastes que acompanham o pote, três para uma coisa, cinco para outra, oito para outra, também não aparecem nos textos clássicos: são convenção de comércio montada em cima da numerologia chinesa. Nada disso torna a planta ruim, ela é ótima e quase indestrutível. Só torna o folheto da loja uma peça de marketing, e é bom saber a diferença antes de pagar por ela.

O elemento por trás desta cura

Elemento

Madeira

Cores

verde e azul-esverdeado

Formas

tudo que é alto e vertical: estante em pé, coluna, listra que sobe

Materiais

planta viva, madeira crua, algodão, linho, papel

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Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

Quantas plantas a casa precisa ter?
Não existe número, e desconfie de quem der um. O critério da escola é de função: cada vaso deveria estar resolvendo alguma coisa, uma quina viva, um canto morto, uma linha reta entre a entrada e o banheiro, uma bancada em que Água e Fogo se encostam. Se você conseguir dizer em uma frase o que cada planta da sua casa está fazendo ali, a quantidade está certa, seja ela dois ou vinte. Quando a resposta vira uma sensação de selva em que nada nunca termina, é sinal de Madeira demais, e o conserto é dar uma planta de presente para alguém.
Planta artificial serve para alguma coisa?
Serve como decoração e, de quebra, resolve a parte geométrica: uma peça artificial de folha larga na frente de uma quina apaga a aresta igualzinho a uma viva. O que ela não faz é a outra metade do trabalho, que é responder ao cuidado e dizer todo dia que aquele canto tem alguém olhando. Se a sua rotina não comporta rega, prefira a artificial de boa qualidade limpa a uma verdadeira morrendo, essa é a ordem. E se for esse o caminho, ponha o pano de pó nela no mesmo dia em que você limparia as folhas de verdade.
Dizem que planta no quarto rouba oxigênio à noite. É verdade?
Metade é verdade e a metade que importa é falsa. Planta de fato respira à noite e consome um pouco de oxigênio, só que a quantidade é minúscula perto do que uma pessoa dormindo consome no mesmo cômodo: um vaso é fração de fração. O motivo pelo qual a tradição pede moderação no quarto é outro e é de clima, porque muitos vasos deixam o ar mais úmido e o ambiente visualmente ocupado, e quarto pede o contrário disso. Uma ou duas plantas de folha macia, longe da cabeceira, não fazem mal a ninguém.
Eu mato tudo o que planto. Estou fora do feng shui?
Está fora dessa cura específica, e ela é uma entre muitas. Cor, luz, espelho, ordem e desobstrução resolvem quase tudo o que um vaso resolveria, e nenhuma delas depende de você lembrar de regar. Se ainda quiser tentar, comece por zamioculca ou espada de são jorge, que perdoam esquecimento de semanas, e ponha o dia da rega no celular como se fosse consulta médica. A escola não exige talento com plantas, exige honestidade sobre o que você vai manter.

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