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Literatura

O mapa astral de Marquês de Sade

O Marquês de Sade escreveu quase toda a sua obra trancado. Passou vinte e sete dos setenta e quatro anos de vida em confinamento, sob a monarquia, a República, o Consulado e o Império, e teve os livros banidos por cerca de dois séculos. O sobrenome dele virou palavra de dicionário, coisa que quase ninguém consegue. Hoje ele está na Pléiade, a coleção mais canônica da literatura francesa.

Nascimento: 2 de junho de 1740, às 17:00, em Paris, França. Fonte do horário: Mapa do Céu (https://www.mapadoceu.com.br/pt/mapa/marques-de-sade/), nota AA - Registro de nascimento citado.

Este mapa tem treze pontos em vez de catorze: falta Quíron. Não é falha no dado, é limite das tabelas astronômicas. Quíron só foi descoberto em 1977 e as posições calculadas dele não retrocedem até 1740. Sol, Lua, Ascendente e todos os planetas estão completos.

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A geometria real do céu de 02/06/1740

O céu em números

  • Sol12°17' Gêmeos · casa 8
  • Lua13°43' Virgem · casa 10
  • Ascendente10°56' Escorpião · casa 1
  • Meio do Céu24°13' Leão · casa 10
  • Mercúrio18°32' Touro · casa 7
  • Vênus27°16' Câncer · casa 9
  • Marte24°36' Áries · casa 6
  • Júpiter17°14' Gêmeos · casa 8
  • Saturno22°04' Câncer · casa 9
  • Uranoretrógrado13°51' Capricórnio · casa 2
  • Netuno4°12' Câncer · casa 8
  • Plutãoretrógrado6°27' Escorpião · casa 12
  • Lilith21°01' Leão · casa 9

Sol, Lua, Ascendente e o elenco

a essência no assunto proibido

Sol em Gêmeos, casa 8

O Sol é o núcleo da pessoa, aquilo que ela não consegue deixar de ser. O dele fica em Gêmeos, o signo da escrita e da língua solta, bem na parte do mapa que trata do que não se diz em voz alta. É uma combinação estranhamente exata pra um escritor cujo tema foi justamente aquilo que o século dele não admitia pôr no papel.

a ordem por dentro

Lua em Virgem, casa 10

A Lua é o funcionamento privado, o que roda longe da plateia. A dele fica em Virgem, o signo da lista, do inventário e do detalhe numerado, no alto do mapa. É contraintuitivo e verdadeiro: por baixo da fama de desmedido, os livros dele são construções rigorosamente organizadas, com plano, numeração e simetria.

a porta de ferro

Ascendente em Escorpião

O Ascendente é a primeira leitura que os outros fazem de alguém. O dele é Escorpião, o signo do que encara sem desviar o olho. Bate com um autor que fez do desconforto a matéria-prima do trabalho e nunca ofereceu ao leitor a saída fácil.

a paciência da frase

Mercúrio em Touro, casa 7

Mercúrio governa a escrita e o ritmo da frase, e o dele fica em Touro, o signo do que se faz devagar e feito pra durar, na parte do mapa que fala do outro. É o eco de um escritor de fôlego enorme, capaz de encher milhares de páginas sem perder o fio da meada.

o apego ao que se herda

Vênus em Câncer, casa 9

Vênus responde pelo apego e pelo que se considera valioso. A dele fica em Câncer, o signo do apego, na parte do mapa que trata de crença e de mundo lá fora. É um detalhe curioso num aristocrata que passou a vida escrevendo contra a ordem de valores que o formou.

a força de escrever

Marte em Áries, casa 6

Marte é o motor bruto do mapa, e a dele fica em Áries, o signo que ele mesmo comanda, na parte do mapa que cuida do trabalho de todo dia. É energia bruta aplicada à rotina. Ele escrevia em volume industrial, e escrevia trancado, sem editor, sem plateia e sem certeza nenhuma de que alguém leria.

O que o mundo vê, e onde isso mora no mapa

O assunto que não se fala

Sol e Júpiter em Gêmeos na casa 8, a do que fica por baixo

Gêmeos é o signo da escrita, e a casa 8 é o pedaço do mapa que trata do que uma sociedade prefere não nomear. A essência dele e Júpiter, o planeta do sempre mais, estão os dois ali. É o retrato de um autor que escolheu como matéria exatamente o que o mundo dele mandava calar, e que insistiu nesse assunto muito além de qualquer medida. Os livros ficaram proibidos por perto de dois séculos e só entraram no cânone francês no século XX.

A obra escrita trancado

Plutão em Escorpião na casa 12, a do confinamento e do que fica guardado

A casa 12 é o canto do mapa que fala de reclusão, de porta fechada, do que acontece fora da vista. E o planeta que está lá é Plutão, no signo dele próprio, que é o do que se enterra. Praticamente toda a obra do Sade foi escrita em confinamento, ao longo de vinte e sete anos somados e sob quatro regimes políticos diferentes. Ele não escrevia apesar da cela: escrevia dentro dela, e ela virou parte do trabalho.

O nome que virou palavra

Meio do Céu em Leão, o signo do nome próprio

Todo mapa tem um ponto que trata do rastro deixado no mundo, e o dele caiu em Leão, o signo que cuida justamente do nome, da assinatura, do que fica gravado. Poucas pessoas na história conseguiram, sem querer, o que ele conseguiu: o sobrenome virou substantivo comum. A palavra sadismo já aparecia em dicionários franceses na primeira metade do século XIX, décadas antes de o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing lhe dar, em 1886, o sentido clínico que a consagrou. Hoje ela é usada todo dia por gente que nunca leu uma linha do autor.

A oficina

Marte em Áries na casa 6, a do trabalho de todo dia

Marte no signo que ele comanda, dentro da casa da rotina e do ofício, é a imagem de força bruta canalizada em tarefa diária. Ele escrevia como quem bate ponto: um dos romances dele foi redigido em cerca de duas semanas, em 1787, e o manuscrito mais famoso saiu em trinta e sete noites de trabalho seguido, no fim de 1785. Volume e velocidade nesse tamanho não são talento, são disciplina.

O caos com planilha

Lua em Virgem na casa 10, a da imagem pública

A Lua mostra o que a pessoa sente, e a dele está no signo mais metódico do zodíaco, bem no alto do mapa, onde a imagem pública se forma. É a contradição mais interessante desse céu. A fama do Sade é de desmesura, mas a arquitetura dos livros é de contador: partes numeradas, progressões calculadas, simetrias que fecham no fim. Quem espera bagunça encontra planilha.

As conversas do céu

A cabeça que rompe sem esforço

Lua e Urano em ângulo fácil, a 0,14 grau

De um lado a Lua, o mundo de dentro. Do outro Urano, o planeta da ruptura, do que se recusa a caber na regra. No céu dele, um escorrega no outro sem atrito nenhum, num dos encontros mais fechados de todo o céu. Costuma dar quem acha natural aquilo que os outros acham impensável. É o eco de um escritor para quem quebrar o limite não era esforço: era o ponto de partida.

A briga consigo mesmo

Sol e Lua em tensão, a 1,43 grau

O Sol é quem a pessoa é e a Lua é o que ela sente, e quando esses dois brigam num mapa costuma dar alguém em desacordo permanente consigo. Combina com um autor que viveu entre dois mundos que não se falam: aristocrata de berço e demolidor do mundo aristocrático por escrito.

A reputação construída no enfrentamento

Marte em ângulo fácil com o alto do mapa, a 0,39 grau

Marte é a coragem e o alto do mapa é a marca deixada no mundo, e no céu dele um empurra o outro de bem perto. Costuma dar quem constrói nome na base do confronto, e não da simpatia. A posteridade dele é exatamente isso: um nome que continua incomodando duzentos anos depois, e que ninguém consegue citar em tom neutro.

Elementos e aspectos

A mistura dos elementos

  • terra30%
  • Água30%
  • ar22%
  • fogo18%

Os aspectos mais apertados

  • Lua trígono Urano · 0,14° de folga
  • Marte trígono Meio do Céu · 0,39° de folga
  • Urano oposição Nodo Norte · 0,56° de folga
  • Lua sextil Nodo Norte · 0,7° de folga
  • Sol quadratura Lua · 1,43° de folga

Você sabia?Você não vai acreditar na história do manuscrito mais famoso dele. Os 120 Dias de Sodoma foi escrito na Bastilha no fim de 1785, num rolo contínuo de doze metros e dez, feito de folhas pequenas coladas uma na outra, escrito dos dois lados em letra minúscula e escondido na parede da cela. Ele foi transferido de lá dez dias antes de a Bastilha ser tomada, perdeu o rolo, e escreveu que chorou por aquilo lágrimas de sangue. Morreu certo de que o texto tinha sumido. O papel sobreviveu, apareceu impresso só em 1904 e, mais de dois séculos depois de escrito, foi classificado como tesouro nacional francês em 2017 e comprado pela Biblioteca Nacional da França em 2021.

Tira-dúvidas

Perguntas frequentes

De onde vem a hora de nascimento de Marquês de Sade?
Da fonte declarada logo abaixo do título, Mapa do Céu (https://www.mapadoceu.com.br/pt/mapa/marques-de-sade/), nota AA - Registro de nascimento citado. A regra da casa é não publicar mapa sem origem de horário: hora sem fonte transforma o Ascendente e todas as casas em chute, e é justamente aí que a leitura muda mais. Quando a confiança do registro é média, a própria página avisa.
Ter o mesmo signo de Marquês de Sade quer dizer ser parecido com Marquês de Sade?
Não, e a lista de pontos aqui do lado mostra por quê. Além do Sol em Gêmeos, Marquês de Sade tem Lua em Virgem e Ascendente em Escorpião, e cada um dos outros astros num grau e numa casa. Duas pessoas do mesmo signo solar quase nunca repetem o resto do desenho.
Se a hora estiver um pouco errada, o que muda?
Mudam o Ascendente e a divisão das casas, que dependem da rotação da Terra e viram depressa: poucos minutos já podem trocar o signo que subia no horizonte. Os astros mais lentos praticamente não saem do lugar, então a leitura deles por signo continua de pé mesmo quando o horário é aproximado.
Como comparo o meu mapa com este?
Calcule o seu de graça na calculadora que fica logo abaixo: ela devolve a mesma roda e a mesma lista de pontos que você está vendo aqui. Com os dois lado a lado, fica fácil reparar no que se repete e no que é só seu.

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